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Expresso

1324 dias

16 de Março de 2017

… mais sessenta. “Nunca menos”. É esse o tempo que corre desde que, a 19 de julho de 2013, Rosário Teixeira fez a abertura oficial de uma investigação por causa de duas transferências feitas por um empresário que ninguém no espaço público conhecia, chamado Carlos Santos Silva. Ontem, a equipa de procuradores pediu mais dois meses para avançar com a acusação do Processo Marquês, que tem como principal arguido José Sócrates.

1324 dias é muito tempo? É. Não é.

É: justiça lenta não é justiça, por prolongar o peso da suspeita sobre aqueles que investiga e afastar do tempo dos factos a consequência dos atos. A justiça está feita quando há absolvição ou condenação. Tendo em conta a visibilidade deste caso, e a natureza dos arguidos, pior ainda, a presunção de inocência é abalroada pelo julgamento público.

Não é: este é um caso muitíssimo complexo, passa por vários países e offshores, numa investigação que tenta destecer uma rede de transferências suspeitas que inclui testas-de-ferro, malas de dinheiro e supostos favores não documentados. Tudo isto com uma equipa de oito procuradores, o que é muito para o que é costume mas é pouco para o que é preciso. Basta ver outros casos: a investigação à Operação Furacão demorou mais de dez anos

Como sublinhava o Rui Gustavo e o Micael Pereira, “o próprio diretor do DCIAP, Amadeu Guerra, está envolvido no processo final de elaboração do despacho, o que não é normal nem vulgar.” O “faltam meios” não é uma reivindicação corporativista. É um facto. É impossível não reparar que nestes grandes casos de criminalidade financeira os nomes dos investigadores são sempre os mesmos. Não há muitos mais com aquela capacidade técnica. Um está quase em todos.

É Rosário Teixeira quem tem a visão de conjunto para um processo que, como o Expresso explicava este sábado, assenta em três partes, cada um delas dedicada a um motivo diferente para Sócrates ter sido alegadamente corrompido: o Grupo Lena; o resort de luxo de Vale do Lobo; e os interesses do Grupo Espírito Santo nos negócios da PT.

Vai a procuradora-geral da República diferir o requerimento para prolongar "por nunca menos de sessenta dias" o prazo para concluir a investigação? Dificilmente poderá recusá-lo. De outra forma, a investigação rui e o próprio Ministério Público cai no descrédito total.

Sócrates vai ser acusado. De corrupção, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais. Os crimes são puníveis com penas de cadeia entre um e oito anos. Entre 365 e 2920 dias.

OUTRAS NOTÍCIAS
Há 30 anos que os holandeses não se empenhavam tanto numas eleições: 81% dos eleitores foram ontem às urnas. Com quase todos os votos contados, confirma-se o chumbo da extrema-direita no seu primeiro grande teste de 2017, antes das presidenciais em França e das eleições federais na Alemanha.

A jornalista Joana Azevedo Viana faz o resumo da análise. Celebrando a vitória do seu Partido Liberal Conservador (VVD), o primeiro-ministro Mark Rutte congratulou-se com a derrota do “tipo errado de populismo” seguido por Geert Wilders ao leme do Partido da Liberdade (PVV, extrema-direita). O VVD alcançou 33 dos 150 assentos parlamentares, menos oito que há quatro anos, seguido do PVV com 20 assentos. Depois de várias semanas a liderar as sondagens, Wilders já se ofereceu para integrar uma futura coligação — mas nenhum dos outros 27 partidos nos boletins de voto quer isso.

Hoje celebra-se a derrota eleitoral da extrema-direita num plebiscito ensombrado pela querela diplomática com o governo da Turquia, mas o grande castigado nas legislativas foi o Partido Trabalhista (PvdA), parceiro de coligação cessante do VVD — que, em linha com a tendência de queda dos socialistas no continente europeu, passou de 38 para 9 deputados. Rutte tem agora a seu cargo “negociações complicadas” para formar governo, refere o “Financial Times” — um que poderá vir a integrar os democratas-cristãos e/ou os liberais progressistas, empatados no terceiro lugar com 19 assentos cada. Por ora a Zona Euro já suspirou de alivio, com o Euro a subir para o valor mais alto desde 7 de fevereiro.

Sem poder contar com a bandeira do PVV holandês, Marine Le Pen vira-se para o Brexit para atrair votos nas presidenciais de 23 de abril em França; continua em segundo lugar nas sondagens e ontem disse a Nigel Farage, a cara do populismo britânico, que o Reino Unido "descobriu as chaves da prisão" que, diz, é a União Europeia.

Donald Trump não desiste de travar a entrada de muçulmanos nos EUA, mas um juiz federal do Hawai acabou de suspender o seu segundo decreto anti-imigração, que previa a proibição de entrada de cidadãos de seis países de maioria muçulmana sem visto e suspendia os programas de acolhimento de refugiados.

Com mais um braço-de-ferro com o judiciário a ensombrar a sua administração, o Presidente vai pedir ao Congresso que aprove mais investimento no combate à imigração, com uma proposta de Orçamento federal para o ano fiscal de 2018 em que o Ambiente, a Cultura e a ajuda externa são sacrificados em prol de mais despesa na área da Defesa.

A situação no Iraque e os estragos feitos pelo Estado Islâmico são temas do 2.59 de hoje, feito pela Cristina Pombo, e que pode ver no site do Expresso.

Enquanto a barricada conservadora do Partido Republicano celebra os cortes na Agência de Proteção Ambiental (EPA), os cientistas continuam a alertar para a urgência de reverter as alterações climáticas. Hoje, especialistas da Universidade de Queesland fazem um alerta na revista "Nature": sem mais coordenação global no combate ao aquecimento do planeta, a Grande Barreira de Corais da Austrália vai desaparecer — e, com ela, até um quarto da biodiversidade marinha.

Em Portugal, o estado nutricional não é famoso e um estudo faz hoje a manchete de três dos maiores jornais nacionais. “Idosos consomem álcool e excesso”, afirma o DN; “Portugueses consomem demasiada carne e abusam do sal e açúcar”, titula o Público; “Mais de metade dos portugueses sofrem de obesidade”, assinala o JN.

Comecemos precisamente pela notícia no Jornal de Notícias. Este jornal afirma que oito em cada dez idosos sofrem de obesidade ou são pré-obesos e que apenas 27 por cento dos portugueses fazem pelo menos meia hora de exercício físico todos os dias. No Diário de Notícias destaca-se que há em Portugal 105 mil idosos que bebem mais de um litro de álcool por dia. Além disso, Açores e Alentejo são as regiões do país com mais obesidade. Já o Público, destaca que “os portugueses exageram na carne e nos lacticínios e tendem a não comer as proporções certas de hortaliças, fruta, tubérculos, cereais e derivados”.

A biografia de Jorge Sampaio ainda não chegou às bancas mas os seus efeitos já se fazem sentir. Depois do Expresso ter revelado partes do livro escrito por José Pedro Castanheira (jornalista da casa), sobre o conturbado período que levou à demissão de Santana Lopes no final de 2004, o antigo primeiro-ministro veio responder de forma provocadora. Primeiro, na SIC Notícias, desafiou Sampaio para um debate sobre o tema. Agora, em entrevista à Rádio Renascença, revela que Sampaio mandou o país para eleições para facilitar a eleição presidencial de Cavaco Silva em 2006. Estranho? Pois, o melhor é ler aqui.

Na economia, o último ano foi positivo para a Sonae, que apresentou resultados: o volume de negócios cresceu mais de 7 por cento e os lucros subiram 25 por cento.

Vítor Gaspar, o antigo ministro das Finanças que foi trabalhar para o FMI, afirma que a culpa da situação na Caixa Geral de Depósitos é do governo de José Sócrates. A acusação está na resposta que Gaspar enviou por escrito aos deputados da comissão parlamentar de inquérito à gestão do banco público.

A missão do Parlamento Europeu que está a investigar o caso dos Panama Papers vai enviar uma missão a Portugal com o objectivo de falar com o Banco de Portugal, a Polícia Judiciária, vários ministros das Finanças e ainda o antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais Paulo Núncio. Em causa está a polémica do envio de milhares de milhões de euros para offshores.

Marcelo Rebelo de Sousa lançou esta semana um desafio ao governantes para que os orçamentos sejam feitos com base em estratégias de médio e longo prazo.

A Força Aérea revelou que no último ano os aviões caça F16 interceptaram duas dezenas de aeronaves suspeitas no espaço aéreo nacional.

O programa Escola Segura, da PSP, vai ser alargado às universidades. O motivo? De acordo com a polícia, citada pelo DN, as universidades “fazem parte de um conjunto de setores considerados prioritários na prevenção das ideologias extremistas”.

Quanto à GNR, a novidade hoje é que o Governo já corrigiu o diploma do estatuto da força de segurança, depois do veto de Marcelo Rebelo de Sousa. O Governo defendia que oficiais da GNR sem o curso da Academia Militar pudessem chegar a generais, mas Marcelo veio levantar muitas reticências.

No Desporto, um dos destaque do dia é o magnífico apuramento do Mónaco para os quartos de final da Liga dos Campeões em futebol. A equipa francesa, liderada por Leonardo Jardim (e com Bernardo Silva a titular e João Moutinho a entrar na segunda parte) venceu o poderoso Manchester City de Guardiola por 3-1, depois de ter perdido 5-3 na primeira mão.

Notável ainda a prestação do português Frederico Morais ‘Kikas’ esta madrugada, na prova inaugural do Mundial de Surf. O português bateu na primeira ronda o brasileiro Filipe Toledo e o australiano Adrien Buchan, e passou directamente para o round 3.


FRASES
“Aqueles que hoje em dia acham que Carlos Costa foi vesgo e cobarde por não ter corrido mais cedo com Ricardo Salgado não foram vesgos e cobardes no que diz respeito a José Sócrates?” João Miguel Tavares, no Público.

“Este ano pode ser o fim da tendência de populismo na Europa”, Augusto Santos Silva, MNE, em entrevista ao Público

“Sem capital estrangeiro não é possível reestruturar os bancos”, Jorge Costa Oliveira, secretário de Estado da Internacionalização, ao i

“O sistema dos poderosos era mais amigo de Jorge Sampaio do que meu amigo”, Santana Lopes, sobre a demissão do governo que liderava em 2004.


O QUE EU ANDO A LER
Toda a gente conhece a história, mas quem leu mesmo o livro? Quem não o leu não sabe…

… que a versão Disney é tão simplificadora quanto banhada a prata. É a versão Disney que é universalizada, não o livro original, e é ela que decanta os defeitos para cantar os feitos do Peter Pan, numa fórmula que foi sendo tão amplificada pelo cinema que mitificou um narciso.

Disney e Hollywood são bons vendedores de sonhos, mas descarnaram o livro para encarnar num personagem a pureza da ingenuidade, ideal a que nos afeiçoamos porque gostamos de histórias felizes ou de histórias infelizes que sejam histórias de amor - e estamos dispostos a construir ou a acreditar em narrativas que vão além das narrações mas na verdade ficam aquém delas. A hiper-romantização não é o hiper-romantismo, é só uma hipérbole infiel ao texto mesmo se leal a nós.


Eis um excerto do posfácio que escrevi para uma edição da versão integral de “Peter Pan”, de J. M. Barrie, que o Expresso vai distribuir daqui a duas semanas, a 1 de abril. O livro original é incomparavelmente…

… muito mais rico do que a história contada, mesmo que o final seja mais triste, os personagens mais imperfeitos e o Peter Pan desmitificado

Esta edição do texto original é acompanhado de maravilhosas ilustrações de Cláudia Guerreiro e anotações preciosas de Rita Redshoes. E este tal posfácio, que…

… é certamente um clamor a “Peter Pan”, mas não é um louvor ao Peter Pan.

Acha mesmo que conhece a história de Peter Pan? Espero que sim. Por já tê-lo lido ou por lê-lo agora. Não é um livro só para crianças. Nem só para as crianças que não cresceram.

Tenha um excelente dia. Nós estamos aqui, todo o dia, e já a fechar a edição do semanário do próximo sábado.

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