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Expresso Curto

POR João Vieira Pereira Diretor-Adjunto
15 de Março de 2017

Está preparado para o Nexit?

É um cenário muito improvável. O Nexit (saída da Holanda da UE) dificilmente ocorrerá. Mas lembro que nos últimos tempos, e em política, o mais improvável tem tido uma elevada capacidade de se tornar real. Hoje há eleições na Holanda, marcadas por um líder da extrema direita anti-islâmico que ameaça retirar o seu país da Europa e por uma guerra diplomática com a Turquia.

As hipótese de Geert Wilders, do Partido da Liberdade (PVV), ganhar são maiores do que as que tem de conseguir formar Governo. Isto porque a votação deverá ser bastante distribuída por 11 partidos, sem que nenhum consiga votos suficientes para governar sozinho.

O resultado deverá levar a semanas ou meses de negociações para permitir a formação de um governo. Mas Wilders já marcou definitivamente estas eleições. Se tiver um bom resultado pode não levar à saída da União Europeia mas compromete seriamente as pretensões da Europa de proceder a uma maior integração. Até porque outros líderes, a reboque da popularidade de Wilders, estão a endurecer o discurso contra a Europa. Isto vindo de um dos países considerado tradicionalmente europeístas e tolerante.

Apesar da queda das últimas semanas nas sondagens, são muitos os apoiantes de Wilders. Que o diga Rentes de Carvalho. O escritor português que reside há 60 anos na Holanda explica em entrevista as razões do seu voto no PVV.

Ao mesmo tempo a guerra de palavras com Ancara subiu de tom. As palavras de Recep Tayyip Erdogan não podiam ser mais duras: “Conhecemos a Holanda e os holandeses do massacre de Srebrenica. Sabemos o quanto podre é o seu caráter pelo massacre de 8000 bósnios naquela cidade”.

O presidente turco referia-se ao facto da zona onde ocorreu o genocídio ter sido considerada segura pelos capacetes azuis holandeses em 1995. Um comportamento que acabou por levar à demissão do governo holandês em 2002 ao admitir que as tropas podiam ter feito mais. Erdogan disparou ainda contra a Alemanha e União Europeia numa espécie de comício eleitoral para preparar o referendo que será realizada na Turquia com o objectivo de atribuir mais poderes ao presidente e levar à sua eternização no poder.

Sobre o tema não perca as opiniões de Daniel Oliveira e de Henrique Raposo.

As eleições de hoje são apenas o primeiro de vários testes à Europa. Em maio haverá eleições em França e apesar de Marie Le Pen ser dada como perdedora numa segunda volta…. Bem nunca se sabe, mas a sua eleição seria um golpe fatal numa Europa por vezes moribunda.

Isto na mesma altura em que a Europa dá mais um tiro nos pés ao considerar que as empresas podem proibir as suas funcionárias de usarem o véu islâmico ou quaisquer outros símbolos religiosos, políticos ou filosóficos. Como diz Henrique Monteiro esta medida “só contribui para a radicalização de uma comunidade que, por mais que se diga que não, já é olhada de lado um pouco por todo o lado. Le Pen ou Wilders não teriam desejado outra coisa.”.

Para perceber melhor o uso do hijab, proponho que passe os olhos por estes trabalhos da Al Jazeera: ‘What the hijab means to me’; ‘Sweden's hijabista: Selling Muslim fashion’ e ‘The Veil’, ou leia o depoimento de Nurjaha Mohamed Tarmahomed, uma empresária muçulmana a trabalhar em Lisboa

OUTRAS NOTÍCIAS
Quando se esperava que finalmente saísse a acusação contra José Sócrates, e a 3 dias do fim do prazo, eis que há novas buscas no âmbito da Operação Marquês. Desta vez nas instalações do Grupo Espírito Santo. A pergunta é minha. Mas o que esperam encontrar mais de três anos depois do início da investigação e quase três anos depois do colapso do GES? Quando li a primeira notícia pensava que era brincadeira. Mas não é. E por causa destas buscas pode vir novo adiamento da acusação. Já não há paciência para uma Justiça que se mexe a passo de caracol e que perde a cara a cada dia que passa.

Quem também já perdeu a paciência foi a defesa de José Sócrates, que alega que o prazo para concluir o inquérito terminou à meia-noite de segunda-feira. Sendo assim requereu a notificação do despacho de arquivamento.

Marcelo Rebelo de Sousa vetou (o seu quarto veto) o novo estatuto dos militares da Guarda Nacional Republicana (GNR), por considerar que a possibilidade de promoção ao posto de brigadeiro-general "pode criar problemas graves".

O Presidente da República patrocina hoje uma conferência sobre investimento em Portugal que se realiza na Gulbenkian. O dia inteiro a estudar o que está bem e mal e como se pode atrair mais investimento. Mário Centeno não participa, mas devia estar sentado na primeira fila depois do desastre que foi o investimento público no ano passado.

Depois da avaliação desastrosa que o Banco de Portugal fez à gestão do Montepio, divulgada pelo Expresso, e depois do Público ter noticiado um ‘buraco’ de 107 milhões na Associação Mutualista que controla o Montepio, Tomás Correia veio dar explicações.

Para o ex-líder do banco, e atual líder da mutualista, não há qualquer problema, já que o ‘buraco’ de 107 milhões “se resolve” com o regresso do banco e da seguradora (a Lusitânia) aos lucros.

Tomás Correia é arguido em vários processos que decorrem dos anos que esteve à frente do Montepio, mas nem quer ouvir falar em demissões. Diz que tudo é fruto de “uma campanha que existe contra o Montepio, desde o verão de 2014, sabe-se lá porquê". Por isso responde com um "não contem comigo para ceder a esse tipo de chantagem".

Também confortável parece estar Vieira da Silva. É o Ministério do Trabalho e Segurança Social que tem obrigação de supervisionar a Associação Mutualista. Sobre a situação apenas disse que “do ponto vista do acompanhamento que o Ministério tem feito, os rácios de cobertura para produtos que são avaliados, como em qualquer outra mutualidade, têm-se mantido em níveis confortáveis".

Hoje é a vez de Félix Morgado, o presidente do Montepio (banco), dizer em entrevista ao Negócios que a instituição que lidera vai ter de mudar de nome, que as fragilidades de controlo do banco já foram superadas, que a transformação em sociedade anónima estará concluída em abril, que vai vender mil milhões de mal parado e que está tranquilo em relação aos créditos concedidos pela anterior gestão.

Esperemos então, mas todo este processo começa a lembrar casos passados, como a guerra de poder dentro do BCP ou as ligações perigosas entre acionista e banco que deitou abaixo do BES.

O Estado deve reforçar a sua posição até 50% do capital da TAP até abril. Humberto Pedrosa disse ao Expresso que a empresa "está a evoluir favoravelmente" e que o relacionamento entre os seus acionistas "está muito equilibrado e estável".

A ZAP, empresa controlada por Isabel dos Santos, retirou da grelha os canais SIC Notícias e SIC Internacional em Angola e Moçambique. O ordem veio diretamente da operadora e tem gerado protestos em Luanda.

Ontem foi mais um dia de Liga dos Campeões, que ditou o afastamento das equipas portuguesas da prova. Depois de Maxi Pereira ter tentado fazer de Casillas, o Porto acabou por perder. Esta saída prematura faz com que em 2018/2019 só duas equipas portuguesas terão entrada na liga milionária.

LÁ FORA
Trump
registou mais de $100 milhões de perdas, de forma a reduzir os seus impostos federais em 2005. Os documentos da sua declaração foram tornados públicos pela MSNBC (pode vê-los aqui) e mostram como o presidente americano pagou $38 milhões em impostos para um rendimento de $150 milhões, ou seja, uma taxa de 25%. É a primeira vez que parte das declarações que Trump não quis mostrar são tornadas públicas.

O gigante HSBC está à procura de um novo CEO que tome conta dos destinos da instituição financeira a partir do próximo ano. E na lista de nomes apontados para o lugar estão dois portugueses. António Horta Osório, que lidera atualmente o Lloyds, e António Simões, que chefia a operação financeira do HSBC, fazem parte dos nomes que circulam na city londrina. Segundo a Reuters, na corrida para o cargo também estão o responsável pelo retalho e gestão de fortunas no HSBC, John Flint, e o ex-Goldman Sachs Matthew Westerman.

O FED deverá anunciar nova subida de taxas esta quarta-feira. Os mercados esperam pelo menos um aumento de 50 pontos base, o que colocará a taxa nos 1,25%. Que consequências terá este aumento? As respostas aqui.

Nova Iorque acordou branca mas os piores receios não se confirmaram, já que se esperava uma autêntica tempestade de neve que podia rivalizar com a de 1888. Mesmo assim há regiões do leste dos Estados Unidos onde a queda de neve foi muito elevada. Para esta quarta-feira são ainda esperados fortes nevões.

Há países onde as acusações são rápidas. François Fillon já foi formalmente acusado por ter supostamente usado de forma indevida fundos públicos para pagar à sua mulher e a dois dos seus filhos por empregos fictícios.

Theresa May deverá embarcar num périplo pelo Reino Unido para preparar um consenso britânico sobre o acionamento do artigo 50 no final de março e que levará ao início das negociações do Brexit. Uma resposta a Nicola Sturgeon, líder do governo escocês, que anunciou, na passada segunda feira, a intenção de realizar um novo referendo sobre a independência da Escócia no final de 2018 ou princípio de 2019, acusando a primeira-ministra britânica de não fazer nada pelas pretensões escocesas de acesso ao mercado único.

Na preparação para a saída do Reino Unido o The Guardian fez uma lista (bucket list) das coisas que os britânicos devem aproveitar para fazer antes do Brexit. Imperdível.

“É claro que as mulheres devem ganhar menos do que os homens, porque são mais fracas, são mais pequenas, são menos inteligentes. Elas devem ganhar menos. É tudo”. Foram estas palavras que levaram a que deputado polaco Janusz Korwin-Mikke (fundador do partido de extrema-direita e eurocético ‘Coligação para a Renovação da República’) fosse multado em €9210, suspenso durante 10 dias da participação em todas as atividades e proibido de representar o Parlamento Europeu (PE) durante um ano. “Não irei tolerar este tipo de comportamento, em particular de quem deveria, com dignidade, representar os cidadãos europeus”, afirmou Antonio Tajani, presidente do PE.

Vale a pena recordar esta personagem, que defende que o esperma dos homens influencia a maneira como as mulheres pensam, que metade das mulheres que recusam sexo estão na verdade a dizer sim, que não há provas que Hitler sabia do Holocausto ou que Mussolini estava a tentar proteger os judeus quando ordenou a sua espoliação e extradição para os campos de concentração.

Lembra-se do vídeo da BBC no qual um comentador é interrompido pela entrada dos seus filhos durante um direto? Considerado já um dos vídeos mais virais do ano, mudou radicalmente a vida de uma família na Coreia do Sul. Veja aqui a primeira entrevista de Robert Kelly e da sua mulher, Kim Jung-A, que explicam como viveram o caos das reações mundiais ao sucedido.

Nada tem tanta capacidade para se tornar viral como os vídeos. E o Facebook, sabendo disso, anunciou há um ano que ia avançar com o Facebook live. Um ano e muitos milhões depois, o gigante reconhece que não estava preparado para enfrentar o que aí vinha, nomeadamente em relação a vídeos que transmitiam cenas de violência. Agora é tempo de repensar o modelo. O Wall Street Journal explica-lhe o que anda Mark Zuckerberg a fazer.

Para tentar combater a disseminação de mensagens de ódio e de notícias falsas o parlamento alemão apresentou o esboço de uma lei que impõe multas até €50 milhões às redes sociais que não as conseguirem apagar. A medida, que é o maior ataque de um país europeu a plataformas como Facebook ou Twitter, reflete as preocupações alemãs com as eleições para eleger o novo chanceler, marcadas para o final do ano.

Vem aí a verdadeira inteligência artificial tal como a conhecemos dos filmes de ficção científica. Uma empresa do Google, a DeepMind, criou um programa que consegue aprender uma tarefa atrás de outra usando técnicas que vai aplicando.

Seis anos. É o tempo que dura a guerra na Síria que começou em Março de 2011. Desde então mais de 500 mil pessoas morreram e metade da população foi deslocada das suas casas. Sem nada para comemorar na passagem de mais um ano, esta reportagem da Al Jazzera é mais um murro no estômago.

O gestor da campanha eleitoral do atual presidente colombiano, Juan Manuel Santos, reconheceu que a construtora brasileira Odebrecht os financiou de forma irregular. Isto quando a empresa estava a ser investigada por ter montado uma rede de subornos na América Latina.

O QUE DIZEM OS NÚMEROS
10% é quanto caiu o preço do petróleo numa semana. O mundo já se está a preparar para viver outra vez com o barril bem abaixo dos 50 dólares, mas a Arábia Saudita já veio reafirmar que está comprometida a cortar a produção.

60% é quanto o Google e o Facebook vão controlar do mercado digital de publicidade em 2017.

400 milhões de dólares é o valor pelo qual a família do genro de Donald Trump, Jared Kushner, está a negociar a venda de uma participação na empresa que detém o emblemático edifício 666 da 5º Avenida. E quem poderá comprar? A seguradora Anbang, a mesma que esteve quase a comprar o Novo Banco. Entretanto a empresa chinesa já veio desmentir o interesse.

525 é o numero de refugiados que morreram no Mediterrâneo nos primeiros meses deste ano a tentar chegar à Europa.

€80 milhões é valor do prémio que uma aposta registada em Faro vai receber por ter ganho o Euromilhões.

O QUE EU ANDO A LER
Quando olhamos para os números da economia americana é difícil concluir que está num momento de estagnação. Na realidade, nem precisamos olhar para qualquer estatística, basta saber que é nos Estados Unidos que todos os anos surgem milhares de empresas que se propõem mudar o mundo. E algumas efetivamente conseguem.

Por isso associamos a economia americana a crescimento, a inovação, empreendedorismo e vitalidade económica, principalmente dos grandes centros urbanos. Tyler Cowen defende exatamente o contrário.

No seu primeiro livro (que tem mesmo de ler) defendeu que o mundo, principalmente o mais desenvolvido e concretamente a ‘América’, atravessa uma fase de grande estagnação. O economista argumenta que ao longo dos tempos as economias só crescem aplicando as tecnologias já existentes ( é o caso mais recente da India ou da China) ou através do constante descobertas de novas inovações.

Na sua tese, os Estados Unidos beneficiaram em grande medida de fenómenos que ajudaram a tornar-se a super economia que é hoje. Imigração em massa com acesso a terras baratas que geraram altas rentabilidades. O mesmo aconteceu noutros sectores como no mineiro, na indústria e até na construção de metrópoles altamente produtivas. Mais tarde veio a transformação educacional que democratizou os cursos superiores e construiu a sociedade do conhecimento com ganhos enormes de produtividade. Só que Tyler defende que esse ‘el dorado’ norte americano terminou e que nas últimas décadas, por não termos tido uma grande disrupção, o EUA estão condenados à estagnação. E então a internet? A pergunta é óbvia, só que Cowen advoga que na realidade este boom tecnológico da World Wide Web está a criar um mundo onde muitas coisas são grátis e a provocar uma enorme destruição de emprego. Pelo que o impacto na criação de riqueza é menor.

Conclusão. Tyler Cowen defende que estamos num período de enorme estagnação económica

Considerado pela revista The Economist como um dos economistas mais influentes da última década (numa lista liderada por Ben Bernanke), Cowen é mais conhecido por ser um dos autores do blogue Marginal Revolution e colunista do The New York Times. E agora tem um novo livro (só disponível em inglês), intitulado The Complacent Class, no qual defende, no seguimento do anterior, que os Estados Unidos estão numa agradável letargia e que isso é uma receita para um enorme crise a médio prazo.

Ao contrário da ideia que temos dos Estados Unidos, a mobilidade das pessoas é metade da que foi nos anos 60. Um comodismo que está a alastrar à economia. E as pessoas mudam cada vez menos de emprego. Mesmo sendo o país berço de muitas startup, Cowen defende que o empreendedorismo está em queda e que é hoje menor quando medido em percentagem da atividade da economia. E como se não fosse suficiente a inovação empresarial e o desenvolvimento das cidades estão a abrandar. Sintomas de uma sociedade e uma economia cada vez mais desiguais e segregadoras. Uma antecâmara para o desastre. E o que está na causa disto tudo?

A facilidade com que hoje se fazem melhores escolhas. A facilidade com que hoje se faz o encontro entre a oferta e a procura, entre o que se procura e o que há. Seja na música, através de aplicações como o Spotify (que eu estou a usar neste preciso momento em que escrevo este Expresso Curto), seja no eBay, ou até nas viagens com o Airbnb. Mas se as escolhas do consumidor são mais eficientes e duradouras, isso leva a menos escolha e a um impacto direto e negativo na economia, que está a tornar-se menos dinâmica. O mesmo se passa no mercado de trabalho ou na escolha do sítio para viver. Curiosamente, Tyler defende que a facilidade de escolha de sítios para viver está a fomentar a criação de melhores condições, para os que têm maior poder de compra se juntarem em “guetos”, expulsando os mais pobres. Aumentando a segregação e o imobilismo.

E como sair disto? Bem terá de acabar de ler o livro, porque eu como não acabei ainda não sei…

Este Expresso Curto, que foi de longe o mais longo que já escrevi, fica por aqui. Se teve paciência de ler até ao fim, aqui ficam os desejos de uma ótima quarta-feira.

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