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Expresso Curto

POR Ricardo Costa Diretor de Informação da SIC
17 de Fevereiro de 2017

Sexta-feira e outros dias

O título deste Expresso Curto é fácil e vinha mesmo a calhar. Mas o arranque desta sexta-feira é feito dos despojos da véspera e, sobretudo, dos ecos de “Quinta-feira e outros dias”, o livro em que o ex-Presidente da República Cavaco Silva presta (ou ajusta) contas com a história muito recente do país. Não tão recente ao ponto de olhar para o atual governo ou mesmo para o anterior, da coligação PSD-CDS – isso ficará tudo para um segundo volume - mas suficientemente recente para acertar em cheio nos governos de José Sócrates.

Antes de qualquer análise ou juízo de valor, convém recordar que esta ideia de “prestar contas” é absolutamente coerente em Cavaco Silva. Quando deixou o Ministério das Finanças e, claro, quando deixou o governo, Aníbal Cavaco Silva passou a escrito e publicou a sua visão detalhada dos tempos que esteve no poder. Este livro, goste-se ou não do conteúdo e da data de publicação chega tão programado como um comboio pontual.

Agora, é absolutamente inegável, que, ao contrário dos tomos sobre a sua longa governação entre 1985/1995, - Autobiografia Política I e II, este livro dedica muitas, mesmo muitas, páginas à relação com “o outro”, não na melhor tradição hegeliana, mas na simples relação com quem se sentava do outro lado de uma pequena mesa, José Sócrates. E, por causa disso, é muito mais polémico e também importante do ponto de vista histórico do que, por exemplo, Cavaco Silva relatou sobre os anos em que ele próprio se sentou do outro lado da mesa, como primeiro-ministro enquanto Mário Soares era Presidente.

É a grande diferença deste livro, o tom. Porque Cavaco Silva respeitava e admirava Mário Soares – apesar das profundas divergências e imensas dificuldades de relação política e pessoal – e não gosta de José Sócrates. Não gosta, não confia, e isso vê-se como facilidade. O desaparecimento do respeito e da confiança está plasmado no livro, transformando a prestação de contas num inevitável acerto de contas.

Ontem no lançamento, numa sala apinhada do CCB, o autor fez questão de sublinhar a linha em que a publicação do texto se insere – coerente na sua biografia e muito habitual em várias democracias ocidentais, em que os protagonistas publicam com impecável regularidade as suas memórias políticas – e Manuel Braga da Cruz, apresentador do livro, sublinhou a sua absoluta normalidade, no político que mais eleições venceu em Portugal (quatro com maiorias absolutas) e mais tempo esteve no poder.

Mas este livro tem uma importância extrema por ajudar a fazer a história de um período dramático que nos levou a mais um resgate e, mais recentemente, ao primeiro processo de corrupção que envolve um ex-primeiro-ministro. A história nunca ficará completamente feita sem as memórias deste período de José Sócrates.

A segunda edição do livro que a Porto Editora pôs ontem de manhã à venda já vem a caminho. O segundo volume destas memórias vai demorar muito mais porque ainda não começou a ser feito e Cavaco Silva nunca perdeu o hábito de escrever minuciosamente à mão. Vai demorar, portanto.

Ficam, aqui, os ecos nas primeiras páginas dos jornais de hoje:

- Correio da Manhã: Cavaco Silva avisou Sócrates para perigo do negócio OI/PT
- JN: Cavaco ataca PCP e BE e lembra dias conturbados com José Sócrates
- Público: Cavaco Silva recusou liderar negociação com José Sócrates
- DN: No relato das reuniões à quinta há um elogio a Sócrates, para criticar Costa
- Observador: Revelações de Cavaco, a “‘tenebrosa’ máquina de propaganda do PS” e o caso das escutas
- Jornal i: Descubra as mentiras de Sócrates a Cavaco Silva
- Expresso: A bicada a Costa, o erro que Cavaco confessa e o que não faria a Sócrates

Vamos ao resto deste Expresso Curto

OUTRAS NOTÍCIAS
Herdei uma confusão”. Foi assim que Donald Trump arrancou mais uma épica conferência de imprensa, desta vez para explicar ou desculpar os dias de turbulência que se vivem na Casa Branca. Resumindo, a culpa não é dele, mas de tudo o que herdou e, claro, da comunicação social que relata o que não deve, colabora em fugas de informação e por aí fora.

São momentos tensos, bizarros e estranhos em que Trump defende que a sua administração vai avançando como uma máquina bem afinada. E que o único problema visível é o facto de não ter conseguido ainda aprovar todos os nomeados da sua administração. A conferência pode ser vista aqui na íntegra.

Nas últimas horas, Donald Trump recebeu um não de Robert Harward, um respeitado militar na reserva que tinha sido convidado para substituir Michael Flynn como Conselheiro Nacional de Segurança. À Associated Press, Harward, alegou razões profissionais e familiares, mas fontes ligadas ao processo revelaram que o convidado não gostava da forma como estava a ser montada a equipa, bom como da presença de vários elementos que não seriam da sua confiança.

A incrível morte de Kim Jong-nam, meio-irmão do ditador norte-coreano, continua a ser investigada pelas autoridades da Malásia, onde o assassinato ocorreu. Foi um crime tipicamente ordenado pela Coreia do Norte, mas não se percebeu ainda como é que as operacionais foram recrutadas.

Já foram detidas duas mulheres, uma com passaporte indonésio, outra com alegada nacionalidade vietnamita. A polícia malaia adiou a ida a presença em tribunal por uma semana para poder investigar o espetacular envenenamento ocorrido no aeroporto de Kuala Lampur.

Na Coreia do Sul, as manchetes são todas dedicadas ao escândalo de corrupção que levou à detenção de Lee Jae-yong, herdeiro da Samsung e líder de facto do maior grupo empresarial do país. Estará implicado no escândalo de corrupção que levou à queda da Presidente Park Geun-hye, no final do ano passado.

Por cá, o Correio da Manhã faz manchete com o desaparecimento de cinquenta armas policiais de um quartel da PSP na Penha de França, em Lisboa. Uma pistola apreendida a um traficante fez soar o alarme e abrir uma investigação ao desaparecimento.

O DN conta a mesma história, explicando que as cinquenta Glocks da PSP foram encontradas em Espanha, sendo que as autoridades suspeitam do envolvimento de uma rede internacional de tráfico de armas.

O Jornal de Notícias relata um trágico acontecimento no Hospital da Guarda, onde um bebé morreu no ventre da mãe à espera de obstetra.

No Público, o destaque vai para o novo IMI, com a Associação de Proprietários a ajudar os seus associados a conseguir “fintar” o fisco, prometendo poupar centenas ou milhares de euros.

O i destaca a acusação de corrupção, conhecida ontem, a Maunel Vicente e Orlando Figueira, um ex-magistrado que teria sido corrompido para arquivar processos, tendo ido de seguida trabalhar para o BCP, de que a Sonangol era a maior acionista. O advogado de Manuel Vicente já se insurgiu porque garante que o seu cliente nunca foi ouvido e que isso torna o processo nulo.

FRASES
Assunto encerrado. Ponto final, parágrafo”. Marcelo Rebelo de Sousa, sobre a polémica dos SMS

O quê? Ainda andam com esse assunto? Isso acabou segunda-feira”. António Costa, primeiro-ministro, sobre o caso dos SMS

A Casa Branca está a funcionar como uma máquina muito bem afinada”. Donald Trump, Presidente dos EUA

Ainda vou ser campeão aqui”. Rui Patrício, guarda-redes do Sporting, A Bola

O QUE EU ANDO A LER
Um pequeno livro, que me foi oferecido pelo Guilherme Valente, editor da Gradiva. Contra a barbárie, um alerta para os nossos dias, de Klaus Mann. O livro junta vários pequenos textos de Mann, corajoso adversário do nazismo desde a primeira hora, obrigado a deixar a Alemanha em 1933 e que morreu em França, em 1949.

Numa época em que, em pleno séc. XXI, vemos repetirem-se vários sinais que anteciparam as grandes catástrofes políticas e bélicas do sec. XX, ler estes textos é ver como se pode manter a lucidez e a coragem enquanto tudo, à nossa volta, acelera para o desastre

No segundo texto, Mann responde a Stefan Zweig que, incrivelmente, tinha achado saudável o entusiasmo juvenil nas eleições para o Reichtag que marcaram a ascensão de Hitler. Zweig tinha descrito essa “revolta da juventude” como uma “revolta (…) contra a lentidão de indecisão da alta política”.

Para Klaus Mann, qualquer esforço de compreensão pelo radicalismo juvenil pró-Hitler e anti-sistema era “pura e simplesmente perigoso”, concluindo de forma categórica: “É nisto que consiste o meu radicalismo”.


Num outro texto, escrito depois da morte de Hitler, relembra como os industriais que procuravam uma revolução conservadora, os jovens desiludidos com Weimar e os nacionalistas que sofriam da inferioridade da derrota da I Guerra, aceitaram e fomentaram a ascensão do nazismo. E, sobretudo, como tudo isso foi protagonizado por um homem que não era brilhante nem especialmente dotado.

Os textos são incríveis porque mostram como um sistema pode ser tomado de assalto por “qualquer aventureiro sem escrúpulos” capaz de “desviar para objetivos destrutivos os meios postos à sua disposição pela técnica moderna e pela propaganda”. Tudo escrito na altura certa.

O Expresso Curto termina aqui. Logo ao fim da tarde tem mais um Expresso Diário e, amanhã, o Expresso está nas bancas. Boa sexta-feira (e outros dias).