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Valdemar Cruz Jornalista

(E depois do dilúvio...) Até tu, Moreira?

15 de Fevereiro de 2016

Lisboa não perdoa a traidores. Escrevo-a, e até a mim espanta a aparente violência da frase posta assim a rasgar uma madrugada afinal cada vez mais calma. Já lá iremos, aos traidores e à frase original, por mais relevante ser agora registar a serenidade deste amanhecer em contraste com a violência gerada pela bestialidade do temporal abatido sobre várias regiões do país. Vive-se neste momento o sopro ainda instável da bonança a seguir à tempestade, mas as notícias continuam a ser desoladoras. Durante a madrugada 12 pessoas ficaram desalojadas em Ponte de Lima devido ao aluimento de terras. Foram afetadas cinco casas situadas no sopé de um monte e uma delas ficou destruída. A autoestrada A41, que dá acesso ao aeroporto do Porto, continua com um troço cortado. Quem viaja de comboio na linha do Norte tem de fazer transbordo em Alfarelos e até o início da tarde ainda se preveem, a Norte, ondas de 14 metros de altura.

Até o final do dia de ontem tinham sido registadas quase duas mil ocorrências pelo Comando Nacional das Operações de Socorro. Coimbra foi a zona mais fustigada, com o caudal dos rios Mondego e Ceira a fazer grandes estragos e a inundar, por exemplo, o Mosteiro de Santa Clara, ou a impedir o trânsito em estradas municipais e caminhos rurais. Ontem ao fim da tarde era encontrado o corpo de um homem arrastado pela corrente quando passava de bicicleta na estrada que liga Cacia (Aveiro) a Angeja (Albergaria-a-Velha). A partir de hoje haverá um desagravamento das condições atmosféricas das quais resultaram nos últimos dias (imagens aqui) centenas de quedas de árvores, inundações ou deslizamentos de terras.

Depois do dilúvio, vamos então a outra tempestade, também desenvolvida nos ares e com inúmeras repercussões em terra. Duas entrevistas marcaram o fim de semana: a de António Costa ao Expresso, e a de Passos Coelho ao JN. Em ambas esteve em destaque a questão da TAP, colocada na ordem do dia na sequência das posições tomadas por Rui Moreira ao insurgir-se contra o esvaziamento do aeroporto portuense em favor do desvio de voos e rotas para Lisboa. Lembram-se da história do comunista bom, que só o passa a ser depois de morto? É um pouco o que está a suceder com Rui Moreira, embora em sentido contrário. Até agora era um presidente exemplar, até pelo modo como foi eleito, civilizado, com mundo. Bastou-lhe dizer o óbvio para passar a ser olhado com desdém e até algum paternalismo pela generalidade dos fazedores de opinião. De repente tornou-se um parolo, a quem com toda a propriedade se aplicaria a frase celebrizada por Shakespeare dirigida pelo ditador Júlio César, no momento do seu assassinato, ao seu amigo Marcus Brutus: "et tu, Brute?". Moreira terá passado a ver fantasmas centralizadores num país orgulhoso do exemplo dado ao mundo no campo da descentralização de competências e poderes. Roma não paga a traidores, terá alguém dito aos assassinos de Viriato. Lisboa não perdoa a quem ousa dizer que o rei vai nu. Na próxima quarta-feira Rui Moreira vai reunir-se com António Costa. Ambos sabem que pouco poderá ser feito enquanto prevalecer a opinião já expressa pelo ministro do Planeamento e Infraestruturas, segundo o qual o Governo não pode mexer no plano estratégico da empresa. António Costa tem deixado passar a ideia de que isso é possível. Veremos, como veremos as consequências de o Estado ter optado por não assumir a maioria do capital da TAP. Os 50% a que agora chegou asseguram apenas uma limitada capacidade de influenciar decisões e não alteram, como se está a ver, a orientação já definida pelos privados. A Câmara tem vindo a publicar no sítio Porto.pt vários textos a desmontar grande parte das teses que têm vindo a ser divulgadas sobre a operação da TAP no Porto. Num dos trabalhos garante-se que "o Porto perde 70% dos seus voos TAP e o número de lugares disponíveis em rotas como Madrid ou Genebra baixa radicalmente, além de Roma, Milão, Bruxelas, Barcelona e Londres verem frequências reduzias a zero ou parcialmente".

OUTRAS NOTÍCIAS
Arrisca-se a ser uma das notícias do dia. Pedro Passos Coelho, ex-Primeiro Ministro, atual deputado, inaugura hoje ao fim da tarde o Centro escolar Lordelo 1, em Paredes, nos arredores do Porto, uma escola pública a funcionar já desde 2013.

António Costa quer dirigir-se diretamente aos portugueses. Desde ontem estão disponíveis no portal do Governo, na página Twitter do executivo e no Youtube, os dois primeiros de uma série de vídeos com perto de um minuto e meio cada, destinados a explicar a proposta do Orçamento de Estado para 2016, os seus objetivos e as opções políticas.

A notícia principal no Público de hoje dá conta da decisão do Governo de executar uma garantia bancária de €8 milhões entregues pela Galp em outubro de 2007 como caução após a assinatura de um contrato com o Estado para a construção de uma central elétrica em Sines. O equipamento deveria ter entrado em atividade em 2010, mas nunca foi construído e a Galp renunciou mesmo em 2013 à licença de produção.

Quando se esperava para esta semana o início da chegada de ajuda às zonas em maior risco, enquanto o Grupo Internacional de apoio à Síria negociaria com o regime e com a oposição uma trégua, eis que tudo volta à estaca zero com a Turquia a bombardear ontem pelo segundo dia consecutivo posições conquistadas por combatentes curdos sírios no Norte da província de Alepo. Os senhores do mundo continuam a reunir-se. Já todos sabemos o que pensam Obama, Merkl, Putin, Hollande. Já sabemos o que pensam a generalidade dos comentadores sobre o que pensam e quais as reais intenções de Obama, Merkl, Putin ou Hollande. Já sabemos como o mundo continua a ser construído a preto e branco. Mas sabemos pouco sobre as pessoas concretas. Um Relatório do Syrian Centre for Policy Research, citado pelo Guardian, apresenta os resultados "catastróficos" de cinco anos de guerra: 470 mil mortos e 1,9 milhões de feridos. 45% da população foi deslocada e a pobreza aumentou 85% apenas em 2015.

Morreu aos 79 Antonin Scalia, o mais destacado membro da ala conservadora do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América, ícone intelectual da direita norte-americana. A morte de Scala abre, em plena campanha eleitoral, uma nova frente de luta entre Republicanos e Democratas, dada a importância do cargo num órgão do qual se diz ter mais poder que o presidente dos EUA. Foi o Supremo a ilegalizar a segregação racial nas escolas ou a consagrar o direito ao aborto. Obama já anunciou a intenção de nomear um substituto e já há nomes a circular. Os Republicanos defendem que a decisão deveria ficar pra depois das eleições de novembro. Mesmo que Obama avance com uma escolha, o candidato terá de ser ratificado pelo Senado, onde os Republicanos detêm a maioria dos votos.

João Paulo II trocou cartas íntimas com mulheres. A notícia é dada pela BBC e levanta suspeitas sobre o celibato de um dos mais rápidos santos da história da igreja católica. O trabalho da BBC revela existirem centenas de cartas e fotografias que evidenciam as relações muito próximas do pontífice, durante mais de 30 anos, com uma mulher casada. As cartas eram dirigidas à filósofa americana de origem polaca Anna-Teresa Tymiemiecka e estiveram até agora resguardadas de qualquer olhar na Biblioteca Nacional da Polónia. Os documentos revelam uma faceta inesperada do papa falecido em 2005.

NÚMEROS

8,089
Milhões de passageiros utilizaram em 2015 o Aeroporto do Porto, o que representa um aumento de 16,7% em relação a 2014

75 000
Refugiados e imigrantes chegados desde janeiro à UE através das ilhas gregas

56%
Percentagem de cidadãos europeus que nunca viu uma nota de €500, segundo dados do BCE. A nota pode vir a ser retirada de circulação devido ao seu uso em atos ilícitos

3 561
Récitas de "La Traviata", de Verdi, a ópera mais representada em todo o mundo na temporada 2013-2014. A seguir ficou "A Flauta Mágica", de Mozart, com 3 354 récitas

23
Idade de Amani Al-Khatahtbeth, que aos 17 anos criou a web MuslimGirl, dedicado às mulheres muçulmanas. Foi agora escolhida pela revista Forbes como um dos jovens menores de 30 anos com mais influência nos meios de comunicação

FRASES
"Há uma doutrina mediática segundo a qual estamos sempre em crise", António Costa em entrevista ao Expresso

"Querer melhorar a produtividade da Função Pública com recurso ao aumento do horário de trabalho é não perceber o que ela é", António Costa em entrevista ao Expresso

"Os acionistas privados (da TAP) viram-se envolvidos numa aventura irresponsável do Governo anterior, que assinou um contrato já depois de demitido", António Costa em entrevista ao Expresso

"Haja pelo menos esse decoro, de não pedirem o nosso apoio para combater as nossas ideias e desfazer as reformas que nós fizemos", Pedro Passos Coelho num almoço convívio em Portalegre

"Até eu ter saído do Governo o Banif estava a dar lucro", Pedro Passos Coelho em entrevista ao Jornal de Notícias

"De cada vez que procuramos o caminho do privilégio ou do benefício de uns poucos em detrimento do bem de todos, cedo ou tarde a vida em sociedade se torna terreno fértil para a corrupção, o narcotráfico, a exclusão, a violência, o tráfego de pessoas, o sequestro e a morte", Papa Francisco no Palácio Nacional, cidade do México

O QUE ANDO A LER A VER E OUVIR
Narrar a vida em Hayange, um município do nordeste francês dirigido pela Frente Nacional, num insólito estilo fotonovela, e num trabalho onde tudo é verdadeiro, das palavras às imagens, eis o desafio da singular revista francesa de reportagens "XXI" ao qual se submeteram durante um ano o fotógrafo Vincent Jarrousseau e a historiadora Valérie Igounet. O resultado é demolidor, nesta viagem marcada pelo facto de, desde março de 2014, a FN dirigir onze municípios, transformados em onze cidades laboratório. O "maire" de Hayange, Fabiem Engelman, 36 anos, é o protótipo de muitos dos aderentes da FN. Ex-funcionário público, filho de retornados da Argélia, passou pela Fundação Brigitte Bardot, militou na Luta Operária, no Novo partido anticapitalista e na CGT, de onde foi expulso em 2011. Seduzido pelo discurso de Marine Le Pen, aderiu ao partido de extrema-direita em 2010 e agora pretende assumir-se como porta-voz dos invisíveis. Em dezembro, o Libération trazia um trabalho sobre esta experiência com um título elucidativo: "Em Hayange, a FN é uma pequena ditadura".

No seu último número, a Visão apostou num tema de capa dedicado ao modo como os ricos fogem ao fisco. Apresenta-nos mesmo as oito maneiras utilizadas pelos milionários para pagarem menos impostos. Por associação de ideias, este trabalho remeteu-me para um número extra da revista francesa Marianne recentemente adquirido e para um documentário neste momento a ser transmitido no canal Odisseia.

Como isto anda tudo ligado, comecemos com "Les Escrocs" (presumo não ser necessária tradução). É um número inteiro de Marianne a falar de negociatas, vigarices, usurpações, fraudes económicas e artísticas, especulação e o mais que se possa imaginar, com relatos factuais, muitas histórias inacreditáveis, desta arte tornada estrela graças a Madoff, diz o editorial da revista. No meio de episódios mirabolantes protagonizados pelos maiores embusteiros do mundo, lá está o nosso Alves dos Reis, apresentado neste trabalho da Visão, assinado por João Pedro Martins, como o maior burlão de todos os tempos.

Sobre o documentário da Odisseia (quartas-feiras às 22h30), intitulado "Capitalismo", começo por evocar o segundo episódio, transmitido a 27 de janeiro, centrado na bíblia do liberalismo, "A Riqueza das Nações", de Adam Smith, datado de 1776. "Como e porquê, no processo de tentar converter 'A Riqueza das Nações' na realidade, ficaram as preocupações éticas de Adam Smith perdidas?". O episódio termina com esta pergunta, colocada após ter sido abordado o problema da indiferença com que foi vista e tratada a violência contida na escravatura, e sobre a qual não há sinal de consideração ou reflexão nas teses de Adam Smith. No episódio do passado dia 10 era suscitada uma questão muito interessante: desapareceu a URSS, caiu o muro de Berlim, foi declarado o fim da história, sobre a ideia de comunismo foi lançado um anátema, mas, ainda assim, e sobretudo depois da última crise financeira, transformada em crise das dívidas soberanas dos Estados, subsiste uma interrogação que, de resto, dá título ao episódio: E se Marx tinha razão? Isto é, poderá a sua análise ao capitalismo do século XIX constituir ainda um contributo válido para compreender o martírio económico e social a que estamos submetidos em pleno século XXI? Gravada em 22 países ao longo de quatro anos, durante os quais foram entrevistados alguns dos maiores especialistas mundiais, a série retoma alguns debates históricos e dá contributos importantes para a compreensão da atual crise e das razões para o continuado aumento das desigualdades, como assinalava o Le Monde.

Ontem foi dia de S. Valentim, dito dia dos namorados. Terminemos, por isso, em tom de paixão. Lembra-se de "Eu quero amar, amar perdidamente!", de Florbela Espanca? Pois bem, tem aqui uma longa seleção de poesia portuguesa. Se estiver mesmo muito interessado na arte poética, visite o sítio brasileiro Jornal de Poesia , onde, virtualmente, encontra tudo, mesmo o que não imaginaria encontrar. Mas não exagere e sobretudo tenha atenção a este artigo de Alain de Botton a explicar-nos a razão pela qual as novelas românticas podem tornar-nos infelizes no amor.

Despeço-me com música. A ocasião é propícia a uma Carta de Amor, de Egberto Gismonti, incluída no histórico disco "Magico/Carta de Amor", assinado em conjunto com Jan Garbarek e Charlie Haden.

É tudo. Espero que o dia de hoje seja bem melhor. Aproveite para acompanhar mo fluxo de notícias nas diferetnes plataformas do Expresso. Amanhã terá cá o Ricardo Costa para lhe servir mais um Expresso Curto.

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