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Expresso

Bernardo Ferrão Subdiretor da SIC

Se 2015 foi o que foi, prepare-se para o que aí vem

30 de Dezembro de 2015

Bom dia

Este é o último Expresso Curto de 2015. E mais do que olhar para trás, o que lhe proponho é que façamos a ponte para o que está para vir. Tal como o ano que amanhã termina, 2016 será marcadamente político. E agitado.

Há um Orçamento para aprovar, há o Novo Banco, o Banif, a comissão de inquérito, a “geringonça”, o novo líder do CDS, a reconfiguração do PSD, o novo Presidente da República. Há tudo isto e muito mais.

Vamos por partes.

Banca. Marcelo Rebelo de Sousa deixou nas últimas horas elogios à “vontade” e à “determinação” do Governo em resolver os casos Banif e Novo Banco. São “heranças complicadas de anos passados” disse o candidato. Marcelo falava no dia em que se soube que o Banco de Portugal ordenou que cerca de €2 mil milhões em obrigações seniores passem do Novo Banco para o BES. O João Vieira Pereira e a Isabel Vicente explicam aqui que os investidores institucionais podem perder tudo. E que os obrigacionistas de retalho estão salvaguardados.

Na opinião, o Pedro Santos Guerreiro fala de um novo calote no BES: “os donos de dois mil milhões de euros de obrigações do BES arderam com o dinheiro”. E conclui: “Afinal havia alternativa”. Em comunicado o Banco de Portugal justifica a medida dizendo que foi necessária para assegurar que os prejuízos do BES “são absorvidos, em primeiro lugar, pelos acionistas e pelos credores e não pelo sistema bancário ou pelos contribuintes”. Uma explicação que não convence a associação dos investidores que segundo o jornal i já prepara uma chuva de processos nos tribunais.
Sobre o Banif e por causa da resolução do banco, o Negócios escreve que Portugal pode ter de esperar mais um ano para sair do procedimento por défices excessivos.

CDS. Com a saída de Paulo Portas, abre-se um novo capítulo na vida do partido que ficará resolvido no congresso de Março/Abril. Portas pediu para que “não tenham medo” e que se evitem querelas internas. Mas a verdade é que no Largo do Caldas já se teme que os centristas caiam numa luta de trincheiras, à imagem do que aconteceu em 2005 quando Portas saiu e o CDS ficou partido ao meio. O Filipe Santos Costa lembra esse momento neste artigo, onde também traça os perfis dos possíveis sucessores.

Notícia da noite: João Almeida pôs-se fora desta lista. O deputado anunciou no Facebook que não está na corrida à liderança mas não deixará de apresentar uma moção de estratégia. O Público escreve que Nuno Melo está a ser pressionado para avançar. E o DN avança que Portas se vai dedicar à vida empresarial com um olho em Belém.

PSD. Passos Coelho (qual BFF!) não poupou nos elogios ao seu parceiro da coligação. É um “líder partidário carismático". "Acho que o país lhe fica a dever uma intervenção muito destacada e competente". O líder laranja já sabia que Portas ia sair, e sabe também que agora terá no CDS um partido diferente, com outra agenda e bem menos alinhado com os sociais-democratas. Em 2016 veremos como os ex-parceiros de Governo vão seguir caminhos bem diferentes (o CDS precisa crescer para se fazer valer como sublinha o Ricardo Costa).

Esta separação das águas é a segunda vitória de António Costa: não só alinhou as esquerdas como conseguiu desalinhar (e desorientar) a direita. Daniel Oliveira escreve no Expresso Diário sobre esta reconfiguração da Direita e lembra que agora começa a contagem decrescente para Passos Coelho.

Governo. Quando o novo ano começar o Executivo de António Costa, cumprindo o que disse Mário Centeno, já deverá ter enviado o draft do Orçamento para Bruxelas. E se o calendário do Governo se cumprir, o OE deverá estar discutido e votado lá para março. Será um importante teste para a “geringonça”. Mas também para o PSD e CDS que, sabendo que o ciclo de Costa pode ser bem mais longo do que julgavam, vão explorar todas as dificuldades que surjam às esquerdas. Quando o OE for para promulgação, o mais provável é que já seja recebido em Belém pelo novo chefe de Estado.

Presidenciais. Serão 10 os candidatos que até 24 de janeiro vão lutar pela eleição para o Palácio de Belém. Um novo recorde. Depois do sorteio que decidiu a ordem dos candidatos no boletim de voto, o Tribunal Constitucional admitiu entretanto todas as candidaturas que tinham sido formalizadas.

Sexta-feira, não se esqueça, começam os debates que vão durar até dia 9 de janeiro. Ao todo são 21, distribuídos pela RTP, SIC Notícias e TVI24. Mas ainda falta saber como é que os três candidatos que apareceram mais tarde vão ser incluídos na grelha dos frente a frente. Cândido Ferreira, um desses candidatos, já disse que não aceita ficar de fora: “Ou há debates para todos ou não há para ninguém”.

Ah!, e deixe-me dizer-lhe que vai acontecer outra vez: tal como nas legislativas, no dia das Presidenciais haverá jogos de futebol.

FRASES
“2016 pode ser um ano razoavelmente bom ou o início de uma série de anos bastante maus”, Pedro Passos Coelho ao Económico.

“Só em 2016 se vai perceber se a ‘maioria de esquerda’ é uma realidade operacional ou uma quimera. Tudo começará com o Orçamento e vai agudizar-se e com o Programa de Estabilidade”, Paulo Rangel também ao Económico.

“É um animal político. Isto não é uma despedida”, António Pires de Lima sobre Paulo Portas no DN

OUTRAS NOTÍCIAS
Depois do Benfica e do Porto, ontem foi a vez do Sporting entrar na lista dos “acordos históricos”. O clube de Alvalade fechou contrato com a NOS e vai receber €515 milhões de direitos de TV e patrocínios. A Isabel Paulo fez as contas e comparou os negócios. O leilão pelos direitos televisivos dos três grandes atinge um valor global de €1372,5 milhões. O Sporting é quem mais irá receber, mas é também quem vende mais conteúdos e ativos. Afinal, quem fez o melhor contrato?

O grupo Impresa e a MEO chegaram a um novo acordo de distribuição de seis canais SIC na plataforma de televisão paga da Portugal Telecom. O acordo inicia-se em janeiro de 2016 e é válido por três anos até ao final de 2018.

Em Espanha
, onde ainda se procura uma solução para o Governo, Mariano Rajoy propôs um acordo com PSOE e Ciudadanos e avisou que se houver novas eleições voltará a ser candidato pelo PP.

Qual crise? O JN escreve que “nunca gastámos tanto dinheiro em compras.” Entre 23 de novembro e 27 de dezembro, os portugueses pagaram 3712 milhões de euros em compras efetuadas com o cartão multibanco, mais 7,3% do que em igual período de 2014.

Na Síria, um dirigente do Daesh com "ligações diretas" ao alegado cabecilha dos atentados de Paris foi morto num bombardeamento aéreo liderado pelos Estados Unidos.

O QUE ANDO A LER
Estive de férias antes do Natal e aproveitei para (finalmente!) ler o livro dos meus colegas Filipe Santos Costa e Liliana Valente sobre o Independente – A máquina de triturar políticos. É um trabalho exemplar de análise de conteúdo e levantamento histórico sobre o que foi aquele jornal que era também um projeto político: “Foi ácido sulfúrico do cavaquismo e fermento de uma nova direita”.

No Independente houve, é óbvio, muitos erros e muitas vítimas. Pecados que hoje nos fazem até engolir em seco, mas não há dúvida que o Indy mostrou ao país um fascinante novo mundo. Na escrita e no rasgo. Rompeu com o cinzentismo de então. Não admira por isso que esta meticulosa visita ao passado, conduzida pelo Filipe e pela Liliana, já vá na quarta edição. É obra!

Devorei o livro com o prazer. E agora que Paulo Portas anunciou a sua saída do CDS tenho-me lembrado recorrentemente de várias passagens da história do jornal. E sobretudo pôs-me a pensar como Paulo Portas é de facto um político com muitas vidas. É impressionante como soube dar a volta em vários episódios da sua longa carreira política. Como conseguiu conviver com o Presidente Cavaco Silva nos últimos anos depois de tudo o que escreveu sobre o primeiro-ministro Cavaco Silva (até que “merecia levar um estalo”). E com Leonor Beleza (“Calamity Leonor”, “teimosa, egoísta e cega”). E com Marques Mendes (“Marques Mentes” dizia uma das suas manchetes, ou que a ele se aplica “o princípio da subsidiariedade: quando não pensa por ele quem pensa melhor do que ele, espalha-se ao comprido”). E com muitos outros que o Independente de PP (e MEC) fez questão de “triturar”.

O Expresso Curto volta na próxima segunda-feira. Tenha um excelente 2016 e não se esqueça das passas e do espumante.

Divirta-se e até para o ano.

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