Nas Quirimbas com Mia Couto: Viagem a uma Moçambique desconhecida
Uma viagem à África profunda, à África do pó, dos elefantes, das machambas, das cerimónias espíritas, dos rugidos de leões que irrompem pela noite. Uma viagem a Moçambique feita por um europeu... com os olhos de um africano. Clique para visitar o canal Life & Style.
Foi a lei que o matou", refere Abacar, no seu jeito tímido. Ao lado estão quatro patas de elefante, ainda ensanguentadas. Na véspera, o animal tinha sido abatido pela população revoltada por mais uma morte na aldeia. A senhora, de 80 anos, foi surpreendida quando estava a cultivar a sua machamba. "Antes, quando chegavam as pessoas, os elefantes não reagiam; agora que se acostumaram a elas, passaram a atacar", conta Abacar, guarda do Parque Nacional das Quirimbas, o terceiro maior do país.
Numa das aldeias mais povoadas do Parque o medo é constante. As vítimas em Ungura vão-se acumulando de parte a parte. "Para matar um elefante, só depois de termos a certeza de que se trata de um animal problemático do grupo, o chefe. E o tiro tem de ser certeiro. Caso contrário, ele fica com a bala no corpo e destrói tudo o que estiver à sua frente", sublinha o fiscal.
Nas Quirimbas, onde a RTP voltou a convidar Mia Couto, para coordenar e narrar um conjunto de 12 documentários sobre os Parques e Reservas Naturais de Moçambique, aponta-se como única solução para o conflito, a vedação do Parque. 100 km de cerca eléctrica, permitindo uma sã convivência.
Conservação "especial"
Mas o escritor e biólogo moçambicano considera que "é muito difícil gerir um Parque com uma densidade humana de 120 mil pessoas. Em princípio e, por definição, os Parques têm gente neles vivendo, mas talvez seja necessário conceder um diferente estatuto de conservação à região e escolher, no interior, quais as áreas precisas que vale a pena submeter a um regime de conservação especial". E acrescenta: "O maior desafio do Parque é proteger o número de pessoas que vivem lá dentro e proteger os animais e ecossistemas. Claro que é quase impossível conciliar as duas coisas."
Num fim da tarde, Abacar prontificou-se a guiar-nos para o local onde os elefantes diariamente tomam banho. "A minha missão é só afugentar", esclarece o guarda, de arma a tiracolo. A única para os dois guardas da zona. Em silêncio e em fila indiana, percorremos algumas dezenas de metros pelo meio da savana. Mia, de câmara fotográfica em punho, parece mais interessado em registar todos os pormenores de árvores centenárias que nos surgem. Manuel, o outro guarda, controla os sons na retaguarda do grupo.
Com a mão direita levantada, faz-nos sinal para pararmos. "Eles já cá estão", aponta, sem qualquer sinal de excitação. Duas manadas de elefantes vão fazendo a sua higiene, no único local da zona onde a água não seca totalmente. Abacar, preocupado com a nossa segurança, aponta-nos com o dedo indicador no meio da boca, uma rocha em frente, a 20 metros. "Se eles quiserem, vêm-nos cá buscar", refere Mia, sem qualquer receio. Abacar, postura de militar, não esboça qualquer reacção. Limita-se apenas a observar os movimentos dos animais.
Elefantes por perto
Indiferentes à nossa presença, os elefantes vão-se banhando num lago de lama, soltando sons de rejubilo. As crias vão-se divertindo, tais crianças, num misto de pó e lama. De repente, todos somos surpreendidos com um tiro. Até o próprio Abacar, que timidamente confessa a autoria do disparo. "Foi falha, patrão." Inadvertidamente, enquanto segurava a arma, o fiscal do Parque, disparou, felizmente para o ar. Todos os elefantes se dispersaram, menos um que ainda ameaçou uma investida. Resignado, lá acabou por tomar o caminho dos outros.
Ricardo Mota, delegado da RTP em Moçambique, afirma que "a diferença das Quirimbas para o Kruger é que lá também víamos os elefantes perto, mas dentro de um carro".
À procura de aventura
Nos cinco dias seguintes, voltámos ao "local do crime", para recolher mais e melhores imagens. Em vão. A memória de elefante não é só um ditado popular. Existe.
Taratibu foi o lodge escolhido para acampar durante a semana de filmagens. É um local inóspito, no meio da savana. Frequentemente invadido pelos elefantes, é o ideal para quem procura aventura. Literalmente.
À noite, embalados pelos contos de Mia Couto, em redor da fogueira, um som estranho interrompe a pacatez da noite. "O ressonar do Bai-Bai já eu conheço", exclama Ricardo Mota. "Isto foi algo diferente."
Pouco tempo depois, estávamos também nós dentro dos nossos sacos-cama, preparados para confirmar as nossas suspeitas: era o rugido de um leão. De repente, a floresta permaneceu em silêncio total. Até Bai-Bai, operador de câmara da RTP.
O "director da savana", expressão usada para identificar o leão, estava bem perto. Todos nos encolhemos dentro das tendas, receosos pela presença do felino, mas ao mesmo tempo maravilhados pelo fantástico privilégio de ali estar naquele momento. É por experiências como esta que Mia Couto acredita que "Taratibu é um centro de emoções e afectos, um regresso a um umbigo da Terra".
Cerimónias na floresta
Depois do cumprimento tímido do "director", o acampamento amanhece calmo. É o que precisamos para cumprir a agenda desse dia. Acompanhados por um grupo de camponeses, presenciamos uma cerimónia muçulmana que visa alimentar os antepassados. Para isso, era obrigatório levar uma capulana branca, incenso, açúcar, arroz e vinho tinto. Só assim poderíamos obter a necessária autorização para efectuarmos a reportagem nas Quirimbas.
Muito tempo depois de caminharmos pelo meio da floresta, um dos membros da comunidade pára abruptamente. Repete vezes sem conta a palavra "maiô", pedindo licença aos antepassados para entrarmos no espaço sagrado. Um tambor toca sons tímidos e bruscos. "O lugar está povoado de fantasmas", esclarece Mia.
A licença é concedida. Descalços, soubemos então o que significava alimentar os antepassados: despejar para dentro da gruta o vinho e o arroz. Não todo o garrafão, nem os 25 quilos do saco de arroz, que a comunidade também come. Noutra gruta, garantem haver objectos que pertenceram ao general alemão Paul Erich Vorberck, mas essa é inacessível: moram lá leões. "Como é que eu não hei-de escrever livros, com todos estes personagens que me surgem na vida?!", exclama Mia Couto, emocionado com a cerimónia.
Lembrar a escravatura
Do alto da avioneta, pilotada por Manuel Vistas, tem-se a verdadeira imagem das Quirimbas: de um lado a floresta, território selvagem, do outro as ilhas - apenas mar e areias imaculadas. Em terra, óculos na ponta do nariz, sorriso fácil e contagiante, está João Baptista, historiador e contador de estórias. "Conhecido em todo Moçambique", refere. Com 82 anos, carrega consigo a própria história da ilha condensada num caderno em que escreveu todos os momentos marcantes do Ibo.
Com o mesmo nome que o Forte da ilha, João Baptista insiste em acompanhar-nos numa visita guiada ao monumento onde os escravos foram encarcerados até ao século XIX. Um poste assinala o local onde eram chicoteados para se descobrir até que ponto aguentavam a dor. O preço era estabelecido conforme a força e resistência.
Por dia eram mortos cerca de 50, 60 pessoas. Umas vezes eram enterrados numa vala comum, outras eram atirados directamente para o mar.
Mais tarde foram as instalações da PIDE, para a qual João Baptista trabalhou como dactilógrafo e auxiliar de recenseamento. "Vi passar pela ilha 42 administradores. Quem fosse da Frelimo era perseguido e morto. Aliás, havia aqui no Forte um cartaz à entrada que dizia 'entra vivo, sai morto'. Eu só fui preso uma vez, apenas por 24 horas, juntamente com o administrador. Tudo porque quis salvar um colega."
Baptista repete consecutivamente o significado das siglas PIDE: "Polícia Internacional de Defesa do Estado." "Nunca tive ódio aos portugueses, mas claro que também estava do lado da Frelimo."
Para contar a História e estórias do Ibo, João Baptista não cobra qualquer quantia aos visitantes. "Cada um dá o que quer, se quiser."É por frases como esta que, posteriormente, Mia Couto revela: "João Baptista podia facilmente ser um personagem de um livro meu. Em poucos lugares do mundo existe alguém que convoca a missão de chamar a si mesmo a memória de um lugar e o faz com um sorriso aberto e sem pedir nada em troca."
Bola de preservativos
O Ibo de outrora, rico e movimentado, é agora um núcleo de casas senhoriais de estilo europeu, esventradas e em ruínas, sem telhados e com árvores e capim a crescer pelo seu interior. Miúdos descalços, com a camisola do F.C. Porto, jogam futebol na rua esburacada. Duas pedras marcam a baliza. A bola é feita de preservativos, papel e corda.
Do outro lado da rua, alguém reconhece Mia. "Eu precisava era de um emprego, sabe? Daqueles para dormir." No centro de fiscalização do Parque, explicam-nos que a sua principal missão no Ibo é preservar as espécies em vias de extinção. Para tal, criaram um santuário, local onde não é permitido pescar. Mais de 350 espécies foram identificadas nas águas do arquipélago das Quirimbas.
"E quantos fiscais há na ilha?", perguntamos. Surge então um dos guardas. "No dia 26 de Setembro de 2009, apareceu o senhor António Pedro Santos nas nossas instalações, perguntando quantos fiscais existem na ilha", escreve. No fim, olha para cima e responde "oito".
Madjume, 57 anos, é fiscal há 5. Do seu corpo de gigante, explica que a escala de trabalho são 24 dias consecutivos a trabalhar, 6 dias de folga. Desta vez, sem tomar nota do resto da conversa. Tomamos nós. No dia 29 de Setembro de 2009 apareceu o piloto que nos levou de volta ao continente. A aventura estava prestes a chegar ao fim. Abacar, João Baptista, Madjume parecem agora personagens longínquas de um livro de histórias do continente africano. O regresso acontece já cheio do sentimento mais português que há: a saudade. Ou chega com a mais bela poesia de Mia. "Vale a pena viajar se regressamos, mas não inteiros. Parte de nós não regressa. Foi o que senti ao aterrar em Maputo: que eu me tinha deixado lá atrás, para além do mar."
AGRADECIMENTOS À TAP E À RTP
(A reportagem foi publicada na edição 21 Novembro da Revista Única/Expresso)


