Um motim policial - que alguns consideram ser um golpe de Estado - levou à demissão do Presidente das Maldivas, Mohamed Nasheed, esta tarde (manhã em Portugal). A mudança de Governo ficou oficializada com a atualização do sítio da Presidência na Internet: o até agora vice-presidente Mohamed Waheed Hassan
é o novo Chefe de Estado.
Nasheed, que governava este arquipélago do Oceano Índico desde 2008, foi o primeiro Presidente democraticamente eleito. A renúncia ao cargo surge após três semanas de tumultos. Nasheed afirmou, num discurso à nação, que para permanecer no cargo "teria de usar a força, o que iria prejudicar muitos cidadãos".
"Receio que seja um golpe de Estado", afirmou à agência Reuters, sob anonimato, um colaborador do Presidente. Responsabiliza a polícia, alguns elementos das forças armadas e o ex-Presidente Maumoon Abdul Gayoom pelas três semanas de tumultos que culminaram na mudança de Executivo. "A oposição tem pedido à polícia e aos militares que se revoltem e se juntem à multidão para derrubar o primeiro Governo democraticamente eleito", acusou.
Muitos dos manifestantes que criticaram Nasheed clamavam pelo antigo Presidente, cantando: "Gayoom! Gayoom!". O Partido Progressista, onde milita Gayoom, acusou Nasheed de ter mandado a tropa disparar balas de borracha sobre os manifestantes, mas foi desmentido pelo Governo.
A tese do golpe é reforçada pelo facto de Nasheed estar sob custódia policial. O novo Presidente, Waheed, confirma-o, embora desminta que tenha tenha havido um golpe. Diz que a polícia está apenas a proteger Nasheed e garante ter o apoio quer da polícia quer dos militares para exercer o cargo, que assumiu hoje.
Sítio da televisão estatal alvo de ataque
A contestação ao agora ex-Presidente começo quando este mandou prender o juiz Abdulla Mohammed, do Supremo Tribunal, que Nasheed considerava estar ao serviço de Gayoom. Este governara as ilhas de 1978 a 2008, tendo a sua demissão aberto caminho às primeiras eleições multipartidárias.
Os confrontos entre apoiantes de Gayoom e de Nasheed foi-se intensificando, até que esta manhã soldados utilizaram gás lacrimogéneo contra cerca de 500 manifestantes - incluindo polícias e cerca de 60 a 70 militares, diz o jornal maldiviano Minivan News - que cercaram o quartel-general das forças armadas, em Male (capital do país). "Este Governo acabou!", gritava um dos contestatários, segundo este jornal.
Ontem à noite o canal televisivo VTV, ligado à oposição, foi vandalizado. E agentes policiais rebeldes atacaram a sede do Partido Democrático das Maldivas (do Presidente demitido) e a televisão estatal, MNBC, que rebatizaram de TV Maldives (o nome que tinha durante a era Gayoom). O Minivan News explica que passaram a emitir o sinal da VTV através da antena da MNBC, incluindo entrevistas com deputados da oposição. Hoje, o sítio deste canal foi atacado pelo grupo de hackers Anonymous.
Rivalidade de décadas
Nasheed e Gayoom são rivais há décadas. O primeiro esteve preso um total de seis anos durante a presidência do segundo, tendo sido detido 27 vezes por exigir a democracia. Gayoom tem sido referido como potencial candidato às próximas eleições presidenciais.
É particularmente pouco clara a posição de Waheed, líder de um partido que faz parte da coligação governamental de Nasheed, mas agora alinhado com a contestação. Sem uma palavra solidária para com Nasheed, aplaudiu os "grandes sacrifícios" da polícia e da tropa e considerou que só agora "o primado da lei foi reestabelecido". "Não mandarei a polícia nem as forças armadas fazer nada fora da lei", prometeu, numa aparente tentativa de se demarcar dos atos de que é acusado o seu antecessor.
A agitação tem passado despercebida a muitos cidadãos, escreve o Minivan News, que informa que as escolas abriram, com os professores a dar toalhas de papel e água aos alunos, para os proteger do gás lacrimogéneo na capital. Segundo jornais locais, a rebelião ainda não afetou o turismo. As Maldivas recebem cerca de 900 mil estrangeiros por ano, atraídos pelas suas praias e ilhas desertas. É a sua principal fonte de receitas.