O interrogatório ao ex-ministro socialista Armando Vara, arguido no processo Face Oculta, terminou às 00:00 mas as eventuais medidas de coacção só serão divulgadas para a semana.
A informação foi avançada pelo próprio Armando Vara à saída das instalações judiciárias e contraria o que tinha sido dito, minutos antes, por uma funcionária do Juízo de Instrução Criminal de Aveiro de que o interrogatório iria continuar na próxima semana.
"Não sei se terminou o pesadelo. Terminou a fase de inquirições, respondemos a tudo o que nos foi colocado e, agora, a decisão está nas mãos do senhor juiz", disse Armando Vara aos jornalistas, após de ter sido ouvido durante cerca de sete horas pelo juiz de instrução António Costa Gomes.
O auto-suspenso vice-presidente do Millenium/BCP diz que esclareceu tudo e mantém tudo o que disse quanto à sua inocência: "Eu sou inocente dos factos que me acusam. Como eles não aconteceram, não há provas em como aconteceram e, portanto, estou convencido que, se não for agora, nas várias fases do processo serei ilibado".
Relacionamento bancário com sucateiro
Armando Vara afirmou ainda ter um "relacionamento bancário" com Manuel
José Godinho, o principal suspeito deste caso, e negou ter recebido presentes do empresário das sucatas, com excepção de "uma caixa de robalos, quando ele se deslocou a Vinhais".
"Nunca tive nenhum tipo de atitude que favorecesse as empresas do senhor Manuel Godinho. Ele era cliente dos bancos onde eu trabalhava. Tinha com ele uma relação profissional a esse nível e mais nada. Tudo o resto são invenções", adiantou.
Já hoje, antes do intervalo para jantar, Armando Vara declarou-se "satisfeito" com as respostas "objectivas e concisas" que deu ao juiz de instrução do processo Face Oculta e considerou que aquilo de que o acusam é "inventado".
"É tudo inventado"
"Não pedi dinheiro a ninguém, não recebi dinheiro de ninguém, tudo é inventado", disse aos jornalistas, após reiterar que é "inocente".
Armando Vara chegou ao início da tarde ao Juízo de Instrução Criminal de Aveiro para continuar a ser interrogado, com a expectativa que "este pesadelo" terminasse sexta-feira, como o próprio declarou aos jornalistas.
Questionado sobre as escutas de conversas que manteve com o primeiro-ministro, José Sócrates, reiterou que se tratou de "conversas privadas".
Armando Vara começou a ser interrogado em Aveiro, a 18 de Novembro, e já na altura garantiu não ter cometido qualquer crime.
O Ministério Público imputa-lhe dois crimes de tráfico de influência.
O caso das escutas
Durante a investigação do processo Face Oculta, Armando Vara foi um dos arguidos alvo de escutas telefónicas, tendo as suas conversas com o primeiro-ministro, José Sócrates, suscitado polémica judicial sobre a validade das mesmas, tendo as primeiras seis escutas de conversas entre ambos sido declaradas nulas pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento.
O processo Face Oculta investiga alegados casos de corrupção e outros crimes económicos relacionados com empresas do sector empresarial do Estado e empresas privadas.
No total, são 18 os arguidos acusados de mais de 60 crimes, como corrupção, tráfico de influências, associação criminosa, furto, burla e receptação.