18 de abril de 2014 às 22:01
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Não me açambarquem o açúcar!

O pânico que se instalou demonstra os gulosos em que nos transformámos.
Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)
Luis Pedro Nunes - Não me açambarquem o açúcar!  Luiz Carvalho

Ia faltar o açúcar em Portugal! As redações mobilizaram os seus correspondentes que cobrem as ondas de calor, os incêndios, as vagas de frio, a queda de neve anual na serra e estes foram enviados com urgência para as prateleiras dos hipers. A situação ainda não era grave - relataram nessa noite nos diretos -, mas tendia para a rutura iminente. Arrepiante isso do açúcar faltar no Natal. É uma visão dickensiana - algo entre a menina dos fósforos e as histórias que se contavam nos anos 80 sobre a URSS. É um prenúncio do que nos espera em 2011, sem um rebuçadinho para adoçar a boca e com frieiras nas mãos?

Nessa noite os telejornais abriram com a miserabilista crise do açúcar: os stocks estavam "quase mas mesmo quase em rutura... iminente". No dia seguinte, por todo o país deu-se uma energizada corrida ao açúcar. E não é que houve efetivamente um rutura nos stocks? O ministro da Agricultura veio à TV apelar contra o "açambarcamento" e mais uma vez ficámos a saber da malvadez da Europa, que depois de nos ensinar a plantar beterraba nos anos 90 agora já não deixa lavrar a terra e assim não podemos ser auto-suficientes em termos de açucareiros. Nem o açúcar - algo que juntamente com o comércio de escravos levámos com sucesso para o Brasil.

Durante uns dias a crise do açúcar bateu-se com valentia nos alinhamentos noticiosos para ser a abertura dramática. E não estamos em época baixa de notícias: o país está à beirinha da bancarrota e o mundo vive cataclismos geopolíticos diários com o WikiLeaks e até tivemos um furacão daqueles que dão soundbytes de populares "um ministro da Administração Interna a declarar um oficioso 'o Diabo andou literalmente à solta por aqui'", porque sabe que o Mafarrico é melhor a acertar faturas que o Estado.

Recordo-me vagamente de nos anos 80 ter faltado o tabaco em Portugal. Andava tudo a catar beatas e a fumar mata-ratos. E, curiosamente, teve algumas reações similares de açambarcamento, de stresse e de sintomas de abstinência por antecipação. Mas é que não se viu tanta loucura e ansiedade desde que em 1997 a polícia fechou o Casal Ventoso durante 48 horas deixando Lisboa sem drogas lúdicas para o réveillon.

Ninguém se lembrou que Portugal é um país com um milhão de diabéticos e que hoje o açúcar refinado - o branquinho do bom - é considerado um verdadeiro veneno. E, para mais, há cerca de 40% de casos não diagnosticados, o que faz com que quando chegam ao tratamento tragam já problemas graves associados à doença. E em 2025 espera-se que sejam 2 milhões de diabéticos para uma população de menos de 10 milhões de tugas. E os hábitos alimentares degradaram-se de forma absurda. Hoje, 30% das crianças são obesas, o que faz de nós um dos campeões europeus nesta matéria. O açúcar está dissimulado, vem escondido em mil produtos, dos cereais aos refrigerantes e apascentados num estilo de vida de PlayStation e X-Box, o que é excelente para açambarcar gordura e badochice. Tem um efeito nutricional vazio, é demolidor para a saúde oral, deprime o sistema imunitário, aumenta o risco de doença cardíaca, pode causar hipoglicemia, faz disparar a adrenalina nas crianças, aumenta o 'mau' colesterol, enfim, afeta negativamente o organismo em muitas outras maneiras. Os portugueses ingerem mais de 35 quilos por ano. Isto não é uma cacha jornalística: o açúcar refinado não está bem considerado na alta roda dos alimentos, enfim no jet set internacional da comida. Por cá é legal, estamos agarrados e a semana passada tivemos a prova disso.

Mas é Natal e felizmente o açúcar não vai faltar na mesa dos portugueses, senão havia um levantamento popular e as ruas haviam de ficar como aquela série nova da Fox com mortos-vivos a deambular à procura de um pacotinho de 10 gramas ou de umas hermesetas, só para matar o vício.

Na memória fica o velhote que há dias declarava satisfeito à repórter ter comprado dez quilinhos. Grande maluco. Hoje à noite deve estar a oferecer aos netinhos um pacote de quilo a cada. O resto fica para herança.

Dissimulado

A Deco, através da Proteste , lança regularmente alertas para o mundo açucarado em que vivemos, do pão de forma ao ketchup: não precisamos de ir às prateleiras abastecer-nos. Uma mera lata de refrigerante pode mais açúcar que uma tablete de chocolate ou uma fatia de marmelada ou ser o equivalente a cinco pacotes de açúcar para café.

Texto publicado na revista Única de 23 de dezembro de 2010

 
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