Não é o FMI. É a União Europeia
I. Não se fala de outra coisa: "o FMI vem aí". As pessoas falam da intervenção do FMI como se estivessem a falar de uma invasão estrangeira. Manuel Alegre é perito nisto. Aliás, começo a achar que o bardo de Águeda quer ir até Badajoz com o objetivo de parar logo ali a invasão do FMI. E, para isso, conta com uma ala dos namorados composta por jovenzinhos do BE e por velhinhos do PCTT/MRPP.
II. Mas a questão nem sequer é essa. Não devíamos estar a falar do FMI, mas sim da União Europeia. Se chegar a pedir ajuda, Portugal terá de pedir esse auxílio ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira da União Europeia - FEEF (o FMI é apenas uma parte dessa ajuda). Ou seja, o ator que nos está a pressionar não é o longínquo e externo FMI (um mau da fita muito conveniente). O elemento que nos está a pressionar é a nossa União Europeia, essa coisa que tem sido o centro da legitimidade da democracia portuguesa desde 1985. Então, por que razão se agita tanto o fantasma do FMI? Porque isso dá muito jeito à esquerda, em geral, e ao PS, em particular. Por duas razões.
III. Primeira razão: o PS não tem uma narrativa anti-União Europeia. Além de julgar que é o dono da nossa democracia, o PS pensa que é proprietário da relação Portugal-União Europeia. Desde Mário Soares ("o pai da entrada de Portugal na UE") a José Sócrates ("o pai do Tratado de Lisboa"), o PS assentou a sua - suposta - superioridade moral sobre os outros partidos num ponto essencial: o PS, dizem, é o partido mais europeu, é o partido da União Europeia em Portugal. Ora, no último ano, esta relação especial entre o PS e a UE tornou-se complicada, porque a UE (Euro Grupo) está a impor mudanças económicas que o PS considera "neoliberais", esse terrível papão que a esquerda portuguesa gosta de agitar. E, como já escrevi aqui, esta tensão coloca o PS perante um dilema sério: ou está com a União Europeia, ou está com o statu quo português . Para evitar confrontar-se com este dilema central, o PS encontrou duas válvulas de escape: atacar a Alemanha ("ai, a Alemanha está a destruir a UE, porque, imaginem, não quer simplesmente pagar o nosso défice") e agitar o fantasma da entrada do FMI (quando o que está em causa é a entrada da União Europeia, do Euro Grupo).
IV. Segunda razão: a entrada do FMI limparia do calendário 15 anos de governação socialista. Nós estamos a ser governados pelo PS desde 1995. Portugal está em crise desde 2000 (a crise internacional é de 2008). Entre 2000 e 2008, a economia mundial e europeia tiveram taxas de crescimento nunca vistas, mas Portugal não as sentiu, porque já estava em crise. Em 1996, a nossa dívida externa era de 10% do PIB. Hoje, está acima dos 100% (dados do Banco de Portugal, revelados pelo "i" de 19 de março). Ora, como também já aqui escrevi, a entrada wagneriana do FMI seria algo que limparia as culpas do PS. O FMI em Portugal seria o dilúvio salvador do PS. Sócrates podia dizer "reparem, a culpa é desses tipos que aterram na Portela". Numa semana, o spin socrático limparia da história 15 anos de péssima governação socialista, e haveria apenas dois maus da fita: o FMI e os traidores internos que lidam com o FMI. Ou seja, a "direita" (ler com a entoação enojada de Manuel Alegre) já não seria acusada apenas de blasfémia ideológica. Também seria acusada de traição à pátria.
V. Como eu gostava de ser de esquerda. Juro. Era tão mais fácil. Havia os bons e os maus, e não era preciso pensar.


