É nos momentos de grandes tragédias que a racionalidade mais tem de determinar o nosso comportamento. Assim é com as pessoas, assim é com os regimes. Perante as perguntas que têm de ser feitas - até porque são obrigatórias respostas rápidas mas, ainda assim, acertadas -, a tendência de todos é a de ceder à emotividade dominante. Não questionar nada e, sobretudo, não contestar nada, como se essa fosse a melhor forma de não atrapalhar. Compreende-se. Mas não se recomenda.
Perante críticas ao ordenamento do território na Madeira, Alberto João Jardim atalhou: quem as faz é canalha e não tem vergonha na cara. Perante as perguntas de um jornalista a propósito da decisão do Governo Regional e do Governo da República de não decretar o Estado de Calamidade, o vice-presidente regional revoltou-se. Perante o que a Madeira tem pela frente, o PS, com o apoio (e alívio) de toda a oposição, decidiu desistir da sua oposição à Lei das Finanças Regionais.
Como é natural, os vários líderes partidários irão por estes dias à Madeira. Dizer coisas de circunstância, que é a única coisa que podem realmente fazer. E, claro, mostrar a unidade do país (verdadeira) na solidariedade que os madeirenses merecem.
A vantagem de ser colunista, jornalista ou especialista (cada um com a sua função) é a de não depender dos votos dos eleitores. A não ser para quem viva para a popularidade fácil de cada momento, não se está obrigado a ficar refém da emotividade geral. Aguenta-se a indignação que causa o que se diz ou se escreve sem problemas de maior. É esse, mais do que fazer vídeoclipes informativos ou poesia barata com o sofrimento dos outros, o papel de quem pode ficar de fora da compreensível comoção nacional. O que não quer dizer que não se sintam as coisas. Por razões só minhas, sinto-as com toda a certeza.
Por isso, não é canalhice nenhuma ajudar a fazer algum balanço do que aconteceu e dos efeitos que determinadas decisões tiveram no que aconteceu para que se possa planear melhor a partir daqui. Sem termos, quando nem sequer todos os corpos foram resgatados, de procurar os responsáveis directos, o debate sereno pode e deve fazer-se, com a participação de especialistas. Até porque algumas das decisões de reconstrução são tomadas agora e devem ser melhores do que as anteriores. E houve coisas que falharam.
Por isso, é importante que seja explicado claramente o que se perde e se ganha com a não declaração do Estado de Calamidade. O que evidentemente se ganha para o turismo, compensa o que se perde na ajuda directa às pessoas? Para que todos percebam se é mesmo a melhor decisão.
Por isso, é legitimo perguntar o que raio tem a ver a Lei das Finanças Regionais com a ajuda que os madeirenses terão neste momento de receber. Se esta decisão de recuo resulta de alguma racionalidade financeira ou se, pelo contrário, apenas resulta do receio pelos efeitos políticos que uma oposição a esta lei teria num momento de natural simpatia e solidariedade nacional para com os madeirenses.
As sociedades com democracias saudáveis devem estar preparadas para viver momentos como este - ou piores -, que têm sempre uma enorme carga emotiva, sem deixarem de pensar e questionar as decisões que se tomam. Assim como as pessoas, é nestes momentos que o sangue frio é fundamental. E que são dispensáveis as cínicas carpideiras de serviço.
A Madeira precisa de ajuda. Tem de a ter. Mas isso não impede dúvidas, perguntas e respostas. E não é legítimo nem útil lançar insultos contra quem tem dúvidas, faz perguntas e pede respostas.