Naipaul e a pornografia africana
Quando lemos A Curva do Rio de V. S. Naipaul, é impossível não pensarmos em Joseph Conrad e Coração das Trevas. A par do "dom quase conradiano" de Naipaul para "criar tensão numa história" (New York Times, 1979), existem as óbvias semelhanças de cenário e de simbolismo: nos dois romances, o rio africano funciona como uma espécie de portal que nos transporta para um lugar fora do tempo e das balizas morais. Tal como diz Mahesh, uma das personagens de A Curva do Rio, "o problema aqui não é entre certo e errado, bem e mal, legal e ilegal. Aqui está tudo errado". Neste sentido, atrevemo-nos a dizer que A Curva do Rio (1979) está para a selva amoral da África pós-colonial como Coração das Trevas (1899) está para a pornografia amoral da África colonial.
A história gira em redor de Salim, o narrador omnipresente, que deixa a costa e a família de comerciantes indianos em direcção a uma cidade do interior com o objectivo de criar o seu negócio. Situada num país sem nome, a aventura de Salim acaba por ser um relato da violência e, sobretudo, da incerteza da África pós-colonial. Mesmo quando não há sangue, tudo depende da vontade do "The Big Man", o típico marajá negro que governa África ao sabor do seu arbítrio. A esta tensão política, Naipaul acrescenta uma tensão interior nas meditações de Salim, um jovem adulto que não consegue encontrar a sua terra. Não é indiano, apesar da sua tez; não se sente da costa, mas também nunca consegue a integração naquele interior rodeado pelos "homens do mato" (só tem sexo com prostitutas); e também não se sente bem em Londres (há uma pequena viagem), apesar de essa ser a morada da esposa prometida e do exílio normal da sua gente.
Que escape encontra Salim para esta tensão política e pessoal? Por breves momentos, o leitor ainda pensa que a relação sexual com Yvette, a mulher de Raymond, o intelectual branco do "The Big Man", é esse escape. Contudo, a relação evolui para a violência latente e, depois, para o tabefe. Nas descrições e, digamos, nas meditações de cama, percebemos que o prazer de Salim é o alter-ego do prazer de Naipaul, pois Yvette é Margarita (Margaret Gooding), a amante argentina que deu, pela primeira vez, prazer sexual a Naipaul. Problema? Esse prazer exigia violência, implicava o espancamento, em diversos graus, de Margarita . Esta tormenta sexual e amoral varreu a vida de Naipaul e, por osmose, varre a vida de Salim. Entretanto, lá fora, uma tormenta política final varre a esperança daquele país sem nome. A redenção, pessoal e colectiva, não é possível do lado de lá do rio. "O mundo é o que é".


