"Nada nos obriga a ser submissos"
Numa carta aberta especialmente dura dirigida ao ministro da Defesa, a Associação dos Oficiais das Forças Armadas (AOFA) acusa José Pedro Aguiar-Branco de falta de "clarividência", considera que as medidas do Governo "estão carregadas de falta de respeito" e avisa que aos oficiais "nada os obriga a serem submissos e acomodados".
Segundo o "Diário de Notícias", a carta foi ontem enviada a todos os oficiais das Forças Armadas que, indignados com as acusações de conduta "partidária", interrogam:" Denunciar perante a opinião pública as medidas lesivas e, consideramos nós, carregadas de falta de respeito pela dignidade de quem jurou abnegadamente (sem se servir) a Pátria, é fazer política?"
Recorde-se que Aguiar-Branco afirmou recentemente que "utilizar o protesto militar como forma de intervenção pública, política e partidária é grave", além de ter aconselhado muitos militares a repensarem a sua vocação. "Se não sentem vocação estão no sítio errado", disse o ministro, acresecentando: "Antes de protestar precisam de mudar de carreira".
Militares acusam ministro de não cumprir a lei
Para os militares, estas declarações foram a gota de água a fazer transbordar a tensão que desde há muito se vem instalando. "As associações deveriam ser auscultadas ou envolvidas em matérias do seu âmbito, situação que não acontece porque o ministro não cumpre a lei", escreve ainda a AOFA.
Já o ex-chefe de Estado-maior da Armada tinha esta semana referido o pouco peso que os chefes militares têm nas decisões políticas. Em entrevista ao programa da rádio Renascença "Terça à Noite", o almirante Melo Gomes comentou as últimas declarações do ministro da Defesa Aguiar-Branco sobre as associações militares e os protestos de rua, dizendo que " se o poder dos chefes militares tivesse consequências e se a sua audição tivesse resultados, talvez a questão das associações militares fosse mitigada de outra maneira".
Sobre as declarações do ministro quanto à não sustentabilidade das Forças Armadas, Melo Gomes acrescentou: "julgo que a palavra sustentabilidade é uma figura de estilo, uma interpretação economico -financeira que não se coaduna com os objectivos das Forças Armadas".
Esta não é a primeira carta aberta escrita pelas três associações militares. Em setembro de 2009, uma outra, dirigida aos portugueses durante o período eleitoral, acusava o Governo de "desprezar os legítimos direitos dos militares e dos seus representantes. Em causa estavam as alterações aos regimes de saúde e a de aposentação, o novo regime retributivo e o Regulamento de Disciplina Militar.


