Em "A Estrada", de John Hillcoat (adaptado do livro de Cormac McCarthy), pai e filho caminham para Sul no meio da destruição de um mundo em agonia. Para a criança, os homens que sobram do apocalipse dividem-se entre bons e maus. Mas depressa perceberá que até o seu pai vacila.
No entanto, quando tudo o que parece garantir a humanidade dos homens desaparece, quando nada sustenta a civilização, a solidariedade não chega a desaparecer. Não porque seja clara a fronteira entre a crueldade e a sobrevivência. Mas porque o sentido de comunidade é tão natural ao homem como o egoísmo.
Bem sei que a pilhagem e o caos passam bem na televisão. Mas no meio do caos há quem, no apocalipse que se abateu sobre o Haiti, faça com que a auto-organização ocupe o lugar deixado vago por um Estado falhado. Como mostrou uma reportagem da Al-Jazeera, em muitos bairros de Port-au-Prince vizinhos sem nada organizam-se para se ajudarem uns aos outros.
Bem sei que o cinismo em relação à condição humana vive mal com a naturalidade da solidariedade. Mas estas histórias são tão reais como as pilhagens. E o que leva pessoas comuns a apoiarem-se não é nenhum idealismo, até porque a fome deixa pouco espaço para isso. É a luta pela vida. E tão humana como a violência.