São inúmeros os exemplos em que a Ciência nos mostra que uma resposta a determinados acontecimentos baseada no "senso comum" nem sempre produz o efeito desejado, podendo mesmo ser catastrófica, como acontece com a reacção de um piloto de avião comercial quando o
wind shear ocorre em situações de aterragem. Será que é isso mesmo que está a ser feito em Portugal perante os efeitos da crise internacional e das medidas impostas pela troika?
Vejamos o exemplo da Finlândia, bem conhecido por ter passado de um país remediado a um país de topo mundial quanto a qualidade de vida em poucos anos, sobretudo tendo-o feito após uma crise económica tremenda resultante do colapso da ex-URSS, seu grande parceiro comercial.
Um
relatório
produzido pela European Academies Science Advisory Council em Abril de 2004 usa a Finlândia como um dos exemplos de como atingir a meta de investimento em Ciência e Tecnologia de 3% do PIB, factor considerado fundamental para a Europa se tornar competitiva a nível mundial, melhorando a qualidade de vida dos seus povos, por comparação com o investimento nessas áreas de países como os EUA e o Japão. A Finlândia era um país
low tech nos anos 1960 e transformou-se num país
hi tech nos anos 1990, sendo a Nokia o exemplo mais conhecido desta transformação, da qual foi simultaneamente consequência e causa.
O mais surpreendente factor de mudança na Finlândia teve lugar quando, após a grande recessão dos anos 1990, a sua dívida externa explodiu e o desemprego passou dos 3-4% para cerca de 20%. O governo finlandês foi obrigado a realizar privatizações mas, ao invés de usar o encaixe resultante para pagar deficit e recapitalizar bancos, aumentou o investimento público em I&D em 25%.A situação parece similar à portuguesa, mas vejamos algumas importantes diferenças (para além da aparente falta de aposta do actual governo em I&D, preferindo aumentar o horário de trabalho e a produção intensiva e pouco qualificada):
* o nível histórico de investimento da Finlândia no sistema educativo, colocando a sua literacia entre as melhores do mundo, desde o século XIX
* uma cultura nacional que aprecia e valoriza os avanços tecnológicos e a ênfase da educação em C&T (será que os noticiários finlandeses têm todos os dias uma peça sobre a "óbvia" dificuldade da matemática e sobre licenciados em Cinema que não conseguem arranjar trabalho?) - há mesmo uma estrutura de decisão política dedicada à C&T presidida pelo Primeiro Ministro!
* o baixo nível de corrupção
* um investimento privado em I&D duas vezes superior ao público - isto é, empresas e empresários com visão e educação que apostam na inovação como forma de fazer melhorar a sua competitividade e internacionalização, que reinvestem os lucros em I&D, em vez de em carros para os administradores e/ou de baixos salários.
Portugal parece de momento longe de assumir esta visão e estes riscos... mas nunca é demais chamar a atenção, na contramão da crise. Será que um dia teremos a nossa Nokia da Robótica?! Ou vamos continuar a pensar, quando falamos do regresso à agricultura e ao mar, em ceifeiras nas searas e traineiras artesanais no mar? Soa bem em romances neo-realistas, mas não contribui muito para a nossa melhoria de qualidade de vida futura.
Nota
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