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Youtube: a voz como factor x

Pedro Xavier Mendonça
11:40 Sexta feira, 18 de abril de 2014

Um dos efeitos da internet é a proliferação de pequenos vídeos curiosos que exibem performances ou situações surpreendentes. São do mais variado tipo, desde o atlético ou artístico até ao ridículo ou "fofinho". O Youtube ganha a sua fama a partir desta lógica de partilha, muitas vezes amadora, mas cada vez mais profissional. As redes sociais intensificam a difusão destes conteúdos, os quais chegam a atingir milhões de visualizações. Alguns são exibidos na TV posteriormente, mas outros chegam a nascer nesta para só depois passarem para a internet.

Centremo-nos especificamente nos vídeos que exibem uma perícia artística. Muitos resultam de utilizadores da internet amadores que tentam a sua sorte mostrando a sua arte no Youtube. Algumas estrelas nascem deste modo, veja-se o caso de Justin Bieber. Outros vídeos são realizados em concursos televisivos de música ou dança e depois colocados online. Estes em particular têm aumentado ao sabor do sucesso destes programas. Uma difusão certamente profissional. Há muito que a televisão aprendeu a usar a internet para seu próprio benefício. Se não os podes vencer, junta-te a eles, ter-se-á pensado.

A questão que se deve colocar diz respeito à saturação do espanto e ao mesmo tempo a um certo paternalismo que mistura condições de classe e capital de visibilidade nestes casos. Passo a explicar. O espanto satura-se quando se torna comum aquilo que deveria ser raro. Com a possibilidade de aceder ao inesperado e extraordinário ao ritmo que a estatística permite em termos de população mundial, visto qualquer um poder exibir o seu caso para lá do seu espaço imediato (e somos 7 biliões!), o espanto terá tendência a repetir-se mais, a tornar-se expectável e, portanto, a desaparecer, pois é do incomum que se alimenta. Contudo, vai-se mantendo.

O paternalismo, por sua vez, existe não só nos concursos referidos como na nossa aproximação aos mesmos através destes vídeos online. Por um lado, está presente na escada social que se lança aos performers quando estes cantam ou dançam: "vens de baixo, mas, se tiveres mérito, podes subir". Uma postura que é visível sempre que os concorrentes entram no palco e, antes de cantarem ou dançarem, surgem juízos de valor negativos em relação ao seu aspeto físico e comportamental, tido como "simplório" ou mesmo aberrante (veja-se Susan Boyle), em contraste com o desvelamento social que o mérito da atuação depois provoca. O tal espanto alimenta-se muito deste contraste entre o preconceito perante o que se vê e o mérito revelado. Por outro lado, a possibilidade de aceder a uma grande audiência (capital de visibilidade) faz de cada performer um iniciado que tem uma pretensão que só pode ser atingida se ele for efetivamente extraordinário. Caso não seja, não passa de uma intenção que faz do proponente um falhado. Por isso, o espetador olha de cima para baixo. Os falhanços são também difundidos, aí como a celebração da impossibilidade da ascensão social sem talento.

Diariamente, estas atuações enchem a rede. As ligações eletrónicas tornam-se caminhos vistos como oportunidades pelos cidadãos em geral. Não se pode negar virtude à possibilidade de cada um mostrar o que vale, mas também não se deve negar que há nisto uma espetacularização da expetativa e um jogo de espantos.

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Pedro Xavier Mendonça, investigador académico em estudos sociais de tecnologia e de comunicação, docente no ISCEM-EFAP Portugal, procura com este espaço trazer reflexões das pesquisas sobre tecnologia e sociedade. Porque a tecnologia é uma realidade social e tem implicações humanas, pretende-se pensá-la a partir destas duas vertentes. O objetivo é estimular o pensamento sobre este fenómeno evitando os quadros mentais que o fecham no mundo da técnica. pedroxaviermendonca@gmail.com

O Facebook sofre de pensamentos invasivos

Pedro Xavier Mendonça
8:00 Sexta feira, 11 de abril de 2014

Comparar a tecnologia com humanos não é uma coisa nova. Há muito que diversos autores que pensam a técnica veem nela ora uma imitação da humanidade ora uma sua extensão. Se olharmos para as redes sociais - o Facebook em particular - e fizermos o mesmo, com as devidas diferenças, encontramos características que diria patológicas do ponto de vista da mente de um indivíduo. Isto é, como se o Facebook fosse um cérebro que por vezes revelasse estados doentios.

Um cérebro é feito de interações internas e externas que constroem ideias, decisões, reações, juízos de valor, afetos, segredos e exibições, entre tantas outras realidades humanas. É possível ver no Facebook uma espécie de avatar de todas estas vivências num só local, dependente de estímulos provocados pelos utilizadores que se projetam nessa autêntica mente coletiva e seletiva. As marcas pessoais que cada um dá configuram uma marca grupal feita de uma rede de "amigos".

Num certo sentido, tal como o cérebro, o Facebook é uma entidade pública e privada. Faz-se de uma interação interna que recebe informações de fora, mas também lança manifestações para o exterior: pensamos ou sentimos, e isso resulta de uma afetação em relação ao mundo e faz com que nos expressemos em relação a ele. Por isso, aquilo que colocamos nesta rede social dirige-se aos nossos amigos, mas eles partilham os posts que publicamos com outros e isso comenta-se fora do Facebook. O inverso também ocorre.

As organizações estão cada vez mais neste sistema, muitas delas - e este é o ponto - sem que tenhamos dado autorização para isso. Muitas veem nesta plataforma uma oportunidade para se publicitarem. E aí fazem-no de várias maneiras: criando, gratuitamente, uma página da qual os utilizadores só dão conta se carregarem num "gosto" ou pagando anúncios que aparecem nas partes laterais, mas também em posts que se confundem com os dos "amigos", sem o serem. Este último caso tem crescido imenso. Trata-se de uma intervenção que não resulta de qualquer sugestão ou atividade de "amigo" e não se fica pela higiene das colunas dos lados. É um tipo de posts em que se sugere que gostemos de uma página que não sabemos de onde vem nem por que vem.

É isto que faz com que se detete um problema no Facebook enquanto cérebro. Vemos algo que aparece como um pensamento invasivo, que se impõe à ecologia da mente coletiva e seletiva que se vê representada nesta rede social. Sem qualquer rigor científico, podemos dizer que o pensamento invasivo é característico de estados de ansiedade, neurose ou mesmo alucinação. Não que este tipo de posts provoque isso nos utilizadores. Mas se olharmos para o Facebook e a sua expressão em dada conta de um utilizador, é como se víssemos uma mente híper-ativada pela persuasão organizacional, vinda de um espaço público que se impõe. E a verdade é que os utilizadores também sofrem efeitos, ainda que de outro tipo. Sofrem uma certa irritação e a sensação de efetiva invasão, mas de privacidade. Aí começa-lhes a dar o pensamento voluntário de fechar a conta no Facebook. É nisto que Mark Zuckerberg deve começar a pensar.

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Pedro Xavier Mendonça, investigador académico em estudos sociais de tecnologia e de comunicação, docente no ISCEM-EFAP Portugal, procura com este espaço trazer reflexões das pesquisas sobre tecnologia e sociedade. Porque a tecnologia é uma realidade social e tem implicações humanas, pretende-se pensá-la a partir destas duas vertentes. O objetivo é estimular o pensamento sobre este fenómeno evitando os quadros mentais que o fecham no mundo da técnica. pedroxaviermendonca@gmail.com

Sorteio de automóveis: a fatura da democracia

Pedro Xavier Mendonça
8:00 Sexta feira, 4 de abril de 2014

Um dos sinais de que somos ao mesmo tempo uma sociedade de consumo e uma sociedade tecnológica é o sorteio dos automóveis topo de gama como prémio para quem peça fatura. Seria uma situação caricata se fosse a cena de uma ficção distópica barata de um filme de domingo. Mas não é uma situação caricata.

É o resultado de só levarmos a sério as contribuições para o Estado em forma de impostos caso tenhamos algo em troca que se veja diretamente. Tudo o que se dilui por hospitais, escolas, estradas e segurança não conta. É preciso ver o efeito logo a seguir à causa, mesmo que não nos calhe nada, para que se dê a mobilização no sentido de se cumprirem os registos de faturação. Pelo menos é o que está implícito neste sorteio. É uma infatilização do contribuinte. Acontece que um topo de gama é um dos maiores símbolos daquilo que a distribuição de rendimentos feita pelo Estado, através de impostos, pretende contrariar: a desigualdade. Possuir um topo de gama é estar no topo da gama socioeconómica. Ironicamente, os custos de manutenção de qualquer um dos veículos em sorteio são incomportáveis para um cidadão a meio da gama.

São dois valores em confronto. Por um lado, o da contribuição para a comunidade, presente na entrega de impostos ao Estado. Por outro, o da aquisição de bens individualmente, de preferência com as melhores tecnologias do seu tipo, que faz parte da posse de um automóvel. O primeiro valor parece ser mais nobre, pois não é autocentrado e procura compensar as injustiças sociais. O segundo valor diz respeito aos desejos individuais e a uma economia assente no consumo. E é este que sai a ganhar. Tem claramente mais força. Tanto assim é que só através dele podemos garantir que o valor comunitário seja respeitado com poder suficiente. É preciso passar pelo desejo individualizado de consumo para que se cumpra uma função coletiva. Parece que é só na expetativa de adquirir um automóvel que pedimos a fatura. Dir-se-á que é o gene egoísta.

Para compor o ramalhete, a RTP vai transmitir o evento em direto. O serviço público de media assume em pleno, como explosão simbólica, esta realidade. Podemos imaginar no futuro fazer-se o mesmo em relação ao voto. O sorteio de uma casa entre todos os eleitores que não se abstenham e a sua transmissão na noite das eleições, depois dos resultados serem anunciados. No limite, os candidatos poderão fazer os seus próprios sorteios entre os que votarem nas suas propostas. A plenitude terá chegado, no abraço entre esta democracia e uma certa economia política.

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Pedro Xavier Mendonça, investigador académico em estudos sociais de tecnologia e de comunicação, docente no ISCEM-EFAP Portugal, procura com este espaço trazer reflexões das pesquisas sobre tecnologia e sociedade. Porque a tecnologia é uma realidade social e tem implicações humanas, pretende-se pensá-la a partir destas duas vertentes. O objetivo é estimular o pensamento sobre este fenómeno evitando os quadros mentais que o fecham no mundo da técnica. pedro.mendonca@iscem.pt

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Os telemóveis são espingardas

Pedro Xavier Mendonça
8:00 Sexta feira, 28 de março de 2014

O maravilhoso mundo das telecomunicações diz-nos que estamos na era do acesso, sobretudo no sentido em que passamos a ter acesso a muitas possibilidades. Contudo, por vezes é esquecido que também passamos a estar acessíveis às possibilidades dos outros, isto é, ao que eles querem de nós.

Quando pensamos num telemóvel, tendemos a vê-lo como um veículo de comunicação de um núcleo, a nossa pessoa, para um exterior, todos as outras pessoas. Esquecemos considerar o sentido inverso, de fora para dentro. Na realidade, não somos só snipers da comunicação prontos a disparar sobre os outros. Somos também hipotéticas vítimas em campo aberto. Qualquer um pode atingir-nos com um telefonema no ouvido.

Uma das esferas mais afetada por esta realidade é a relação entre a vida privada e o trabalho. Uma velha questão. O limite às horas de trabalho semanal conseguido por uma atribulada história sindicalista responde à necessidade de não reduzir o ser humano à sua condição laboral. Depois de muitos abusos no início da Revolução Industrial (muitos ainda hoje permanecem), parte-se do princípio de que a vida privada tem que existir com tempo e dignidade, a bem da saúde, do convívio social e da ideia de liberdade. Já o diz o célebre dito "trabalha-se para viver, não se vive para trabalhar". O que não deve ser desculpa para desvalorizar o trabalho enquanto aspeto central na existência de cada um.

Com o permanente estado de acessibilidade que as novas tecnologias de comunicação proporcionam, a separação entre o trabalho e a vida privada torna-se muito mais porosa. Não só passa a existir o chamado teletrabalho, em que o trabalhador faz as suas atividades profissionais a partir de casa, como quem deixa a sua profissão fechada no seu local de trabalho é constantemente invadido por estímulos laborais no seu círculo doméstico. São emails, telefonemas e coisas por fazer que podem ser articuladas à distância. O limite por semana de horas em laboração acaba por ficar muito variável.

Os diversos setores da vida entrecruzam-se como nunca e a especificidade de cada um queda-se ambígua. O problema cresce quando isto acontece a favor de uma dimensão e não de todas. Quando a vida profissional invade mais do que é invadida esta questão é mais crítica. Em qualquer das situações, também a mestiçagem entre diferentes espaços descaracteriza o que faz do trabalho e da vida privada aquilo que são. Quando se tornam noutra coisa, deixam de existir. Temos outro mundo.

Desligar o telemóvel não é uma opção. O silêncio ou a voz da operadora a dizer que o aparelho está desligado são uma mensagem, não a sua ausência: "a pessoa não quer falar com quem telefonou ou mesmo com qualquer outro". Não há mudez possível. A acessibilidade é uma obrigação. Já nascemos disponíveis, ainda que estar disponível não seja estar disposto.

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Os "cidadãos" da Crimeia querem é automóveis!

Pedro Xavier Mendonça
8:00 Sexta feira, 21 de março de 2014

Hoje a ideia de conforto das massas está presente na política e no nacionalismo de um modo mais forte do que nunca. O cidadão quer descanso e comodidades, a redução do esforço de viver. Isto surge como um valor evidente, indiscutível e frequentemente o único, embora por vezes disfarçado por trás de outros na aparência mais nobres. Salvar a pátria é salvar o corpo. Se o corpo se destruir por causa da pátria, salvemos o corpo. O cidadão é consumidor e é isso que pretende ser. O Estado presta um serviço, como se de uma empresa se tratasse. E o cidadão exige uma boa prestação, caso contrário queixa-se no livro de reclamações que lhe dão a oportunidade de preencher no dia das eleições.

Os recentes acontecimentos na Crimeia levaram jornalistas às ruas a perguntar aos cidadãos desta região o que pensam da situação crítica que aí se vive. Grande parte das respostas mostram uma simpatia pela Rússia precisamente assente no argumento do conforto, apesar da familiaridade étnica com os russos. Com a assimilação da Crimeia por parte da Rússia espera-se um acréscimo nos rendimentos, mais empregos e melhor qualidade de vida. A propaganda russa na região exibe cartazes que comparam os salários na Ucrânia com os salários na Rússia, em que estes últimos são manifestamente superiores. As pessoas respondem com maravilhamento. A vontade de aproximar a Ucrânia da União Europeia também se articula com este tipo de vontade.

É muito comum encontrar este móbil nos motivos a favor e contra a independência de outras zonas do mundo. O facto da Catalunha ser uma das regiões mais ricas de Espanha não é indiferente às vontades independentistas no seu seio. A possibilidade da Escócia vir a tornar-se uma região mais pobre com a soberania total não tem favorecido os que defendem que se deve tornar num país independente do Reino Unido.

A forma como os mercados financeiros vão marcando a geopolítica e os debates internos dos países com dívidas "soberanas" mostra como a determinante económica, e logo do conforto, é central. O valor da soberania, da liberdade e os conteúdos que podem compor uma identidade nacional, para lá das condições de comodidade de um povo, ficam para um plano marginal, na realidade meramente cosmético no que à realpolitik diz respeito. Neste contexto, as sanções económicas de um país a outro surgem como uma arma cada vez mais importante, num tempo em que a guerra militar pode ter consequências apocalípticas.

Os media reproduzem totalmente esta dinâmica. O discurso político é engolido pela lógica económica e da prestação de serviços. Disponibilizar orientação política em campanha é prometer uma vida confortável. A classe média é um carro, um frigorífico, um computador e uma televisão. Outras camadas de valores existem, é certo, mas não se vêem.

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Pedro Xavier Mendonça, investigador académico em estudos sociais de tecnologia e de comunicação, docente no ISCEM-EFAP Portugal, procura com este espaço trazer reflexões das pesquisas sobre tecnologia e sociedade. Porque a tecnologia é uma realidade social e tem implicações humanas, pretende-se pensá-la a partir destas duas vertentes. O objetivo é estimular o pensamento sobre este fenómeno evitando os quadros mentais que o fecham no mundo da técnica. pedro.mendonca@iscem.pt

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Balanço do dia europeu sem telemóvel

Pedro Xavier Mendonça
8:00 Sexta feira, 14 de março de 2014

Uma ficção para 2020:

O dia europeu sem telemóvel foi um sucesso relativo. Relativo porque apesar de ter uma adesão significativa, bastante visível nas ruas, muita gente não resistiu ao seu uso, sobretudo em algumas empresas que não conseguiram manter o funcionamento sem ele, agora que desapareceu o telefone fixo. Em todo o caso, como primeira experiência correu muito bem. Nas palavras do Presidente da Associação Portuguesa Contra a Teledependência este acontecimento "mostrou uma efetiva vontade da sociedade em pelo menos reduzir o uso deste objeto que tantos problemas tem trazido nos últimos anos". É uma iniciativa que para o ano, diz, será alargada a países fora da União Europeia.

Os malefícios do telemóvel são conhecidos. Ocorrem ao nível da saúde em geral, mas também em termos sociais e ambientais. No que diz respeito à saúde, está provado que é altamente prejudicial ao cérebro e ao ouvido, sobreaquecendo o corpo que está em contacto com o artefacto enquanto se telefona. Também causa problemas musculoesqueléticos, como seja ao braço usado para telefonar ou à mão que digita números no ecrã. Sem esquecer o caso dos chips recusados pelo organismo de muitos dos que aderiram ao telemóvel incorporado, a febre deste ano.

As questões de saúde não foram as únicas que ajudaram a criar um movimento contra o telemóvel. Nos últimos anos, verificou-se um fenómeno social que preocupa os psicólogos e os sociólogos. O hábito de falar presencialmente diminuiu a níveis assustadores. Tornaram-se muito menos frequentes as conversas cara-a-cara. Basta passar por qualquer zona pública e encontramos gente a falar sozinha (com os telemóveis) constantemente. E quando observamos pessoas que estão em grupo, vemos uma percentagem crescente das mesmas a telecomunicarem em lugar de comunicarem com o vizinho do lado. Há restaurantes que já proíbem há muito este uso, ao contrário da maioria que o incentiva com cabines que isolam os comunicantes/comensais.

Um dos alertas para esta situação resultou do aumento de casos de ansiedade grave e mesmo suicídio em indivíduos que por alguma razão ficaram sem acesso ao seu telemóvel. Desenvolveu-se a Psicologia das Telecomunicações como área de especialidade em resposta a isso. Já existem consultas no sistema nacional de saúde.

Em termos ambientais, o telemóvel é mais um dos muitos produtos tecnológicos que têm destruído recursos naturais e criado lixeiras específicas - são bem conhecidas as chamadas montanhas eletrónicas acumuladas nos subúrbios de muitas cidades europeias, falhado que foi o plano de reciclagem eletrónica pela lei da inovação (não se pode sacrificar a novidade de um produto à necessidade de reutilizar materiais). Neste panorama não podemos esquecer o que se passa nas minas do Congo, fonte de minérios essenciais à indústria das telecomunicações. Um país que de momento tem como seu chefe de governo um autêntico representante das empresas de telemóveis. Uma questão política que como nunca misturou Estado e setor privado. Alguns cientistas políticos chamam-lhe a primeira ditadura privada.

É a estas questões que o dia de ontem pretendeu ser uma resposta e uma chamada de atenção. Pensemos nisto antes de falarmos ao telemóvel e voltemos a tentar viver sem ele daqui a um ano.

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Imagens da Ucrânia: precisamos de mil palavras

Pedro Xavier Mendonça
8:00 Sexta feira, 7 de março de 2014

Nos últimos anos, as "revoluções", em forma tentada ou efetiva, que surgem em imagens nos media apresentam uma coreografia específica que as distinguem de outro tipo de manifestações de rua. Se repararmos com atenção, vemos como na primavera árabe e na recente revolta ucraniana alguns aspetos se repetem nos jornais e nas televisões. Comparativamente, o mesmo sucede em relação a manifestações na Europa, como em Madrid, ou nos EUA, como as do movimento Occupay Wall Street, mas com consequências diferentes.

Estes acontecimentos ocorrem, em geral, numa praça, onde se junta uma massa de gente. Esta mantém-se aí por algum tempo, ao ponto de montar tendas e uma autêntica burocracia de manutenção. Nos casos mais consequentes e violentos, formam-se barricadas e confrontos com as autoridades. Por vezes, a população toma lugares de poder; noutras situações, apenas se mantém na praça como forma de pressão sobre os governos.

Tudo isto surge em imagens que têm uma estética. A da conjugação de pessoas e da sua mobilização para um fim. Como se um corpo único apontasse a um alvo, ainda que feito duma homogeneidade difusa, em perigo de se desfazer. Muita gente num mesmo espaço numa confusão de cabeças e braços no ar, com cartazes amiúde, e estruturas amadoras de proteção e ataque.

A estética da revolução não é uma coisa nova. A iconografia soviética está cheia dela, mas com elementos diferentes destes casos mais recentes. Aí não se trata de peças jornalísticas, mas de propaganda que artisticamente não se preocupa com a verdade dos factos. As imagens de Lenine a apontar com o dedo em frente representam um pouco dessa intenção. A massa de gente que o rodeia segue-o para um futuro.

Não sendo propaganda, as imagens revolucionárias que nos chegam hoje pelos media têm, contudo, uma relação ambígua com a verdade. Mostram como continuamos a precisar das palavras, de mil palavras. Vejamos o caso da Ucrânia. Descontando imagens que se referem a bandeiras de extrema-direita, grande parte daquilo que nos chega corresponde à estética da revolução num grau muito idêntico a qualquer outra das revoltas, como a do Occupay Wall Street. Quando vemos as imagens, deparamo-nos com um voluntarismo tocante, uma coragem trágica e uma cidadania ativa, de baixo para cima, política em todos os sentidos. Pensamos em democracia. Contudo, é só quando chegamos aos textos que começamos a pensar verdadeiramente.

Há uma forte componente de extrema-direita e nacionalismo na revolta ucraniana. Muitos dos grupos que se organizam na praça Maidan possuem valores pouco democráticos ou no mínimo cínicos quanto à democracia que propõem, ainda que tenham todas as razões para se revoltarem e até serem apoiados em alguns termos. O mesmo se pode dizer em relação a grupos radicais islamistas na primavera árabe. E isso não é visível na iconografia revolucionária que nos trazem os media. Só nas crónicas jornalísticas descascamos essa cebola. Por isso, a palavra não morre, ainda que pareça estar em perigo num tempo em que a eletrónica aposta no imediatismo do pixel. Ironicamente, a palavra tem maior peso epistémico do que a imagem, ainda que esta tenha mais força enquanto argumento realista. Saber o que é a revolução ucraniana passa certamente por imagens. Mas não chega ver para crer, é preciso ler ou ouvir.

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O automóvel como centro do mundo

Pedro Xavier Mendonça
8:00 Sexta feira, 28 de fevereiro de 2014

O automóvel é todo um mundo. Não só cria uma cultura e uma economia, como novos códigos de ação e mais aprofundadas esferas ocultas. Passo a explicar.

Cria uma cultura porque surge no centro das cidades. Alarga o espaço urbano para nele melhor caber, como parecia prever o Marquês de Pombal. É ícone do progresso industrial e da liberdade individual, basta ver a América. Mostra diferenças sociais e conquistas pessoais - "o meu carro é melhor do que o teu". Concentra nos seus diferentes tipos e acrescentos um elogio à tecnologia como poder, performance e estilo, como é exemplo a subcultura tuning.

Permite uma economia porque representa um novo modo de crescimento industrial. Ajuda a impulsionar a cadeia de produção, bem como o método científico de gestão, como se vê em Henry Ford. Faz parte de um setor que dinamiza a economia como poucos. Podemos detetar o poder económico de um país em função da sua indústria automóvel (Portugal não tem uma marca digna desse nome). Faz e deixa cair cidades, como Detroit.

Forja códigos de ação porque passamos a usar uma nova linguagem para nos entendermos ao volante. Quem não conhece o código da estrada não acede a este mundo com a mesma eficácia. Além disso, há linguagens informais que também se inventam a par, como o piscar de luzes ou os quatro piscas - ninguém disse que os quatro piscas com o carro parado são vinculativos sob o ponto de vista do código da estrada, mas toda a gente os usa e entende-se assim.

Por fim, desenvolve novas esferas ocultas porque implica complexidade técnica e de conhecimentos. Há uma especialidade: a de mecânico. Comprar ou mandar consertar um carro é um ato de fé para qualquer pessoa que não seja especialista. Um automóvel é verdadeiramente aquilo que a economia chama aos objetos tecnológicos: "caixa negra". Funciona, não sabemos é como. E então estamos sempre a ser enganados, não há nada a fazer. As trocas concorrenciais de peças só fazem os preços baixar caso os envolvidos conheçam bem os objetos em causa. Se os desconhecerem, é um tiro no escuro. É assim com quase todos os automobilistas. Ninguém sabe nada. Temos fé no mecânico, o padre-especialista.

Portugal abraça todas estas dimensões. No mês de janeiro as vendas aumentaram em relação ao ano anterior, mesmo em crise. Faz parte dos nossos hábitos trocar de carro com frequência. Nesse aspeto, ainda somos novos ricos. Construímos auto-estradas numa lógica de favorecimento do género de vida proporcionada por este veículo. E apesar da sua centralidade, grande parte das vezes nem reparamos nisto. Vivemos como se fosse natureza. Como se estivesse por aí desde sempre. Como se não fosse uma escolha. A fenomenologia chama a isto "pano de fundo". A tecnologia coloca-se muitas vezes como algo de que estamos distraídos porque não nos coloca problemas ou não surge de modo patente. Por isso, de repente notamos esse mundo quando o automóvel não pega ou quando nos deparamos com acidentes. Aliás, se compararmos o número de mortes na estrada e aquelas que ocorrem em combate entre militares, percebemos como a capacidade de nos espantarmos ou revoltarmos depende da perspetiva. Morrer na estrada não é só uma tragédia individual, é uma cultura.

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Cuidado, o Facebook conhece o amor!

Pedro Xavier Mendonça
8:00 Sexta feira, 21 de fevereiro de 2014

As tecnologias de informação e comunicação deram-nos um mundo de dados coletivos como nunca antes na história. Este potencial para a recolha e tratamento de informações de grandes conjuntos de pessoas acompanhou as diversas centralizações de Estado, bem como as fórmulas totalitárias do mesmo. Em democracia de economia liberal isso não deixou de acontecer. A diferença é que surge com vários polos de controlo - além do Estado, diversas organizações empresariais e até não empresariais - que competem entre si pelo maior conhecimento possível das massas.

A necessidade de ter acesso a estes dados prende-se com a estratégia de influência que ladeia o estar em espaço concorrencial, quer em termos políticos, quer comerciais. As caracterizações de indivíduos, que os integram em grupos, possibilitam ações de persuasão que conhecem o público a quem se dirigem. Hoje, ter dados é por si só poder ser conduzido a muitas pessoas. E isso é chegar a somas de forças que, se agirem a favor dos interesses de quem comunica, implicam um grande poder político e económico. É trabalhar com desejos. Melhor, vários desejos ao mesmo tempo na mesma direção. Na realidade, a política e a economia são isso também: a mobilização de desejos no sentido da sua identificação, criação ou satisfação. Na circularidade em que vivemos, cada desejo serve para outro desejo. Nenhum se fica onde está ou se deixa apagar para sempre. Não vivemos de petróleo, mas de vontades emocionalmente constituídas. Conhecer o fundo de quem é volitivo é poder operacionalizar energias humanas em seu próprio favor, mas também a bem de quem se encontra assim como ser desejante.

Os exemplos são inúmeros. Desde a NSA até às empresas de telecomunicações, passando pelo Google, muitos são os casos em que aquilo que os indivíduos fazem serve como informação para que entidades estatais e empresariais consigam prever comportamentos e agir em conformidade. Existe inclusivamente um mercado de compra e venda de dados deste tipo. Recentemente, o Facebook tem estudado as mensagens trocadas na sua rede no que às relações amorosas diz respeito. Descobriu algumas coisas que o senso-comum confirma: os relacionamentos tendem a acontecer entre indivíduos com a mesma religião, o homem é frequentemente mais velho, as pessoas encontram apoio na família e amigos depois da relação terminar e aumentam as interações quando as relações iniciam. Encontramos um mapa de previsibilidades nestas informações. É como que um mundo seguro onde nos conhecemos todos e sabemos o que cada um quer ouvir. Os católicos não se metem com muçulmanos, os homens preferem mulheres mais novas e vice-versa, podemos contar com a família e as relações no início são entusiasmadas.

A previsibilidade do mundo é assustadora. Temos a intuição de que a aleatoriedade deveria fazer parte daquilo que entendemos por humano. Isto tem qualquer coisa a ver com a liberdade. É bom o imprevisto, a singularidade, a estranheza, o anormal. Na normalidade encontramo-nos espelhados nos registos coletivos. Aí parecemos autómatos sem autonomia. Daí haver uma imensa humanidade nos casamentos entre pessoas de religiões diferentes, em relações em que as mulheres são mais velhas do que os homens, em finais de relação pacíficos e em amores calmos e serenos na quantidade de likes deitados ao outro.

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"Eles" dizem e nós repetimos

Pedro Xavier Mendonça
8:00 Sexta feira, 14 de fevereiro de 2014

"Eles dizem que amanhã vai chover"; "Eles dizem que a fruta depois da refeição faz mal"; "Eles dizem que o tempo está a mudar"; "Eles dizem que antigamente as pessoas dormiam duas vezes por noite"; "Eles dizem que o nível do mar subiu".

Quantas vezes não ouvimos, lemos ou dizemos frases como estas, que remetem para um "Eles" que sabe qualquer coisa que deste modo parece verdadeira? E quem são estes "Eles" que assim nos convencem? De onde vem esta legitimidade?

Julgo que estas frases resultam de dois fenómenos misturados: peritos e media. Por um lado, "Eles" são os cientistas ou os especialistas numa dada matéria. Por outro, "Eles" são revelados por um legitimador massivo que são os media. Aliás, "Eles" também legitimam os conteúdos dos meios de comunicação. É uma relação de interesse mútuo, mas em que os media parecem ganhar um pouco mais pois alimentam-se da autoridade da ciência para criar efeitos de verosimilhança, sempre mais fortes.

Há uma força de opacidade, autoridade e difusão neste processo. A ciência surge como uma espécie de Deus que tudo explica e que tem no anonimato do plural "Eles" uma referência autoritária. É uma secularização mediática. Se "Eles" dizem, deve ser verdade. Até porque aparece na televisão. Não sabendo bem o que é aquilo de que se fala e sem tempo para o compreender, o espetador acredita no que lhe explicam. Aí passa a palavra para o dia-a-dia, para as "coisas que se dizem", muitas vezes em conversa fiada ou em caracterização apressada de um fenómeno. No elevador a ciência explode sobretudo na meteorologia. Mas também à mesa, nesse caso na qualidade da comida. Estes discursos são particularmente úteis quando alguém quer usar um tom paternalista. Oferecem o autoritarismo opaco e difundido que tão bem faz à formação das opiniões.

Repare-se como este tipo de fenómeno se liga muito à dinâmica do lançamento de notícias, à chamada agenda setting, a forma como os media nos vão dizendo o que é importante através de uma seleção de conteúdos. Quando as notícias afirmam que o leite faz mal, surpreendemo-nos (porque sempre nos disseram o contrário) e comentamos isso com quem nos rodeia, dizendo que "Eles" disseram, e, portanto, deve ser mesmo assim. O "Eles" serve como base de argumento.

Se pensarmos que muitas notícias são "plantadas" nos media (quando não há ética) a partir de agências de comunicação que têm contratos com clientes empresariais, podemos imaginar como por vezes o confronto de notícias sobre a qualidade do leite, o efeito dos telemóveis no cérebro ou os transgénicos age como uma guerra sobre a opinião coletiva que acredita efetivamente no que lhe dizem, embora amiúde fique confusa. A audiência é uma arena de formação de crenças que depois têm efeitos no consumo e no comportamento em geral. Por isso, também somos o que fazem de nós e isso faz vitórias em comunicação.

Autor e blogue

Pedro Xavier Mendonça, investigador académico em estudos sociais de tecnologia e de comunicação, docente no ISCEM-EFAP Portugal, procura com este espaço trazer reflexões das pesquisas sobre tecnologia e sociedade. Porque a tecnologia é uma realidade social e tem implicações humanas, pretende-se pensá-la a partir destas duas vertentes. O objetivo é estimular o pensamento sobre este fenómeno evitando os quadros mentais que o fecham no mundo da técnica. pedro.mendonca@iscem.pt

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