Siga-nos

Perfil

Expresso

Vídeo

Marcelo, 19 anos, perdeu a avó e a irmã no fogo: “Não vamos voltar a ter uma vida normal, nunca mais”

No dia em que passam quatro meses sobre as mortes de Pedrógão, há novos mortos por chorar. O país vestiu-se de luto, o território cobriu-se de cinzas e não há chuva que lave a revolta de quem ficou. Pela primeira vez, Marcelo Nunes, de Nodeirinho, conta como viu morrer a avó e a irmã de três anos. Partilha a dor por nunca ter tido ajuda e a raiva por não existir um plano de evacuação

No meio do caminho de Marcelo estão dois corpos. Dois corpos que nunca vão sair do caminho de Marcelo. Aos 19 anos viu morrer a avó, amiga, e a irmã, quase filha. Dois corpos, expostos durante mais de 24 horas horas na estrada perto de casa. Estão dois corpos há exatamente quatro meses no caminho de Marcelo.

Marcelo sobreviveu. Gina, a mãe, sobreviveu. A casa está incólume. Parece uma casa normal, há fotos, bonecas, duas bolas. Mas já não há Bianca, três anos, a mais jovem vítima da tragédia de Pedrógão Grande. Não há Maria Odete, a avó que ficou presa com a neta no carro da fuga do incêndio que matou outras 63 pessoas. E haverá Marcelo? Haverá Gina? Haverá Aníbal, o pai, que todos os dias ainda dá bom dia e boa noite à filha que morreu?

Os brinquedos estão como a criança os deixou a 17 de junho. A casa, muito arrumada, confronta o visitante com a ausência de Bianca e de Odete. Mas expõe Marcelo, o irmão quase pai, que ficou para denunciar os erros, as dores, a saudade e o silêncio de uma casa esvaziada de passado e de futuro. Num longo depoimento ao Expresso, no âmbito de um trabalho a ser divulgado em dezembro, o jovem de 19 anos explica, passo a passo, o caminho da morte. E aponta o dedo a quem falhou, com uma lucidez assustadora. Um depoimento recolhido apenas dois dias antes de mais uma tragédia atravessar o país e matar mais 37 pessoas com a arma do fogo. “Não vamos voltar a ter uma vida normal”, assegura Marcelo.

“As pessoas morreram porque entraram em pânico”, diz o rapaz que viu a irmã morrer no banco de trás do automóvel em que a família tentava fugir do incêndio. alguém que continua surpreso com o que aconteceu: “Não é normal perder uma criança de três anos desta forma.” Mas, dois dias depois, em Tábua, foi a vez de morrer um bebé de menos de dois meses. De morrer uma grávida na A 25. E outros idosos em vários pontos do país. Deficientes auditivos, pessoas fragilizadas. Filhos, irmãos, pais e mães. Morrem pessoas, famílias. Morre quem vai e morre quem fica. E foi por ter ficado que Marcelo falou ao Expresso. Pela primeira vez, aceitou contar o que viu e o que ninguém queria ter de ver.