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O drone que viu de perto a tristeza de todo um povo

Pela lente de um drone ou nos olhos de quem viu a tragédia bater-lhe à porta. O Expresso esteve na ilha do Fogo, em Cabo Verde, e testemunhou a destruição provocada pelo erupção que dura há mais de um mês. E dá-lhe imagens inéditas da zona atingida pela fúria do vulcão.

 Haverá poucas pessoas, ou situações, que nos desarmem logo na primeira frase. Encontramo-lo a pedir boleia na estrada e ele cumprimenta-nos mal acaba de subir para a caixa aberta da carrinha 4x4, no interior da qual percorremos um terreno rochoso e acidentado que nos faz temer pelo próximo solavanco e nos leva a agarrar com toda a força possível a tudo quanto podemos. "Bom dia. Há muita tristeza por aqui...". Talvez nem precisasse de o dizer, porque o rosto, ainda que possa não dizer tudo, já dizia muito.

A conversa segue num misto de crioulo e português arranhado, do qual se vão tirando algumas ideias aqui e ali. O próprio nome não é fácil de perceber, e o que conseguimos entender parece estranho, ou pouco verosímil. Saberíamos mais tarde nesse dia, porque o encontraríamos por acidente à porta de um centro de acolhimento para desalojados, que sim, que de facto o tratam por "Link" (assim mesmo, com "k", como os links que usamos todos os dias na Internet.) À medida que conversamos, agarra-se a uma das três malas pretas que seguem na caixa da carrinha, ao mesmo tempo que vai deitando uma mão ao boné que tem na cabeça para não desaparecer com o vento.

Link tem 42 anos, e vivia na localidade da Portela. Numa das únicas 5 casas que aparentemente ainda não foram consumidas pela fúria do vulcão. Mas não pode regressar porque todos os acessos estão cortados por um enorme manto preto de lava já solidificada, uma parede que chega a ter três a quatro metros de altura. Sem que o saiba, a bordo da carrinha à qual acabou por pedir boleia vai o único meio que, nas últimas semanas, permitiu ver de perto a sua casa.

 

A poucos metros da destruição 

Uma das malas é retirada das traseiras da carrinha todo-o-terreno, que pertence à Proteção Civil cabo-verdiana. Mal é colocada no chão e aberta avistamos um conjunto de peças no interior que logo identificamos como fazendo parte de um pequeno avião. João Mestrinho, o operador, vai montando as peças uma a uma, enquanto Ricardo Mendes, um dos responsáveis pelo projecto e administrador da TEKEVER, coloca ali perto um tripé com um outro dispositivo de forma quadrada. O pequeno avião (com 1,80 metros de envergadura e 1,40 metros de comprimento) pode demorar menos de 1 minuto a montar, e à primeira vista quase que poderia parecer um daqueles aparelhos de aeromodelismo. Mas, na verdade, está muito longe de o ser.

O AR4 Light Ray é um drone ultra-sofisticado desenvolvido pela TEKEVER, uma multinacional portuguesa que começou pelo software, mas que rapidamente se expandiu para outras áreas. O aparelho - que pode transportar vários tipos de câmaras para captar imagens do solo - já foi utilizado, por exemplo, em missões no Kosovo, no âmbito de uma parceria com o exército português; no patrulhamento de segurança na final da Liga dos Campeões em Lisboa, ou mesmo em missões de combate ao narcotráfico na Colômbia. Mas nunca tinha estado num cenário tão extremo e que apresente tantos riscos operacionais como a cratera de um vulcão em plena erupção. A TEKEVER contatou as autoridades cabo-verdianas, e em pouco de mais de uma semana já estava no terreno.

Num pequeno portátil junto à carrinha 4x4, João Mestrinho vai programando a missão no computador através de um software desenvolvido pela empresa. Com um mapa da zona do vulcão, marca vários pontos que pretende que o aparelho sobrevoe, e indica a altitude a que deve voar em cada um deles. É que aqui não há comandos como em outros drones: tudo é controlado por computador, que está ligado através de um cabo a um "Data Link" - o tal aparelho posicionado num tripé que Ricardo montava minutos antes. Este está equipado com um rádio de telemetria que permite enviar instruções para o avião, e com um equipamento que permite receber dados em tempo real, como as imagens de vídeo que são feitas pela câmara que o aparelho leva na zona do nariz. No limite, o drone pode ter um raio de ação de 20 quilómetros e pode voar de noite, ou seja, não é necessária visibilidade direta para ser operado. A bateria tem autonomia para duas horas.

O avião - que conta com um motor e uma hélice - é lançado à mão, após uma pequena corrida. Mal está no ar, a caminho do vulcão, os dois elementos da TEKEVER e Jair Rodrigues, o presidente do Laboratório de Engenharia Civil (a entidade cabo-verdiana que os acompanha no terreno) correm para o pequeno portátil para ver no mapa como decorre a missão. "A Protecção Civil pediu-nos para observar toda esta área de corrente de lava", explica Ricardo Mendes, apontando para a zona correspondente no monitor do computador. O aparelho sobe até aos 700 metros, e depois desce, chegando a estar a apenas 80 do campo de lava. As imagens vão sendo transmitidas em direto para a "ground station", e a dada altura começamos a observar vários pontos brancos rodeados por um manto preto, e outros, poucos, que escaparam. São as casas de Portela e Bangaeira, localidades que foram arrasadas pela lava, e deixaram 1200 pessoas sem casa, a ter de recorrer a centros de acolhimento provisórios espalhados pela ilha. Uma delas ali em baixo é a de Link.

"Nunca tinhamos conseguido fazer imagens de tão perto"

No momento em que lhe demos boleia tinha vindo de dar ajuda a uns amigos em Ilhéu de Losna. Grupos de dois e três homens cavam apressadamente buracos na terra árida. Puxam o que parecem ser enormes raízes com ambas as mãos. É mandioca. Joel apressa-se a arrancar desesperadamente toda a que pode, numa altura em que a lava já cerca a casa, e aproxima-se do terreno cultivado. "Não há nada a fazer. O única alternativa é salvar o que podemos".

Dentro daquele muro colossal que avança na nossa direção estão temperaturas que chegam aos 700º C. À medida que nos aproximamos, o som do crepitar da lava ardente torna-se cada vez mais presente. A três ou quatro metros da frente o calor começa já a tornar-se insuportável. Olhando para o horizonte não conseguimos bem perceber toda a extensão do manto. Foi aí que o drone português fez a diferença.

"Nunca tínhamos conseguido fazer imagens como estas, de tão perto", confessa Jair Rodrigues, presidente do Laboratório de Engenharia Civil, e um dos coordenadores de todo o dispositivo de Protecção Civil montado para responder à erupção na ilha do Fogo. "Tentámos voar com um helicóptero e com uma aeronave militar, mas não foi possível.  Tínhamos imagens de satélite para monitorizar o avanço da lava no terreno, mas uma imagem de perto e em tempo real não existia até agora".

Para além de imagens em alta definição do campo de lava, o avião está ainda equipado com uma câmara térmica que permitiu fornecer à Protecção Civil cabo-verdiana dados a que nunca antes tivera acesso. A câmara pode identificar zonas onde a temperatura está mais elevada. "Isso é importante - explica Ricardo Mendes, da TEKEVER - porque embora pareça que uma certa zona está solidificada, muitas vezes a lava está a correr por baixo da superfície em túneis não visíveis a olho nu. Desta forma as autoridades podem ter uma noção mais exacta do caminho que a corrente está a seguir".

 

 

E as imagens captadas pela tecnologia portuguesa permitem tranquilizar, para já, a Protecção Civil. A corrente está ainda longe de Fernão Gomes, o ponto critico da ilha a partir do qual uma encosta em forte declive permitiria uma progressão vertiginosa, que iria arrasar mais duas povoações. Mas ainda não é sinal para descansar. A última grande erupção, em 1995, durou 56 dias. Esta vai ainda pela metade. Os dados agora recolhidas pelo drone português vão ajudar as autoridades a fazer um melhor planeamento da resposta futura.

A carrinha para em Achada Furna, onde está instalado um dos centros de acolhimento para desalojados. É aqui que termina a boleia do nosso companheiro de viagem. Link salta da caixa e despede-se com um tirar de boné e um aperto de mão. Continuará pelo centro enquanto não conseguir regressar a casa. E sem saber o que o vulcão da ilha, que continua em erupção, lhe poderá ainda reservar no futuro.