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Portugueses estão a mudar a dieta. Para pior

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Pão, batatas, leite, porco e vinho estão no topo das preferências das famílias. Nutricionistas afirmam que as refeições têm muitas calorias e apelam para que fruta, hortícolas e leguminosas estejam mais à mesa. Começamos com um pedido: veja com cuidado a infografia (que é surpreendente, garantimos) que abre o artigo, na qual pode observar detalhadamente quantos quilogramas de cada alimento é que os portugueses mais consumiram em 2014 (ano mais recente dos dados disponíveis)

Vera Lúcia Arreigoso

Vera Lúcia Arreigoso

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Jornalista

Jaime Figueiredo

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Entre os portugueses há a convicção de que têm bons hábitos alimentares — a dieta mediterrânica até é Património Imaterial da Humanidade, declarado pela UNESCO —, mas esta ideia é cada vez mais uma ilusão. Quando vão às compras, é o pão, as batatas e o leite que mais levam para casa, seguidos pela carne de porco e o vinho. Fruta, legumes, grão e feijão, por exemplo, tendem a ficar mais vezes na prateleira, isto é, fora do prato.

A identificação pormenorizada do que comem as famílias em Portugal está a decorrer, com a realização do segundo Inquérito Nacional Alimentar, mas a informação sobre os alimentos mais disponíveis para consumo (ver infografia) já identifica as tendências. “Permite, de forma indireta, inferir sobre o possível comportamento alimentar das populações” e, até agora, “são indicativos de que os portugueses podem estar a alimentar-se desadequadamente”, explica Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas.

Os dados mais recentes, da Balança Alimentar de 2012 e do Instituto Nacional de Estatística para 2014, mostram um “elevado consumo de alimentos pertencentes ao grupo da carne, pescado e ovos e ao grupo das gorduras”, diz Alexandra Bento. Menos evidente mas também acima do que está definido na Roda dos Alimentos para Portugal está “o consumo nos grupos dos cereais, derivados e tubérculos e dos produtos lácteos”. Ao invés, é insuficiente a ingestão “de alimentos pertencentes ao grupo da fruta, dos produtos hortícolas e das leguminosas”.
A opção reduzida por pratos com feijão, grão, ervilhas ou favas é incompreensível para a maioria dos nutricionistas e médicos. “Como é possível, num país com excelentes leguminosas, baratas, nutricionalmente densas e portanto ricas em vitaminas e minerais, serem preteridas por alimentos ricos em gordura, mais caros e ambientalmente mais agressivos?”, questiona António Pedro Graça, diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável.

As razões que levam os portugueses a optar sobretudo pela carne variam muito. No entanto, António Pedro Graça garante que “a insuficiente educação para a saúde, a falta de tempo e a economia familiar podem explicar muita coisa”. O professor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto alerta ainda para perigos que a lista de alimentos disponíveis não mostra: “Não está lá, mas sabemos que os portugueses mais pobres tendem a alimentar-se pior, o que é duplamente mau.” E “também não é visível na lista o grande drama da nossa alimentação: o sal e o açúcar adicionado”.

A crescente informação sobre os malefícios de uma dieta pouco saudável — a OMS classificou o consumo diário de carne vermelha como um fator de risco de cancro — tem permitido algumas mudanças positivas, embora residuais. “O consumo de alimentos do grupo da carne, pescado e ovos continua elevado, mas teve um decréscimo especialmente em 2012 e o de hortícolas está a aumentar”, salienta a bastonária dos Nutricionistas, que, ainda assim, lamenta a “ligeira diminuição ao longo dos anos no caso da fruta”.

Com a dieta mediterrânica reduzida cada vez mais a um mero cliché, a saúde dos portugueses está também menos duradoura. O cancro do cólon, que os oncologistas relacionam diretamente com os maus hábitos alimentares, aumenta a passos largos, ultrapassando já os tumores malignos do pulmão e do estômago, assim como a hipertensão, a diabetes ou, mais óbvia, a obesidade. “Cada português tem disponível energia suficiente para satisfazer as necessidades de 1,6 a dois adultos”, contabiliza Alexandra Bento. Por outras palavras, cada português come quase o dobro do que precisa.

Conceição Calhau, investigadora do Departamento de Bioquímica do Centro de Investigação Médica da Faculdade de Medicina do Porto, admite que “os profissionais de saúde não têm comunicado de forma eficaz”. A reduzida preferência pela fruta é um dos sinais dessa falta de eco. “Toda a comunicação é feita sobre a necessidade de consumir hortofrutícolas e isto parece não estar de modo algum refletido na balança de disponibilidades, que é também um reflexo do que o consumidor mais quer consumir.” Na sua opinião, “a mudança a existir tem de ser política, com legislação”.

Como é que se passou de uma dieta de excelência para uma alimentação desajustada? “Muitos anos de desprezo pelas questões da alimentação por parte da Saúde em Portugal, que agora está a mudar pela presença de profissionais e pela pressão pública”, responde António Pedro Graça. E dá um exemplo da falta de atenção: “O segundo inquérito está a andar, mas o último datava quase ‘criminosamente’ de 1980.”

Como se faz uma infografia (P.S. 1: demorou 5 dias a fazer) (P.S.2: isto não é Photoshop)

Os cubos que vê na imagem não foram feitos com recurso a Photoshop. Todos os alimentos utilizados foram comprados frescos e preparados. Com três centímetros exatos, cada pedaço de comida foi rigorosamente cortado e depois fotografado para produzir o efeito obtido na infografia. O peixe e a carne foram congelados previamente para adquirem a consistência necessária, para serem cortados em cubo. No caso das massas e das leguminosas, por exemplo, o processo foi ainda mais criativo: cada peça ou grão foi colocado dentro de um aro metálico e unido em camadas com recurso a silicone. O processo foi lento e exigiu muita paciência. Foram precisos cinco dias para fotografar a comida com o aspeto delicado e delicioso que vê na imagem

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