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Chef Tiger. Nós comemos sonhos

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O chef Tiger dedica a receita deste Natal aos refugiados. São os seus melhores sonhos

Natal só é quando um homem quer ou quando um homem pode. Neste dezembro, há mais quase um milhão de refugiados na Europa do que no anterior, provenientes sobretudo da Síria, do Afeganistão e do Iraque. Não partiram à procura de oportunidades, mas de refúgio. Talvez a diferença em relação à emigração seja também essa: não se persegue um sonho bonito, foge-se de um pesadelo tenebroso. Foge-se da guerra. Foge-se do horror. Correndo o risco de morte no início do caminho. Correndo pela possibilidade de vida no seu fim.

O Chef Tiger quis dedicar a sua receita de Natal deste ano a esses que nos são desconhecidos mas podem deixar de nos serem estranhos: os refugiados. Mas nem é só uma dedicatória para eles, é uma recordatória para nós. Porque a sua inclusão de nós depende. De a querermos e a sabermos fazer. De rejeitarmos a sua rejeição. Essa aceitação ou rejeição é social. Mas é também política. Se as ações individuais podem acolher, são as decisões coletivas que resolvem ou dissolvem o que, para todos os efeitos, será um choque para as populações que recebem se não existir quadro institucional adequado.

Os muçulmanos não celebram o Natal. No Islão, Jesus é um profeta (não é filho de Deus), sendo o milagre do seu nascimento reconhecido, mas não tem a centralidade que lhe é dada no Cristianismo. Além do credo, há a diferença de costumes: os hábitos consumistas do ocidente, que cristalizam na época natalícia, chocam frontalmente com a cultura dos muçulmanos. Esta dedicatória do Chefe Tiger não é pois uma imposição cultural nem uma suposição religiosa. É também uma forma de mostrar acolhimento. Afinal, o credo da União Europeia é “Unidos na Diversidade”. Os povos estão dispostos a trabalhar juntos pela paz e pela prosperidade, respeitando as diferentes culturas, tradições, línguas. Entre nós, europeus. Mas a paz é um conceito universal ou não é. E a prosperidade é um equilíbrio ou é desigualdade.

Mais de 3.500 migrantes perderam a vida no Mediterrâneo, sobretudo nas perigosas rotas entre a Líbia e Itália, e entre a Turquia e a Grécia. Mas só quando estes países tiraram o tampão, por incapacidade de acolhimento perante a enchente incontrolável em Lampedusa ou em Lesvos, é que a Europa assumiu que o problema era continental. Ocidental. Ao longo do ano, vimos imagens tenebrosas, barcaças apinhadas largando cadáveres no Mediterrâneo, mortes em camiões frigoríficos na Áustria, muros erguidos na Hungria, fecho de fronteiras com a Sérvia, o corpo de um rapazinho sírio, Aylan Kurdi, acostando numa praia turca, a ligação medrosa entre refugiados e terroristas, o crescimento do nacionalismo, em França como na Polónia. Mas vimos também a abertura da Alemanha (e da Áustria), as primeiras recolocações, esforços de coordenação europeia, ação das Nações Unidas, com a voz permanente do Alto Comissário António Guterres.

Ovos, farinha, leite e açúcar é o que basta para fazermos os sonhos para o nosso ritual celebratório nas ceias de Natal. Nós comemos sonhos. O exército de excluídos, dos milhares de pobres em Portugal, dos sem-abrigo, dos desesperançados, dos famintos, dos sozinhos, dos doentes, dos inválidos, dos desvalidos não se bastam com simpatia e dispensam usurpações de dor ocasionais por quem felizmente não a sente, ou que uma vez por ano se acenda uma vela para aquietar as almas dos prósperos ou remediados. Mas precisam de não cair no esquecimento, no alheamento, na segregação das consciências. Porque uma ação pode salvar uma vida e a força coletiva de uma sociedade define a pressão sobre quem decide. As instituições. Os governos. Os representantes dos representados, por quem tem e por quem não tem representação. Como os refugiados. Feliz Natal. E que os bons sonhos sejam de todos, para todos.

Links de instituições de apoio a refugiados

- Plataforma de Apoio aos Refugiados

- Aylan Kurdi caravan

- Grupo de Trabalho para a Agenda Europeia da Migração

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