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Eu nesta ardósia me confesso

Saímos à rua com uma ardósia e giz na mão e pedimos a algumas pessoas com que nos cruzámos que escrevessem qual o dever principal que têm por cumprir. As respostas são surpreendentes. (Veja mais na Revista Única do Expresso desta semana)

Bernardo Mendonça (texto) e Nuno Botelho (fotografias)

"Devo dizer à minha que a amo"

"Falo ao telefone com a minha mãe (Albertina Silva) todos os dias, sobre todos os assuntos, mas nunca lhe digo o quanto a amo. É-me muito difícil. Cresci numa família humilde, sem muitos afectos ou carinho. Só nos últimos anos, a minha mãe começou a tratar-me por 'filhota'. Essa palavra é estranha para os meus ouvidos. Gostaria muito de lhe escrever uma carta de amor de filha para mãe, mas ela não sabe ler. Teria de alguém a ler para ela. Talvez depois deste depoimento arranje coragem para lho dizer este Natal."

"Devia estudar mais!"

"Não ando a dar muita atenção à escola. Ando dispersa, distraída, preguiçosa, sem vontade de fazer os trabalhos que os professores me pedem. Devia esforçar-me mais. É um dever que eu tenho para comigo e para com os meus pais. Ainda estou no 1.º ano do curso e tenho de dar mais de mim para o acabar. Faço planos para cumprir este meu dever nos próximos anos."

"Trabalhar por conta própria"

"Não me sinto bem a trabalhar para bancos. Moralmente, não lido bem com isso. Nem me dá um especial prazer ou realização profissional. Tenho o dever de procurar ser feliz e de passar a fazer o que gosto por conta própria. Serei uma melhor pessoa se concretizar este meu desejo. Por isso, quero mudar de ramo e começar uma carreira como produtor de eventos."

"Procurar emprego"

"Já vesti o hábito de vários empregos. Fui pasteleiro, cozinheiro, segurança, motorista. Gostaria de encontrar um emprego permanente e melhor remunerado. É um dever que tenho para comigo. Devo lutar por isso. Imagino-me a trabalhar numa cozinha, a fazer doces e salgados. É esse o meu desejo. Mas com a minha idade parece-me uma meta difícil de alcançar. Vou morrer a tentar."

"Devia escrever + vezes no livro de reclamações"

"Nós, portugueses, refilamos muito, esperneamos demasiado, somos muito tagarelas, mas quando toca a agir, a escrever num livro de reclamações os nossos direitos e indignações recuamos. Por inércia, preguiça, medo, desleixo, ignorância. Eu, por vezes, padeço desse mal. Apesar de ser muito refilona e crítica, devia escrever mais vezes nesse livro para que as situações lamentáveis que tenho vivido não se repitam."

"Devia ajudar mais quem necessita"

"Nunca é de mais ajudar. Apesar de ter muito pouco, posso sempre partilhar mais com quem realmente precisa. Como escreveu Máximo Gorki, às vezes as pessoas dão um pedaço de pão como se dessem uma nota de mil e, acabando de o dar, imaginam que têm as portas abertas do paraíso. A palavra 'solidariedade' deve ser muito mais do que a caridadezinha do Natal, deve praticar-se todos os dias."

"Estar mais atenta aos outros"

"Andamos demasiado ocupados com a nossa vida pessoal que nos falta espaço interior para sairmos de nós mesmos e olharmos em redor. Para vermos o que se passa com as pessoas com quem nos relacionamos. Percebermos o que pensam, o que sentem, o que dizem... Pessoalmente, gostaria de andar mais atenta ao que está fora de mim. Deveríamos sair mais dos nossos próprios preconceitos."

"Devia passar mais tempo com a minha filha"

"Passo os dias com o coração crispado. Despeço-me da minha filha às 11h e só volto a vê-la às 22h30, para a pôr na cama. Isto é muito duro para uma mãe. A Maria Leonor tem apenas 2 anos e, muitas vezes, é à ama que chama 'mãe'. Eu percebo. Foi ela que descobriu os seus primeiros dentes, foi com ela que disse as primeiras palavras, é ela que a está a ver crescer."

"Devia fazer mais reciclagem"

"Não me sinto bem em dizê-lo, mas é verdade. Não separo o lixo que produzo. Apenas coloco o vidro no vidrão. Não é fácil corrigir esta falha. Os ecopontos estão muito longe do local onde moro, e é preciso uma boa organização e gestão caseira para separar diariamente o lixo em vários caixotes. Algo que ainda não me habituei a fazer, mas que faço planos para mudar."

"Devia votar mais!"

"Fui viver para Londres há dez anos. Desde então, nunca mais votei no meu país. Gostaria de ter um papel mais activo como cidadã. É um dever cívico que eu tenho. Durante muitos anos lutámos contra uma ditadura, finalmente conquistámos o direito de votar e muitas vezes não o usamos. Isso é demitirmo-nos de um importante dever cívico."

"Devia economizar mais recursos naturais"

"Tal como a maioria dos cidadãos, devia andar mais a pé e menos de carro. Ou, em alternativa, andar de transportes públicos. Devia também poupar mais água, luz e gás. Devia reciclar mais. É o bê-á-bá que todos sabem, mas que poucos praticam. O problema é que uma pessoa habitua-se a determinadas rotinas e é difícil alterá-las. Então agora que tenho o meu filho David, de 6 meses, produzo muito mais lixo que não separo, como é o caso das fraldas descartáveis."

"Devia adoptar um gato"

"Nem me passa pela cabeça comprar um cão ou um gato. No nosso país, há demasiados animais domésticos abandonados, jogados à sorte na rua ou nos gatis e canis municipais. Como gosto muito de animais, apesar de já ter dois gatos em casa, acho que tenho condições para adoptar mais um. É um dever que eu quero cumprir. Será menos um animal abatido e um novo companheiro na minha vida."

"Mais intervenção cívica"

"Não sou tão opinativo e interventivo como gostaria perante a realidade que me circunda. Falo de política? Talvez. Tudo é política. Deveria olhar mais para além do meu pequeno mundo e do modo como o entendo. Ter uma consciência política e social séria leva sempre a uma maior intervenção cívica. Sou particularmente sensível às questões ligadas à ecologia. Há tanto caminho a percorrer, tantos deveres por cumprir..."

"Devia dar sangue"

"Este é um pequeno gesto que pode salvar a vida de alguém. Sou dadora universal (o meu tipo de sangue é O Rh-), portanto deveria dar mais sangue. Só o fiz uma vez, há muitos anos, quando ainda era estudante no Instituto Superior Técnico. Todas as pessoas com condições para serem dadoras deveriam fazê-lo. Estarão a dar vida, um bem precioso que escasseia, especialmente nesta época do Natal."

"Devia para o carro nas passadeiras"

"Espero que não me tirem a carta com esta afirmação! Misericórdia! Conduzo desde os 19 anos, mas como sou muito preguiçosa só paro o carro nas passadeiras quando vejo que o peão está mesmo, mesmo a meio da via. Sei que isto é errado e arriscado. Vou mudar a minha atitude. Tenho esse dever. Para não ficar impedida de conduzir e para evitar um acidente. Não acreditam?"

"Devia comunicar mais com as pessoas"

"Deveria ser mais comunicativo, provocador, expressivo, irónico, cómico, criativo, subversivo. Quero provocar emoções nas pessoas. Seja um sorriso, um riso, uma gargalhada, um piscar de olhos, um grito, um silêncio, um esgar de espanto, uma mão que estende uma moeda."

Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Dezembro de 2008