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Lourenço Mutarelli: O anti-herói com asas (vídeo)

É escritor, autor de banda desenhada, actor e argumentista. O seu último livro, "A Arte de Produzir Efeito sem Causa", já está à venda em Portugal. Brasileiro Lourenço Mutarelli esteve à conversa com o Expresso.

Mariana Pinto (www.expresso.pt)

Quando era criança, Lourenço Mutarelli jurava que um dia havia de conseguir vencer a gravidade e voar. Não por sede de grande alturas e protagonismo. Longe disso. Se uma personificação do anti-herói é possível, Mutarelli cabe nela na perfeição: dono de uma carreira capaz de encher ribaltas - é um dos mais reconhecidos autores de quadrinhos (banda desenhada) brasileiros, é escritor, actor e autor -, mas vontade expressa de ficar longe dos holofotes. "Não que seja tímido", mas há uma vontade de quase invisibilidade que não é difícil de perceber em Mutarelli.

O artista brasileiro iniciou a carreira como "ilustrador e desenhista". "Depois, o texto veio invadindo os trabalhos" e conquistando espaço. Todo o espaço. Há cinco anos deixou de desenhar para publicação (há, no entanto, um projecto que envolve desenho na calha: "Estou agora começando um outro trabalho, uma história ilustrada que usa pintura e texto") e passou apenas a escrever. Porquê o afastamento do desenho? "Às vezes, o desenho incomoda-me, porque há uma imagem imediata ligada ao trabalho e à pessoa. A literatura não é tão evidente, você tem que ir entrando no texto", responde. Mas Mutarelli não deixou de desenhar. Junto com o maço de tabaco que nunca larga - Lourenço é um fumador compulsivo -, traz os seus cadernos de anotações, que enche com desenhos, recortes, frases: "Dantes tudo o que fazia era para ser publicado, tinha que obedecer a determinados padrões, ter técnica. Agora tenho desenhado muito para mim."

Actualmente, o brasileiro de São Paulo faz também cinema, mas é ainda como escritor que prefere definir-se: "Actualmente me revejo mais como escritor, é onde eu consigo ir mais fundo", explica.

Quando começou a desenhar, usava a sua arte como forma de expressão pessoal e uma quase-fuga camuflada: os seus primeiros trabalhos, com a expressividade do preto-e-branco (nanquim versus papel), amplificam o sofrimento dos seus personagens (do próprio autor), num humor negro refinado, uma espécie de banda-desenhada underground que o consagrou definitivamente. Os desenhos deixamos agora de os ver, mas os seus livros continuam a ser (a ter) partes dele lá dentro: no último - "A Arte de Produzir Efeito sem Causa", vencedor do 3º lugar do prémio Portugal Telecom 2009 -, o protagonista nasceu a 18 de Abril de 1964, como Lourenço, é influenciado por Kafka, como Lourenço.

Foram nove livros de banda desenhada até Lourenço chegar à literatura. Em 2002 surge "O Cheiro do Ralo", o primeiro romance. Depois chegam "O Natimorto", "Jesus Kid", "Miguel e os Demónios". Pelo meio vêm as adaptações das suas obras ao cinema, vêm convites para participar nos filmes como actor (no "O Cheiro do Ralo" faz uma pequena participação, em "O Natimorto" faz o papel principal).

O bloqueio criativo

Em 2007, o mediatismo do escritor já era grande (muito por causa do trabalho como actor, acredita Mutarelli) e surge o convite para participar no projecto Amores Expressos - 16 autores viajaram para 16 cidades do mundo, onde moraram durante um mês, e, no regresso, tiveram que escrever uma história de amor passada nessa cidade. Mutarelli viajou para Nova Iorque. Viveu nos EUA por um mês, o homem que confessa ter um "problema com línguas" ("Eu entendo o que o outros falam, mas ninguém me entende", exagera). Mutarelli dá nota máxima ao projecto - "É muito estimulante, uma ideia inspiradora" - mas admite que foi um dos piores momentos que viveu enquanto artista: "Calhou de me pegar num momento onde estava vivendo meu primeiro bloqueio criativo", conta, e, por isso, esse é um assunto "que ainda não está resolvido". A compilação de histórias deve sair em 2011.

Quando perguntamos qual é a melhor parte de Lourenço Mutarelli, o autor não tem dúvidas: "O melhor é a pessoa, mais do que o artista". E explica: "O artista quando está a trabalhar se depara com coisas que não controla - uma agressividade e uma arrogância -, eu não me orgulho disso".

Queremos conhecer mais "Lourenço Mutarelli, o cidadão'. Surpresa: o que 'Mutarelli, o consumidor' gosta mais não é nenhuma das suas artes. "Música", responde sem pensar um segundo, "costumo dizer que música é a minha religião". "Concreta, erudito-contemporânea", diz, quanto ao seu estilo preferido, o escritor que busca no som a inspiração para o seu trabalho. Não escreve ao mesmo tempo que ouve, mas ouve para poder escrever. É uma espécie de inspiração que não pode faltar. O que não pode mesmo faltar é um maço de tabaco, café, um livro e um bloco. Internet? É praticamente alérgico. O computador usa-o apenas para escrever e jogar paciência.

Um dia - no tempo em que a religião era coisa para lhe passar completamente ao lado -, Mutarelli disse que já havia escolhido a frase que devia constar no seu túmulo: "Eu vou, mas eu volto...". "Falei essa frase porque eu era muito céptico, hoje em dia eu não sou mais", explica o brasileiro, e acrescenta sorrindo: "Foi também para ameaçar algumas pessoas que pensam que se vão ver livres de mim".

Viajar não é preciso

Veio a Portugal - o único país para onde gosta verdadeiramente de viajar, onde volta "sempre que for chamado ou que bater a saudade" - para participar na 5ª edição do LeV - Literatura em Viagem, mas confessa que não é propriamente um amante feroz de viagens. "O que me incomoda muito é a distância [de casa], o tempo que se passa no aeroporto e depois no avião, acho muito cansativo". A propósito de aeroportos, Lourenço Mutarelli escreveu no seu blog: "Aeroporto é um inferno. Não, é pior do que isso, porque pelo menos no inferno se pode fumar".

A admiração por Portugal vale um elogio ao país: "Aqui existe um olhar mais maduro sobre a banda desenhada do que no Brasil", acredita, não deixando de referir a existência de um "descuido com alguns autores [portugueses] que são muito bons e não têm muito espaço".

Lourenço Mutarelli trabalha em casa, rodeado pelos seus cinco gatos - Doutor, Doutora, Mentira, Gepreta e Mia - e isso é um enorme privilégio para ele (Lourenço escreveu no seu blogue, no regresso a casa, após um mês de ausência: "Aqui eu amo a minha solidão e o silêncio é muitas vezes o meu idioma. Onde fermento palavras. Aqui eu posso calar em português, minha língua"). O sorriso abre quando lhe perguntamos pelos gatos. Diz que tem saudades deles, que sabe que um deles vai estar amuado pela sua ausência quando regressar a São Paulo, que ninguém teria paciência para ficar do lado dele todo o dia, como os gatos fazem. A relação dos escritores com os felinos? "É curioso, né?", diz, pensativo. "O cachorro interfere demais, os gatos são muito silenciosos. Acho que é esse silêncio e essa paciência que são tão bons para o escritor."

O tempo voou. Dizemos que não temos mais perguntas - a tempo devido fomos avisados de que Mutarelli tinha ainda mais duas entrevistas para dar e por isso optamos pela versão reduzida do questionário -, mas o brasileiro não demonstra pressa. Autografa o livro com dedicatória, demora-se ainda a contar as travessuras dos seus cinco gatos (Sabe, não há um dia que não me surpreenda com eles!"). Só uma coisa parece apressar Mutarelli: "Pronto, então agora vou fumar um cigarro, né?".