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Avós e netos lutarão por um lugar no 'top 10' em 2050

Se por estes dias é raro vermos gerações distintas a 'confrontarem-se' através de uma consola, no futuro tudo será bem diferente. Quem o diz é Ernest Adams, um dos maiores especialistas mundiais em videojogos.

Carlos Abreu

Jornalista

Há pelo menos 19 anos que Ernest Adams, um norte-americano a viver em Londres, ganha a vida a imaginar videojogos. Trabalhou para alguns dos maiores produtores mundiais tais como a Electronic Arts, Ubisoft, Crytek, Bioware, THQ e Glu Mobile. Actualmente, é consultor independente e presença assídua em universidades de todo o mundo onde revela, por exemplo, 'O futuro do entretenimento em computador até 2050'.

Assim se intitula a conferência que proferiu nas instalações do Instituto Superior Técnico no Taguspark, em Oeiras, onde esteve a convite do Departamento de Engenharia Informática.

Em entrevista ao Expresso, Adams, de 48 anos, conta que a "Nintendo Wii é muito usada em lares da terceira idade para ajudar os idosos a movimentarem-se".

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, os videojogos são cada vez menos uma coisa de adolescentes. A idade média dos jogadores ronda actualmente os 35 anos, com tendência para subir. Estão também a emergir novos públicos com especial destaque para as mulheres. Lá para 2050, pelo menos uma coisa não deverá mudar: o sexo e a violência continuarão a ser presença assídua nos videojogos.

Foi publicamente apresentado na conferência que proferiu no Instituto Superior Técnico como um guru em design de videojogos. O que pensa sobre isso? Não sou designer de videojogos mais rico e famoso do mundo, mas já pensei muito sobre o assunto e por isso fico muito contente e lisonjeado.

Como é que se tornou um designer de videojogos? No seu site escreveu que quando tinha dez anos teve "uma visão". O que é que estava a jogar? Estava a jogar uma versão pirata do Star Trek e sentia-me, verdadeiramente, como o comandante Kirk. Senti então vontade de fazer mais jogos que dessem às pessoas esse tipo de sensações.

Li também no seu site que o processo de criação de um videojogo começa com a pergunta: "Que sonho vou realizar?" Sente-se um construtor de sonhos? Penso que sim. Nos jogos mais pequenos, como por exemplo o Tetris, não se trata de realizar um sonho, mas nos grandes jogos, em que se investe muito dinheiro, é disso mesmo que se trata.

Tenho muitos sonhos. Sonho por exemplo liderar os deuses da antiga Índia numa gigantesca batalha contra os demónios. [risos]

Nesta conferência fez diversas previsões sobre o futuro dos videojogos: as consolas terão câmaras para seguir o olhar do jogador mas não terão discos rígidos. Tudo estará em rede, etc., etc. Como é que pode estar tão seguro do que afirma? Não tenho certeza nenhuma. Penso que há boas razões para que assim seja. O actual modelo de negócio ainda não conseguiu encontrar uma forma de vender jogos que não possam ser pirateados e que estejam à disposição de muitas pessoas.

A distribuição electrónica de software é uma boa forma de fazê-lo. Os jogos serão mais baratos e mais difíceis de piratear, ou seja, não tenho a certeza mas penso que é uma boa ideia.

Presumo que, no seu caso, os videojogos não têm segredos. Estou errado? Ainda se diverte quando joga? Claro que sim, visto que consigo submergir nos mundos construídos pelos criadores do jogo. Na verdade, sempre que entro num jogo tento perceber como é que foi feito e vem ao de cima o sentido crítico do designer, mas consigo passar bons momentos.

Dê-me alguns exemplos dos seus videojogos favoritos. Um dos meus jogos preferidos chama-se "Balance of Power". Trata-se de um jogo de estratégia cuja acção decorre durante a Guerra Fria, centrando-se no confronto entre os Estados Unidos e a ex-União Soviética. Trata-se de um jogo sobre diplomacia e não encontramos muitos jogos deste tipo, porque é uma realidade que pouco conhecemos.

Também gosto muito de jogar "Tetris", porque é belo e elegante e ainda o "Planescape Torment", porque a história e as personagens são muito interessantes.

Joga com muita frequência? Não. Actualmente tenho muito pouco tempo livre e entretenho-me com jogos de curta duração, mas que me dão muito gozo.

Tem alguma consola ou joga no computador? Tenho uma Wii, uma Playstation II e uma Nintendo DS, mas ainda não tenho uma Xbox, nem uma Playstation III.

Comprou-as ou foram-lhe oferecidas? Não, tive de comprá-las, como qualquer outra pessoa. [risos]

"O meu videojogo perfeito é um jardim de maravilhas terrenas, não um mundo de brutalidade e dor", escreveu recentemente. Os jogos violentos produzem crianças violentas? Penso que as crianças que gostam de violência, preferem os jogos violentos, mas uma criança que não gosta de violência, não o passará a ser, se lhe derem um jogo violento. Tenho a certeza que alguns jogos não são indicados para crianças, tal como alguns filmes ou programas de televisão.

Que cuidados devem ter os pais? Têm de ler a caixa. Na Europa e nos Estados Unidos todas as caixas indicam a idade para a qual o jogo está recomendado. Muitos pais não o sabem e não olham para a caixa com a devida atenção. Deverão ainda limitar o número de horas diárias a jogar. No máximo, uma ou duas horas por dia.

Afirmou numa entrevista que "o sexo e a violência são algumas das formas mais eficientes de tornar uma história interessante". Existem outros? Por exemplo, a actual crise financeira daria um bom guião para um videojogo? O sexo e a violência são as formas mais eficientes mas também muito rudes. Não são subtis. Claro que podemos recorrer a outros tipos de acontecimentos - políticos, económicos e até catástrofes naturais. Podemos conceber histórias das mais variadas formas.

Em 2001, numa altura em que o mercado oferecia jogos muito semelhantes, publicou um manifesto (Dogma 2001) criticando a ausência de diversidade. As coisas mudaram? As mudanças não foram muito grandes, mas há algumas a registar. Teremos sempre jogos de acção, desporto e simuladores de condução, por exemplo, mas estão a surgir jogos para novas audiências, sobretudo para mulheres e idosos. A Nintendo Wii, por exemplo, é actualmente muito usada em lares da terceira idade para ajudá-los a movimentarem-se, ou seja, há hoje uma oferta muito mais diversificada e isso deixa-me muito contente.