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Este artigo não tem título porque Chuck Norris não gostou

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Qualquer conhecedor de filmes de acção sabe isto: ninguém se mete com Chuck Norris e sai inteiro. A lenda do cinema passou para a Internet, onde deu origem a um fenómeno que brinca com a sua invencibilidade. Chuck Norris não é o maior: é imortal. E numa altura em que faz 75 anos (aconteceu esta terça-feira), recordamos as histórias que ajudaram a dar forma ao mito.

O telefone tocou inesperadamente a meio da noite. Do outro lado da linha estava um tipo que falava a muitos milhares de quilómetros dali, em Hong Kong. A voz era familiar, mas o desafio foi surpreendente:

"Queres fazer uma luta comigo no coliseu de Roma?" "E quem vai ganhar o combate?" "Eu, é claro. Eu é que sou a estrela de cinema aqui!" "Tu queres é vencer o campeão mundial." "Não, eu quero matar o campeão mundial!"

Não se tratava de uma ameaça de morte, nem sequer o tom era ameaçador, porque à conversa estavam dois amigos. E aquele combate, na verdade, por muito épico que viesse a ser - e foi mesmo - era só a fingir. Bruce Lee tinha acabado de rodar duas longas-metragens em Hong Kong e queria mudar de cenário. Queria gravar um filme que incluísse uma cena de luta no mítico coliseu de Roma e lembrou-se do amigo Chuck, que tinha conhecido em 1968 em Nova Iorque, quando este ganhou pela primeira vez o título mundial de karaté, na categoria de pesos-médios. A amizade começou nesse momento e prolongou-se até Los Angeles, onde ambos viviam na altura e onde passavam parte do tempo a treinar em conjunto. Depois, Bruce mudou-se para Hong Kong e Chuck nunca mais tinha ouvido falar dele. Até àquele dia em que o telefone tocou.

Arcadas do Coliseu de Roma. Filme: "A Fúria do Dragão". A cena que se segue é épica a vários níveis e a coisa começa logo no aquecimento. Desde os sons dos músculos e dos ossos a preparem-se para aplicar uma sova valente, à superfície capilar intimidante no peito e dorso de Chuck Norris (Lee vai aproveitar esse handicap do adversário para lhe aplicar um golpe...) ao gatinho que andava ali metido no meio daqueles dois duros e que se tornou famoso muito antes de os gatinhos dominarem a Internet. Mas é também importante porque apresentou Chuck Norris ao mundo do cinema. "Chuck?! Mas aquele ali na televisão é o Carlos", terão dito na altura muitos dos habitantes da cidade de Torrance, na Califórnia.

De Carlos a Chuck, de Chuck a lenda Ele era um miúdo tímido e franzino, filho de um mecânico e camionista alcoólico de uma pequena cidade do Oklahoma que deixou a mãe quando ele tinha apenas dez anos. Foi nessa altura que se mudaram para a Califórnia, ele, a mãe e os dois irmãos mais velhos. Carlos Ray Norris nunca foi dado aos livros. Aos 18 anos casou-se com a namorada do liceu e alistou-se na Força Aérea. No mesmo ano foi cumprir o serviço militar na base militar de Osan, na Coreia do Sul. Foi aí que Carlos passou a Chuck, mas, mais importante do que isso, foi aí que Chuck iniciou o caminho que o iria permitir passar a lenda.

Durante o tempo que permaneceu no Oriente, Norris começou a interessar-se por artes marciais. Aprendeu Tang Soo Doo, uma arte marcial coreana que incorpora princípios do karate e do kung fu (mais tarde iria fundar a sua própria arte marcial, chamada de Chun Kuk DO). Quando deixou a Força Aérea, em 62, Chuck abriu um estúdio de karaté em Los Angeles. Depois veio outro e mais outro e de repente já eram 30. Diz-se que por lá chegaram mesmo a passar várias estrelas da altura e que foi até Steve McQueen (também ele um durão, mas dos westerns) que primeiro o terá incentivado a tentar a sua sorte no cinema. Mas foi preciso esperar mais uns anos até esse caminho começar a desenhar-se. Em 68 ganhou pela primeira vez o campeonato do mundo de karaté, em Nova Iorque (o tal onde viria a conhecer o amigo Bruce Lee). Ganhou no ano seguinte e no ano que veio depois e em 1974 cansou-se de ganhar e já não apareceu lá para defender o título. Chuck queria mais do que aquilo, mas o estrelato só chegou em definitivo nos anos 80.

Vietname. 1984. Ele é um antigo prisioneiro de guerra que regressa à selva, desta vez numa missão para resgatar um grupo de americanos feitos reféns. E se for preciso rebentar com tudo pelo caminho para os salvar, o coronel Braddock não hesita em rebentar com tudo. "Desaparecido em combate" foi mal recebido pela crítica (aquilo tresanda a cópia barata de "Rambo", dizia-se na altura), mas a verdade é que foi bem recebido onde mais interessa: nas bilheteiras. E quando o dinheiro começa a entrar em caixa há que explorar o filão. A produtora, a Cannon Group, pegou na receita e lançou de rajada vários filmes de ação com Norris, entre os quais "Código de Silêncio (1985) e "Força Delta" (1986).

O próprio Norris percebeu o potencial comercial de uma imagem mediática e aventura-se noutros caminhos. Hoje em dia perdidas no tempo e relegadas a "tesourinho" no grande museu de memórias dos fãs de Chuck Norris, as "Actions Jeans" prometiam, nos anos 80, ser umas calças de ganga que, mantendo o estilo, estavam dotadas de flexibilidade suficiente para permitir a ligeireza de pernas necessária para aplicar um "round-kick", ou outro golpe da nossa vasta coleção de movimentos. Nunca se sabe quando um individuo não tem de se chatear ao virar de uma esquina.

O ranger do Texas A receita dos filmes de ação, por algum motivo, começou a esmorecer no final dos anos 80. Chuck Norris tem de se virar para outros lados. E, nomeadamente, para a televisão. Agora, ele continua a ser um veterano do Vietname, mas desta vez não tem de salvar ninguém lá fora - há trabalho a fazer em casa. A ação passa-se no Texas e Norris é Cordell Walker, um agente das forças de segurança ao estilo dos xerifes do Velho Oeste, com chapéu de cowboy e que punha os criminosos na ordem com recurso a golpes de artes marciais, mais do que à arma que traz no coldre.

Continua a haver ação, mas desta vez não é só o tiro pelo tiro ou o pontapé pelo pontapé. Há também algum moralismo à mistura. As artes marciais são colocadas ao serviço da comunidade para ajudar miúdos problemáticos e há mensagens fortes de combate às drogas (temas que vão ao encontro das convicções de Norris, conservador assumido, que já apoiou por várias vezes candidatos do partido Republicano à presidência, e que é também um fervoroso apoiante do direito à posse de armas). A série, que passou na SIC nos anos 90, foi uma das mais vistas de sempre e há, certamente, toda uma geração que ainda se recorda desta música de abertura.

É certo que, depois do Ranger do Texas, Chuck Norris pouco mais fez (entrou em apenas cinco filmes desde então, dois deles só passaram na televisão e o mais visto terá sido a fugaz aparição em "Mercenários 2"), mas também é verdade que o ator já não precisava de fazer mais para dar origem a uma lenda. E, na era da Internet, as lendas ganham uma outra dimensão.

"O Chuck Norris foi mordido uma vez por uma serpente venenosa. Depois de três dias de dores horríveis... a cobra morreu." "Quando o papão vai dormir, olha para debaixo da cama para ver se o Chuck Norris está por lá." "O tipo sanguíneo de Chuck Norris é AK-47." Estes são apenas alguns exemplos das piadas e trocadilhos que se disseminaram na internet, num fenómeno que teve origem em 2005 e a que se deu o nome de "Chuck Norris Facts".

O princípio é simples: Chuck Norris é o maior. Não, não é o maior, é invencível. Aliás, é imortal. Aliás, é deus. Não, não é deus, é uma entidade situada num plano existencial superior ao próprio criador. O princípio é simples: não há um princípio. Porque Chuck Norris é anterior ao próprio início das coisas. Diz-se que ele até tem um "Chuck Norris Fact" favorito. É aquele que conta que um dia tentaram adicionar o rosto de Norris ao monte Rushmore (o memorial onde as faces de quatro presidente dos Estados Unidos estão esculpidos na pedra de uma montanha), mas o granito não era suficientemente rijo para a barba dele... Se se quiser rir um pouco e consultar a extensa lista de piadas a respeito do ator, pode fazê-lo AQUI.

Para os fãs, não há ninguém que possa estar acima do ranger do Texas. Foi por isso que quando Van Damme fez um vídeo viral em que fazia a espargata apoiado em dois camiões em andamento, a resposta não tardou. Camiões? Isso é coisa para meninos...

Chuck Norris faz agora 75 anos e, nos tempos recentes, foi alvo de um daqueles rumores que, de quando em vez, afeta as celebridades no mundo da internet e que as obriga a ter de dar uma resposta ao estilo de Mark Twain ("as notícias da minha morte são manifestamente exageradas"). Quem conhece bem a figura saberia, à partida, que isso seria impossível. Porque Chuck Norris não morre. Diz-se que, certa vez, foi a própria morte que teve uma experiência "quase Chuck Norris". De resto, ele não precisa de enganar a morte. Ele ganha de forma justa.