Siga-nos

Perfil

Expresso

Multimédia

Ninguém sabe explicar muito bem o que está a acontecer na Antártida: os mistérios do gelo

Três vezes maior do que a União Europeia, a Antártida é em muitos aspetos ainda uma incógnita. Ao contrário do que acontecia no Ártico, tem sempre havido um ligeiro aumento da extensão de gelo marinho. Até que 2016 veio e trouxe um facto alarmante, agravado pelo icebergue histórico que se soltou já este ano. “A redução drástica agora notada é anómala e pode significar o início do aquecimento da Antártida. Pode ser um sinal de que o gigante está a acordar. Mas isso só o saberemos daqui a uns anos”

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

infografia

Infográfico

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

texto

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

edição vídeo

Jornalista

Bruno Oliveira

animação vídeo

animação vídeo

Manteve-se adormecida durante décadas, enquanto o Ártico sofria um degelo acelerado em consequência das alterações climáticas. Mas a Antártida não parecia dar os mesmos sinais, ou pelo menos não os dava à mesma velocidade. Em finais do ano passado surgiram até notícias de um arrefecimento na região da Península Antártica durante os últimos 15 anos, contrariando a lógica do que tem vindo a ser frequente nessa área, que desde a década de 1950 registava um aumento médio anual das temperaturas na ordem dos 2,5 graus Celsius. Foi de uma das plataformas de gelo daquela península, a Larsen C, que há semanas se desprendeu um dos maiores icebergues da História, com quase 6 mil km quadrados. E onde, uma semana depois, foi possível observar uma outra fenda, ainda pequena e tímida, a desenhar-se rumo a norte.

Embora a grandeza colossal do bloco de gelo agora à deriva no Mar de Wedell faça soar os alarmes quanto à possibilidade de o aquecimento global estar por fim a afetar o polo sul, os cientistas hesitam em estabelecer uma ligação direta entre a perda de massa gelada da Larsen C e a doença do planeta. “Perguntar se isto está relacionado com o aquecimento global é como perguntar se o estão também uma tempestade ou uma semana inusual de calor. Sendo processos normais, não é possível dizer se sim ou se não”, afirmou Bryn Hubbard, investigador do Midas, projeto que monitoriza as mudanças climáticas na plataforma Larsen C.

“As plataformas têm uma dinâmica própria: é gelo flutuante que flui do continente em direção ao oceano e que, a partir de uma certa extensão, acaba por se fragmentar”, explica ao Expresso Gonçalo Vieira, coordenador do Programa Polar Português, admitindo que o desprendimento de icebergues — e mesmo o colapso de plataformas, como o da Larsen A em 1995 e o da Larsen B em 2002 — faz parte de processos que, apesar de longos, são cíclicos e inerentes ao sistema daquele continente. “O problema”, sublinha, “é saber se, uma vez colapsada a plataforma, nas condições atuais do planeta, haverá condições para esta se formar de novo”. E tal incerteza é a base para outras interrogações.

A principal está documentada: em 2016, a última primavera austral, registou-se uma redução sem precedentes da extensão de gelo marinho. Trata-se de uma camada de gelo fina, formada à volta do continente a partir da água do mar, que atinge a extensão máxima no inverno e a mínima no verão. Entre setembro e novembro de 2016, esse derretimento foi “anómalo”, tanto em extensão como em velocidade, chegando a perder 75 mil km quadrados de gelo por dia, 46% mais rápido do que a taxa média anual de fusão desde 1979. O fenómeno verificou-se em “todos os sectores da Antártida, sendo maior nos mares de Wedell e de Ross”, especificou John Turner, da British Antarctic Survey e líder da equipa que coligiu estes dados.

Para Gonçalo Vieira, os trabalhos de Turner mostram que a anomalia está associada a uma temperatura do ar mais quente do que o normal no último verão austral, a par da baixa pressão atmosférica e consequente mudança no padrão do vento nos mares de Bellingshausen e de Amundsen, na Antártida Ocidental. “Ao contrário do que acontecia no Ártico, na Antártida tem sempre havido um ligeiro aumento da extensão de gelo marinho. A redução drástica agora notada é anómala e pode significar o início do aquecimento da Antártida. Pode ser um sinal de que o gigante está a acordar e a reagir mais rapidamente às mudanças climáticas. Mas isso só o saberemos daqui a uns anos”, reforça o especialista, que já realizou uma dezena de expedições ao continente gelado.

Três vezes maior do que a União Europeia, a Antártida é em muitos aspetos ainda uma incógnita. É mais remota do que o Ártico, de acesso mais difícil e não tem população permanente, fora os milhares de cientistas que recebe anualmente. O seu estudo sistematizou-se em meados dos anos 50, tendo dado um salto em 2007 com o grande investimento que o Ano Polar Internacional trouxe à pesquisa. Hoje sabe-se que foi graças às suas características que o gigante tem conseguido proteger-se do impacto brutal das alterações climáticas noutras partes do globo: a latitude elevada, o facto de ser mais frio, de ter mais gelo — os glaciares chegam a ter 4 km de espessura — e de estar rodeado por um oceano enorme com correntes marinhas e ventos poderosos.

Mas por quanto tempo continuará a dormir? A Antártida Ocidental é já considerada um dos sectores mais preocupantes. Não só possui menos gelo do que a Antártida Oriental, como a maioria da sua área continental, onde assentam os glaciares, se encontra abaixo do nível do mar. E isto leva a que o gelo fique à mercê dos efeitos do mar, aumentando a perda de massa para o oceano. Os estudos no glaciar da Ilha de Pine e no glaciar Thwaites mostram resultados “muito preocupantes” a esse nível, especifica Gonçalo Vieira. Quando um membro da sua equipa, Marc Oliva, documentou o arrefecimento da Península Antártica, isso não o deixou menos apreensivo. Quinze anos são quase nada em tempo geológico e o passado já demonstrou que, no que à Antártida diz respeito, é sempre preciso esperar para ver.