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As visões que o Estado Novo silenciou

Carlos Alberto diz que viu Nossa Senhora nove vezes. O caso encheu as primeiras páginas de muitos jornais nacionais em 1954. O vidente tinha 11 anos, foi observado por psiquiatras, esteve na casa do diretor da cadeia de Alcoentre e foi inquirido por autoridades civis e religiosas. A censura proibiu a circulação de um livro que relata o sucedido e a PIDE abriu um processo, pouco depois de Portugal ter perdido um enclave do império colonial na então Índia portuguesa. O culto continua, 63 anos depois

João Santos Duarte

João Santos Duarte

(realização e captação de imagem, edição de vídeo e pesquisa)

Jornalista

Manuela Goucha Soares

Manuela Goucha Soares

(entrevistas, realização e pesquisa)

Jornalista

No domingo 16 de maio de 1954, a professora da escola da Asseiceira decidiu dar uma aula suplementar à sua dezena de alunos que iria fazer exame de instrução primária em julho. Como estava doente, os miúdos sentaram-se nas escadas exteriores da casa de D. Manuela. “A dada altura, o Carlos Alberto pediu para se ausentar, veio para este terreno onde havia árvores, silvas e um valado. Quando regressou, disse que tinha visto Nossa Senhora e que ela iria voltar a 16 de junho. Nenhum de nós duvidou. Nem a professora”, lembra Manuel Carreira, 74 anos, colega de escola e companheiro de brincadeiras de Carlos Alberto.

A família do Carlos Alberto vivia em “condições de pobreza extrema”, diz Manuel Carreira: “Eu estou a andar mais de 60 anos para trás e a ver-me aqui miúdo, descalço o ano inteiro. A escola era uma casa de telha vã, num primeiro andar, tinha vidros das janelas partidos e, no inverno, nós levávamos latas com brasas para nos aquecermos. Hoje... ninguém consegue imaginar como era”.

“Nessa altura [em maio de 1954], o Carlos Alberto morava nos Casais dos Quintinos, a dois ou três quilómetros daqui. Levava uma lancheirinha para a escola e à hora de almoço ia a minha casa aquecer a comida. Éramos muito próximos”, acrescenta o amigo.

CENTENAS DE PESSOAS NA SEGUNDA VISÃO

No dia 16 de junho de 1954 juntaram-se na Asseiceira centenas de pessoas. Muitas mais do que as que viviam naquela pequena aldeia à beira da Estrada Nacional nº 1, a menos de 80 quilómetros de Lisboa e de Fátima. As pessoas vieram a pé, de burro pelos campos e juntaram-se no terreno onde o vidente teve a primeira visão por volta do meio-dia solar.

Manuel Carreira não viu Nossa Senhora mas viu o amigo entrar em transe e começar a falar com o loureiro. E ouviu gente a dizer que estava a ver alguma coisa. Os habitantes da aldeia improvisaram um altar e começaram a rezar o terço todos os dias “à noitinha”. Ainda o rezam todos os dias.

Na edição de 17 julho de 1954, o vespertino lisboeta Diário Popular escreve que “20.000 pessoas acorreram à Asseiceira”

Na edição de 17 julho de 1954, o vespertino lisboeta Diário Popular escreve que “20.000 pessoas acorreram à Asseiceira”

BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL

Nesta altura, Carlos Alberto começou a ser interrogado pelas autoridades locais, civis e eclesiásticas. A visão de 16 de julho foi objeto de manchetes e reportagens de boa parte da imprensa nacional. Os relatos dos jornais estimam que tenham acorrido à Asseiceira entre 20 a 30 mil pessoas [consoante os títulos], vindas de todo o país, para assistirem à terceira visão de Nossa Senhora.

INTERVENÇÃO DO DIRETOR DA CADEIA DE ALCOENTRE E DO MINISTRO DO INTERIOR

Cinco dias antes da terceira visão, a 11 de julho, Carlos Alberto foi observado na “consulta que o Dispensário de Higiene e Profilaxia Mental de Lisboa realiza mensalmente no Hospital da Misericórdia de Santarém”, lê-se na edição do Diário de Lisboa de 21 de julho de 1954: “Dos resultados desse exame nada porém se concluiu, concretamente antes foi sugerida, posteriormente, a hospitalização do menor para a sua completa e minuciosa e completa observação, por haver fortes suspeitas de se estar em presença de um caso de anormalidade psíquica”.

A 17 de julho, três dias antes do início das provas de exame de instrução primária, Carlos Alberto voltou a ser interrogado pelas “autoridades locais”, lê-se no “Diário Popular” de dia 19.

A posterior observação iria acontecer em ambulatório, em Lisboa, de acordo com o relato de Zélia Delgado, irmã mais nova de Carlos Alberto. De acordo com a imprensa da época, a ordem foi dada pelo ministro do Interior.

A manchete do Diário de Lisboa de 21 de julho de 1954 é sobre as aparições da Asseiceira

A manchete do Diário de Lisboa de 21 de julho de 1954 é sobre as aparições da Asseiceira

FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES


O “Diário Popular” de 30 de julho — naquela que é uma das últimas notícias na imprensa nacional sobre as visões da Asseiceira — escreve que “o rapazinho concluiu, anteontem, na escola primária de Rio Maior, o seu exame de 2º grau, em que ficou aprovado revelando bom aproveitamento escolar. Antes do exame, o Carlos Alberto passou uns dias em casa do sr. dr. Joaquim Leal de Oliveira, diretor da Colónia Penal de Alcoentre, para melhor poder descansar, com vista às provas que tinha de prestar”.

Os mais velhos da Asseiceira dizem que o miúdo esteve na cadeia. No curso desta investigação, o Expresso não encontrou elementos que permitam concluir se a estada em casa do diretor da Colónia Penal foi – ou não – um gesto solidário para proteger o miúdo. Apenas se sabe que até à Revolução de Abril de 1974 o exame de instrução primária era um bicho de sete cabeças para todas as crianças. Uma prova rigorosa que para muitos significava o fim dos estudos e para outros decidia o futuro próximo. Os mais bem classificados poderiam ser dispensados da prova oral, mas a escrita examinava o conhecimento e a caligrafia. O uso da caneta de tinta permanente era obrigatório... e os borrões também contavam para o resultado final.

PATRIARCADO PROÍBE SACERDOTES DE IREM À ASSEICEIRA

A 30 de julho, o “Diário Popular” escreve ainda que “no próximo dia 16 de Agosto, a afluência de ‘peregrinos’ à Asseiceira não deve ser inferior à verificada no mesmo dia do mês passado, sabendo-se que virá gente dos mais diversos pontos do País”. Eram muitos os que queriam ver de perto – e se possível tocar – Carlos Alberto da Silva Delgado, 11 anos franzinos e enfezados, já que os relatos de alegadas curas passavam de boca em boca e vinham nas página dos jornais.

O Diário de Lisboa de 7 de agosto de 1954 transcreve a nota da Cúria Patriarcal

O Diário de Lisboa de 7 de agosto de 1954 transcreve a nota da Cúria Patriarcal

FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES

Uma semana mais tarde, a 7 de agosto, o Patriarcado toma posição e faz publicar um comunicado na imprensa nacional. Assim rezava a nota da Cúria Patriarcal: “Tendo constado em vários pontos do País que Nossa Senhora aparecera num lugar da freguesia de Rio Maior e chegando ao conhecimento desta Cúria que já por duas vezes ali se reuniram numerosas pessoas a fim de assistirem a factos anunciados como extraordinários (...), esclarece-se que, depois de exame cuidadoso acerca do que sobre as pretensas aparições se passou, se verificou nada existir que confirme ou pareça confirmar a veracidade de tais aparições”.

“Por isso é dever da Autoridade Eclesiástica lembrar a todos os católicos a obrigação de evitarem tudo quanto possa concorrer para dar publicidade a acontecimentos que apenas servem para comprometer a verdadeira fé. Proibir a todos os sacerdotes que tomem parte em novas reuniões que se anunciam. Aconselhar todas as pessoas de bom senso, que na órbita da sua esfera de ação, esclareçam o povo sobre a necessidade de maior prudência em casos desta natureza e sobre a obrigação de impedir o alastramento da credulidade que facilmente degenera em superstição perigosa.”

VATICANO PREOCUPADO COM ATAQUES À “SOBERANIA PORTUGUESA“ NA ÍNDIA


Os ataques à soberania nacional nos territórios da então Índia portuguesa dominavam as primeiras páginas dos jornais de 7 de agosto, dia em que foi publicada a nota da Cúria Patriarcal sobre as aparições/visões da Asseiceira.

A situação nos territórios portugueses na Índia domina toda a primeira página do matutino “O Século” de 7 de agosto de 1954

A situação nos territórios portugueses na Índia domina toda a primeira página do matutino “O Século” de 7 de agosto de 1954

BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL

A primeira página de “O Século” titulava que, de acordo com o jornal britânico “Evening Standard”, “Salazar é homem para Nehru” e que “O Povo de Diu não se deixa intimidar”. Há 14 notícias sobre a Índia nesta primeira página: duas delas têm cariz religioso, com o cardeal-patriarca a anunciar uma vigília [pela defesa na Índia], nos Jerónimos. A outra recomenda “atos de oração e penitência”.

No “Diário de Lisboa” lê-se em manchete: “O Vaticano e 8 países dirigiram-se ao Governo indiano manifestando a sua preocupação pelos ataques à soberania portuguesa”.

O ano político de 1954 começara com a Índia portuguesa na agenda do Conselho de Ministros, que discutiu o assunto na reunião de 19 de janeiro. A 12 de abril, Salazar dirigiu-se aos portugueses e ao “pandita Nehru”: “O Mundo está cheio de inquietações e de perigos e o primeiro-ministro da União Indiana notou-o bem explicitamente numa das suas últimas intervenções parlamentares, para que possa, sem razão, acrescentá-los ainda. Nós esperamos – e são as minhas últimas afirmações – nós confiamos em que os actos vão corresponder às palavras e cremos que também aos íntimos sentimentos do pandita Nehru”.

A determinação do Governo indiano não correspondeu às expectativas de Salazar. A 10 de agosto, num discurso aos microfones da Emissora Nacional, o ditador acusou a União Indiana de violar os princípios da Carta das Nações Unidas e infringir os princípios da convivência internacional.

A 11 de agosto, a União Indiana anexou os territórios de Dadra e Nagar Haveli. Seis anos depois, em dezembro de 1961, terminaria o império português na Índia, com a ‘queda’ de Goa, Damão e Diu.

ASSEICEIRA: LIVRO PROIBIDO PELA CENSURA E PELA PIDE


Após ter sido publicada a nota da Cúria Patriarcal, as notícias sobre as visões da Asseiceira desapareceram dos jornais nacionais. Algures no mês de agosto foi publicado em Rio Maior, em edição de autor, o livro “As Aparições da Asseiceira”, da autoria de Fernando António, que reunia fotografias do local das visões, e fazia uma compilação de todas as notícias publicadas nos jornais do mês de julho e início de agosto.

A nota da Cúria Patriarcal consta deste opúsculo, pelo que a edição deve ter acontecido no final do mês.

Portugal Ilustrado de 1 de agosto de 1954

Portugal Ilustrado de 1 de agosto de 1954

BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL

Portugal vivia em ditadura, e os jornais, livros, espetáculos e etc. eram visados pela censura. Não podemos esquecer que o Estado Novo foi o casamento quase perfeito entre a governação de Salazar e do seu amigo de juventude, na altura cardeal, Gonçalves Cerejeira.

Os censores trabalharam eficazmente neste processo. O Expresso consultou o processo de apreensão do livro na Torre do Tombo e verificou que, a 1 de setembro, o major Tasso de Figueiredo escreveu ao diretor do jornal “O Riomaiorense” em nome do diretor-geral da Censura, pedindo para que o responsável pelo jornal local fizesse “providenciar” para que fossem enviados três exemplares do opúsculo “As Aparições da Asseiceira” à Censura.

O administrador de “O Riomaiorense” respondeu na volta do correio informando que o jornal não tinha o livro e disponibilizando-se para fornecer a morada do autor. Recorde-se que nesta época o telefone era um objeto raro nas casas particulares, sobretudo na província.

No dia 6, o censor Tasso de Figueiredo escreveu ao autor do livro, ordenando-lhe que enviasse três exemplares do mesmo para a delegação dos serviços de censura de Santarém. O major terminava a carta enviando cumprimentos, aos quais acrescenta a frase do regime “A Bem da Nação”.

Aberto o processo número 179, o livro foi “mandado apreender a 17.9.1954 — Ofício à PIDE nº 1029”.

À OITAVA VISÃO... A GUARDA REPUBLICANA CERCOU A ALDEIA

As últimas notícias sobre as aparições foram publicadas pelo “O Riomaiorense” no final de agosto. Mas, apesar de o assunto ter desaparecido dos jornais, milhares de pessoas continuaram a afluir às concentrações de dia 16 de cada mês. Em dezembro, de acordo com os relatos de Manuel Carreira, Lucília André e outros habitantes da Asseiceira, a GNR mandou uma “companhia” para barrar o acesso à terra.

Há quem conte que as autoridades estavam a desviar o trânsito no Carregado, a quase 40 quilómetros da aldeia.

Foto do vidente Carlos Alberto com os pais, na primeira página de “O Comércio do Porto” de 18 de julho de 1954

Foto do vidente Carlos Alberto com os pais, na primeira página de “O Comércio do Porto” de 18 de julho de 1954

BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL

“As pessoas foram chegando pelos campos e ao fim da manhã estava aqui uma multidão”, conta Lucília André, a antiga modista da Asseiceira e arredores que era uma espécie de confidente das clientes: “Houve um guarda que disse que podia ficar sem ordenado mas que não voltava cá para afastar as pessoas”.

No mês seguinte, Carlos Alberto teve a nona e última visão. “Dizia que a Nossa Senhora nos mandava rezar pela paz no mundo e cumprir com os Dez Mandamentos. E que lhe tinha confiado um segredo”, recorda Lucília.

IGREJA NUNCA RECONHECEU MAS ACEITOU DOAÇÃO DO RECINTO

A anomalia psíquica de Carlos Alberto nunca foi confirmada pelas autoridades. O vidente “foi ajudado por muita gente” da região, estudou, fez a tropa no regimento de Cavalaria em Santarém e uma carreira profissional como funcionário do Banco Português do Atlântico, primeiro em Alpiarça e, mais tarde, nas Caldas da Rainha.

Um antigo colega disse ao Expresso que “no banco todos gostavam dele, e iam lá pessoas só para o ver”.

No final da década de 1980, a comissão de culto da Asseiceira — que estava encarregada de cuidar do recinto onde foi edificada a capelinha das alegadas aparições — foi sondada por representantes da Igreja Ortodoxa, interessados em legitimar o local.

Recusaram com o argumento de serem católicos... apesar de se sentirem excomungados pela hierarquia. Voltaram a contactar a Paróquia de Rio Maior, que — num acordo bilateral com a Comissão de Culto da aldeia — aceitou receber em doação o “recinto” para “nele construir a futura igreja paroquial da Asseiceira e um complexo para Centro de Dia para Idosos e Atividades para crianças”.

Na escritura firmada no Cartório Notarial da sede do concelho, a 21 de julho de 1992, a hierarquia da Igreja Católica comprometeu-se a “não alienar a qualquer título qualquer parcela do prédio que [lhe] foi doado”. No próximo dia 16, há procissão na Asseiceira... como acontece há mais de seis décadas.