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Aves e aviões em rota de colisão?

É uma das questões a responder antes de se avançar em definitivo para a construção de um novo aeroporto no Montijo, como apoio ao atual aeroporto de Lisboa: que impacto podem ter na segurança dos voos as milhares de aves que passam anualmente pelo estuário do Tejo? E por outro lado, que consequências ambientais pode ter um aeroporto junto de uma das áreas protegidas mais importantes do país?

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

Grafismo

Infográfico

João Roberto

João Roberto

Grafismo animado

Motion designer

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Guião e locução

Jornalista

Carla Tomás

Carla Tomás

Texto

Jornalista

Se o projetado aeroporto do Montijo levantar voo, as rotas dos aviões que descolarem ou aterrarem vão atravessar o coração da área protegida do Estuário do Tejo. Esta é a mais importante zona húmida do país e por ela passa uma das mais importantes rotas migratórias de aves aquáticas da Europa, vindas sobretudo de África a caminho do Norte da Europa. Estima-se que por ali pousem 100 mil aves aquáticas para passar o inverno, às quais se juntam mais 120 mil em stop over, nos períodos migratórios.

Com os projetados 24 voos civis por hora (uma aterragem ou descolagem a cada cinco minutos) poderão cruzar-se demasiadas asas no ar, com “impactes significativos na avifauna”, alertam organizações ambientalistas como a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) e a Zero.

Mas, para saber que impactes ambientais podem ocorrer, “são necessários estudos pormenorizados sobre os movimentos diários e sazonais destas mais de 200 mil aves que ainda não estão feitos”, sublinha o diretor da SPEA, Domingos Leitão. A ANA aeroportos diz que já está a fazê-los e haverá resultados até ao final deste ano. Os estudos terão de analisar não só o efeito dos aviões no comportamento das aves, mas também o contrário. Como lembra Carla Graça, da Zero, “com tantas aves a deslocarem-se neste espaço, a própria segurança das aeronaves pode ser posta em risco”.

No aeroporto de Lisboa, por exemplo, em 2015 registaram-se 42 incidentes com aves, de acordo com a NAV, Navegação Aérea de Portugal. Destes, 7 provocaram danos nos aviões, mas sem gravidade. Quanto ao Montijo não há ainda dados, e os estudos terão de determinar o risco de colisão de aves associado à instalação de um aeroporto civil naquela zona. No que respeita às operações da actual base militar, de acordo com os dados cedidos pela Força Aérea Portuguesa ao Expresso, em 2015 registaram-se 13 ocorrências com aves, ao passo que no ano passado foram 6. Não há registo, no entanto, de acidentes com aviões. Por "ocorrência" entende-se o avistamento, a quase colisão ou colisão, com ou sem danos. Nos primeiros dois meses de 2017 registaram-se 3 ocorrências no Montijo.

Quanto à poulação de aves, só patos e gansos são mais de 54 mil, e gaivotas e cegonhas mais de 24 mil. São aves grandes e formam bandos que voam a grandes altitudes, podendo vir a ter encontros com aviões, já que se deslocam para comer e dormir diariamente, em função das marés, entre os diferentes habitats do estuário e arredores, dos sapais, aos mochões, passando pelas salinas, arrozais ou pelos pastos da lezíria.

No início de fevereiro, um grupo de ornitólogos capturou imagens da dança de um bando com cerca de 35 mil maçaricos-de-bico-direito incomodados pela presença de um falcão peregrino. “Alguns exemplares deste grupo estavam anilhados e foi possível seguir a rota que fizeram do Norte de África até aqui, antes de rumarem à Holanda ou à Islândia para nidificar”, explica Afonso Rocha, do Grupo de Anilhagem do Estuário do Tejo. Os maçaricos pertencem ao grupo das limícolas, onde se incluem pilritos, alfaiates ou tarambolas, entre outros que totalizam em média mais de 70 mil exemplares que se deslocam por todo o estuário em função das marés.

Pequena limícola de plumagem entre o castanho e o cinzento, bico longo. Chega a atingir 77 cm de envergadura e é o símbolo desta reserva natural porque nela se concentram, durante o inverno, cerca de 20% da população europeia desta espécie. Contam-se perto de 3000 exemplares de um total de 70 mil limícolas que por ali poisam. Estatuto “pouco preocupante”.

Ave de aspeto exótico com longas patas e pescoço, de cor branca com tons rosados e manchas vermelhas. Pode atingir 145 cm de altura e 170 cm de envergadura. No Tejo concentram-se cerca de 5000 exemplares, a maioria no inverno, junto às salinas do Samouco. É uma espécie vulnerável apesar de estar em expansão.

Ave aquática de cor cinzenta, com bico e patas alaranjadas, pode atingir 85 cm de comprimento e 168 cm de envergadura. Originária da Escandinávia e Norte da Europa, é para essas paragens que seguirá na primavera. Aqui a população ronda os 2500 exemplares. Voa em bandos em forma de 'V'. Tem estatuto de “quase ameaçado”.

É mais majestosa do que a graça-real-comum, alta e de pescoço anguloso. Tem uma plumagem arruivada e acinzentada e dois penachos pretos na nuca. Pode atingir 90 cm de altura e 145 cm de envergadura. Alimenta-se de peixes, anfíbios, insetos e lagostins nas valas, caniçais e arrozais. Está “em perigo“ de extinção. Estimam-se cerca de 400 casais em Portugal além dos que que passam em migração.