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A espantosa fuga da “mais sinistra cadeia da ditadura”

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Parece um filme, mas é a história da fuga de três presos da cadeia do Aljube, contada pelo único sobrevivente desta aventura programada para homens que não tinham vertigens. A corda usada era curta, o que obrigou Américo de Sousa a cair com estrondo no telhado do prédio vizinho, o carro que os deveria recolher não apareceu e a mulher da casa de contacto não queria abrir a porta. Imprevistos à parte, eles atingiram a liberdade que tinham por destino. O antigo militante comunista Carlos Brito conta como foi

Manuela Goucha Soares

Manuela Goucha Soares

(texto)

Jornalista

André de Atayde

André de Atayde

(vídeo)

Jornalista

Se fosse hoje, se Portugal não vivesse em Democracia, Américo de Sousa, Carlos Brito e Rolando Verdeal nunca teriam escolhido uma madrugada de sábado para domingo para fugir pelas grades e pelo beiral de um 5º andar da rua Augusto Rosa em Lisboa. Só que em 1957 não havia vivalma na pacata rua que ligava a Sé ao Miradouro de Santa Luzia e onde ficava a cadeia por onde passaram 30 mil presos políticos, na zona que agora é um dos mais movimentados locais turísticos da noite lisboeta.

Carlos Brito, o único sobrevivente desta fuga, tinha 23 anos quando foi preso pela segunda vez, em outubro de 1956. “Vim para o Aljube, a mais sinistra das prisões da ditadura, que era para onde vinham os presos submetidos a interrogatório e tortura. Estávamos aqui e íamos à António Maria Cardoso [rua onde ficava a sede da PIDE e que era perto] para sermos torturados. Por isso, sempre que entrava um novo preso, dizia-se ‘Força camarada, isto vai ser muito duro’... ”.

“Era preciso resistir aos interrogatórios, não falar. O porte [conduta] na prisão” ditava a diferença na vida de cada preso que era levado para interrogatório, e – também – na dos companheiros que poderia comprometer se não resistisse à tortura e abrisse a boca.

Os detidos sujeitos a maior vigilância dos guardas estavam em celas minúsculas como este curro

Os detidos sujeitos a maior vigilância dos guardas estavam em celas minúsculas como este curro

MUSEU DA RESISTÊNCIA E LIBERDADE

Carlos passou alguns meses no curro número 7. Foi para ali que o levaram quando foi preso em outubro de 1956. Tiraram-lhe o relógio, o cinto, os atacadores dos sapatos. “Privavam-nos de tudo... não havia lápis, papel, livros para ler”. Mas também não havia luz; os curros, essas minúsculas celas que eram atribuídas aos presos que mereciam mais atenção dos guardas, quase não tinham luz. Para sobreviver aos meses de isolamento e ouvir uma voz ... recitava poemas em voz alta: “Sabia muitos poemas de cor, Camões, Florbela Espanca... também fazia os meus poemas de cabeça; e andava de um lado para o outro” naquele espaço minúsculo e mal iluminado.

“Fazia parte da estratégia obrigarem-nos a pensar”, deixar os presos mergulhar nos fantasmas, no medo da tortura, na saudade das famílias e de uma vida normal. A polícia política esperava que assim acabariam por ceder e cantar as tão almejadas informações.

Fotos de Carlos Brito na ficha da PIDE

Fotos de Carlos Brito na ficha da PIDE

“Passei oito anos e um mês nas prisões da ditadura: Caxias, Aljube e Peniche. O Aljube tinha a pior alimentação de todas, um casqueiro [pão escuro] que era distribuído ao pequeno almoço e sabia mal; ainda por cima tinha de dar para todo o dia. Ao almoço sopa, diziam-nos que podíamos repetir, para dar uma imagem de fartura. Volta que não volta não havia água para os banhos. O regime de visitas era péssimo.” As condições acabariam por determinar que os presos se organizassem e elaborassem um caderno reivindicativo, pese o facto de muitos deles estarem em regime de isolamento.

A PIDE identificou os cabecilhas da insurreição interna e decidiu mudá-los de andar para evitar que continuassem a comunicar com os outros presos; mesmo sem poder falar, os detidos comunicavam entre si; treinaram o ouvido, habituaram-se a conhecer os guardas pelos passos. Com toques na parede, em que cada letra do alfabeto correspondia a um toque [o Z teria muitos toques] tentavam conversar com o vizinho do curro ao lado e passar informações.

Por sorte, a mudança que tirou os alegados líderes do caderno reivindicativo dos minúsculos curros com um metro de largura e dois de comprimento colocou-os na mesma sala. “Mal assentámos arraiais nas novas instalações, começámos a avaliar as possibilidade de fuga. Ao cabo de uma semana, não mais, de cogitações individuais e reflexões coletivas a resposta foi afirmativa: havia condições de fuga. A sala onde estava ficava num andar recuado [o 5º]; por baixo das janelas com grades de ferro, existia um algeroz estreito”, para dar vazão às águas da chuva.

E esse algeroz era o primeiro caminho de alguns detidos para a “liberdade, embora o plano fosse arrojado” e houvesse muitas interrogações para dar resposta.

“Dava o miolo do pão ao Vasco Cabral...”

Os preparativos da fuga deixavam espaço para preocupações com a alimentação: “Um dos presos que estava nessa sala era o [guineense] Vasco Cabral; era um homem de alimento e fazíamos umas trocas alimentares: eu dava-lhe o miolo do meu casqueiro e ele dava-me as côdeas do dele”, recorda Brito com humor. Américo de Sousa, Blanqui Teixeira e Francisco Miguel, todos eles destacados dirigentes do PCP, também estavam. “Blanqui disse que não poderia participar porque tinha vertigens e o Francisco Miguel acreditava que as acusações que lhe eram feitas não tinham consistência para o deixar muito mais tempo preso. Fizemos chegar, por meios clandestinos, os nossos propósitos e as nossas necessidades ao partido”.

Foram observando os guardas e concluíram que, ao contrário do que acontecia noutras cadeias da ditadura, os guardas “não batiam as grades” com uma barra de ferro durante a noite para ver se estavam sólidas; “só as examinavam com uma lanterna. Precisávamos de uma serra, que chegou dissimulada na prenda de anos para um de nós. Só podíamos trabalhar nos momentos em que se sabia que o guarda de serviço estava ocupado com outras preocupações. As sessões de corte eram bastante curtas. E era preciso serrar quatro grades relativamente grossas, em cruz, para se poder passar”.

O estratagema utilizado para disfarçar os cortes foi perfeito: miolo de pão pintado com aguarela da cor das grades, “resultou em cheio. Os guardas miravam, miravam e parecia-lhes tudo bem”.

As grades da velha cadeia transformada em Museu

As grades da velha cadeia transformada em Museu

MUSEU DA RESISTÊNCIA E LIBERDADE

Cá fora, outros membros do “partido” ou amigos dos presos cumpriam as suas tarefas para os ajudar no plano de fuga. Com a ajuda de todos, descobriram que o último andar do prédio que ficava ao lado do edifício contíguo à prisão tinha uma varanda e estava vago, para alugar. Deolinda Franco, que na altura era casada com Carlos Brito, visitou o andar nas vésperas da fuga, que fora agendada para a madrugada de 25 para 26 de maio [sábado para domingo]. Mostrou-se interessada em alugar a casa, fez perguntas, experimentou janelas ... e teve o cuidado de deixar uma aberta.

Américo de Sousa, membro do Comité Central do PCP, “foi o primeiro sair pela janela, depois de serrarmos a última grade que nos daria passagem. Eu estava especialmente ansioso. Quando chegou a minha vez, deitei-me de costas na mesa que tínhamos encostado à janela, para facilitar a saída e acalmei. Concentrei-me em cada gesto, passei os braços e a cabeça pela abertura. Desci para o algeroz, e aí vi que lá em baixo estava um guarda da GNR. Caminhei de lado, inclinado para a frente e apoiado na parede, que era recoberta de telhas como nas águas-furtadas. Juntei-me ao Américo e ajudei-o a amarrar a corda de lençóis numa janela da sala onde comíamos, um pouco mais à frente. Depois fomos até à ponta do algeroz que contornava a frontaria do edifício e acabava meio metro depois, na parede lateral. Tinha uma sensação de completo desamparo, como se boiasse no ar...”.

No pós 25 de Abril Carlos Brito foi um dos mais destacados dirigentes comunistas e líder parlamentar do PCP durante várias legislaturas. Com os já desaparecios Álvaro Cunhal, o histórico secretário-geral do PCP, e Octávio Pato

No pós 25 de Abril Carlos Brito foi um dos mais destacados dirigentes comunistas e líder parlamentar do PCP durante várias legislaturas. Com os já desaparecios Álvaro Cunhal, o histórico secretário-geral do PCP, e Octávio Pato

ARQUIVO A CAPITAL

“Lançámos a corda, e o Américo foi o primeiro a descer... e aí surgiu o primeiro contratempo: a corda tinha seis metros mas era curta. O Américo teve dificuldade em pôr os pés no telhado” do prédio ao lado. O peso do corpo do dirigente comunista, homem feito na casa dos 40, assentou no telhado com algum estrondo no sossego da noite. Os presos em fuga não tinham outro remédio senão ignorar o percalço e continuar. Apareceu Rolando Verdeal que segurou a corda para Carlos, o mais jovem do trio, poder descer. A aterragem contou com a ajuda do Américo e foi muito mais suave.

Com o trio completo, passaram pelo telhado do primeiro prédio vizinho, procurando as telhas mais seguras. Daí passaram para o segundo prédio vizinho, mesmo em frente à Sé de Lisboa, caminharam até ao beiral, e saltaram para a varanda do andar devoluto que Deolinda simulara querer arrendar.

A distância ainda era grande e voltaram a fazer barulho; houve, pelo menos, uma criança que acordou na vizinhança mas Carlos só saberia disso duas décadas mais tarde. Como ninguém tinha fechado a janela que Deolinda deixara aberta, entraram na casa, com os casacos e sapatos atados à cintura... já que o caminho pelos algerozes e telhados de Lisboa tinha sido feito em meias.

“Compusemos o cabelo, descemos as escadas como quaisquer cidadãos regressados de uma paródia noturna, e abrimos a porta da rua, que ficava a uma distância de 50 metros da sentinela da Guarda Republicana que prestava serviço à entrada do Aljube”, e andava rua acima, rua abaixo, nunca se afastando muito da porta da prisão.

GNR que montava guarda à cadeia do Aljube, frente à guarita

GNR que montava guarda à cadeia do Aljube, frente à guarita

MUSEU DA RESISTÊNCIA E LIBERDADE

“Aproveitámos o trajeto em que ia de costas para nos esgueirarmos até à esquina que era próxima, e daí seguirmos para a rua onde deveria estar um carro à nossa espera. Não estava, e este o foi o maior contratempo de todo o plano. Não tivemos outro remédio senão fazer um galope até ao Largo da Graça, onde apanhámos um táxi”, para a Rua da Escola Politécnica. A casa de contacto onde deveriam bater era numa rua perpendicular.

Por volta das 4h00 da manhã de domingo, 26 de maio − dois dias antes do 31º aniversário do golpe de 26 de Maio de 1926 − o trio de militantes comunistas em fuga do Aljube bateu à porta de Arnaldo Aboim. Foi a cunhada que veio abrir e perguntou: “Quem é?”. E eu respondi − “Sou o Carlos Brito” (risos) − ao que ela responde: “Não pode ser, esse está preso!”.

“Disse-lhe para ir chamar o cunhado” e tudo terminou em bem. Brito hesitou em revelar o nome do dono da casa de contacto. Tiques que ficam dos tempos da clandestinidade. O motorista do carro que os deveria ter transportado das imediações da cadeia julgava que o encontro seria na madrugada seguinte.

Brito passou dois anos fora da cadeia. Depois foi preso novamente e esteve sete anos no Forte de Peniche, onde continuou a dizer para si próprio que o importante era não falar. Resistiu! Talvez porque resistir tenha qualquer coisa de ato de fé, como bem sabia o pai do último sobrevivente desta fuga do Aljube.

“Vais hipotecar a tua liberdade”, avisou o pai

Anos antes, quando soube que o filho andava com ideias de se filiar no PCP, o velho Brito – que fora deputado da “ala esquerda da República” – alertou-o para os riscos da militância comunista: “Vais hipotecar grande parte da tua liberdade. Isso acontece em todos os partidos, mas no teu ainda mais”. Sabendo que os seus conselhos de pouco valeriam para demover os sonhos do filho por um mundo melhor, rematou: “Como sabes as ideias dos outros nunca me afrontaram, segue a tua vida, eu fiz o mesmo.”

Carlos só seguiu a última parte dos conselhos do velho republicano que chegou a ser deportado para Moçambique e, pouco depois de ter saído da prisão pela primeira vez, aderiu ao Partido Comunista Português (PCP), que operava na clandestinidade. “Fui contactado pelo escultor José Dias Coelho, que seria assassinado pela PIDE anos mais tarde, na casa onde vivia, ali para os lados da Mãe de Água”. Brito entendeu o convite como uma “honra”, já que o Partido – como era referido pelos militantes – “recrutava poucos jovens”. Carlos tinha provado ser um antifascista de destaque nas ações que desenvolvera no MUD-Juvenil e o PCP observou essa destreza política.

Na verdade, observar foi uma das palavras que melhor definiu a vida dos oposicionistas e polícias políticos, já que da observação dos gestos do adversário dependia a permanência em liberdade, e o sucesso das fugas da prisão.

Aljube: 30 mil presos em 37 anos

Américo de Sousa, Rolando Verdeal e Carlos Brito foram três dos cerca de 30 mil oposicionistas ao Estado Novo que experimentaram este calvário entre 1928 e 1965, ao longo dos 37 anos que esta prisão de homens esteve ao serviço da polícia política da ditadura: “Não foi ainda encontrado o livro de presos da Prisão do Aljube, pelo que não existem números rigorosos. Por relação que estabelecemos com julgamentos e fichas de presos, calcula-se que passaram cerca de 30 mil presos pelo Aljube”, diz ao Expresso Luís Farinha, diretor do Museu da Resistência e Liberdade que funciona na velha cadeia.

Para além da fuga de 1957, são de referir a fuga de 1932, onde foi morto acidentalmente um guarda. Emídio Guerreiro foi um dos seis presos evadidos. Seis anos depois, em 1938, Francisco Paulo de Oliveira − mais conhecido por Pavel − também fugiu do Aljube com a ajuda de um enfermeiro. Em 1948 foi a vez de Palma Inácio fugir sozinho.

Duas décadas depois da sua espantosa fuga, Brito foi abordado por um homem na festa do Avante, que lhe disse ser a criança que em 1957 morava no andar onde o corpo de Américo assentou com estrondo. O rapaz gritou pelo pai, dizendo que havia ladrões no telhado... e o pai mandou-o dormir, dizendo que eram apenas “gatos” que gostavam de caminhar em liberdade.

N.B. O Expresso acompanhou a visita guiada da série organizada pelo Museu do Aljube de 27 de setembro de 2016, sob o tema “Fugir da prisão do Aljube”; Carlos Brito foi o palestrante escolhido pelo Museu.
  • Helena, dos calabouços da PIDE para as redes sociais

    Helena Pato foi presa em junho de 1967. Tinha 28 anos e já era viúva. Alfredo morrera um mês depois de ser detido pela PIDE. O seu 25 de Abril chegou dois dias depois, quando o segundo marido saiu da prisão de Caxias. Foi professora do secundário e sabe que os mais novos querem conhecer a História. Foi esta uma das razões que a levaram a criar a página “Antifascistas da Resistência” no Facebook, que já tem 400 biografias e milhares de seguidores