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O sítio inacabado

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A casa de Adelina Morina não tem luz e está por terminar. Fica em Bardhosh, onde não existe uma cafetaria, um restaurante, uma hospedaria. Nada. A dez quilómetros de Pristina, a capital do Kosovo, há dois acontecimentos que unem as famílias umas às outras: são pobres e têm familiares migrados. E as casas inacabadas são a metáfora do país

Ana Marques Maia

Parti do Porto em direção a Pristina com a intenção de fazer um retrato fotográfico ou videográfico sobre migração. O Kosovo registou, entre janeiro e março de 2015, uma vaga migratória de dimensões inéditas e sem explicação aparente em direção à Alemanha. Esse facto e o de se tratar de um lugar com uma herança histórica pesada – guerra, intervenção militar externa, marginalização política – foram decisivos na escolha do meu destino de “férias”.

Entre o aeroporto e o centro de Pristina, logo à chegada, impressionou-me a quantidade de construções interrompidas e ao abandono que se viam desde a autoestrada. Ao entrar na área urbana, notei que muitos edifícios não terminados se encontravam habitados apenas ao nível do rés-do-chão – o único que tinha portas e janelas, além de tijolo e betão. A injeção de fundos internacionais criou como que uma bolha artificial de oxigénio que rapidamente se esgotou, deixando a meio uma enorme quantidade de projetos e investimentos. A paisagem kosovar é transversalmente marcada por esse abandono.

O incómodo sentido pela população face à presença militar estrangeira foi outro aspeto que me surpreendeu. Em conversa com alguns jovens kosovares, entendi que creem que a presença diplomática e militar se mantêm apenas por interesse dos próprios expats. O Kosovo, dizem, já não é um país “perigoso”. Há dois anos que não há registo de violência. O Kosovo é, no entanto, considerado um local de risco pelos países que enviam diplomatas e militares – baseados nos relatórios elaborados pelos próprios elementos destacados no país (existe um destacamento militar português no Kosovo, por exemplo - e em Mitrovica havia canecas do Benfica à venda em algumas lojas). O suposto risco inflaciona os salários, o que torna o Kosovo um destino apetecível para muitos europeus e americanos.

Durante duas semanas, aluguei um carro e percorri o Kosovo – cidades, aldeias, lugares – em busca do local ideal para documentar. Procurava uma aldeia onde poucos habitantes tivessem resistido à vaga de migração, uma que estivesse praticamente vazia. Constatei que no interior profundo a migração se faz em direção à capital. Apenas em Pristina e nos arredores se encontram histórias de migração rumo ao exterior. No final dessas duas semanas, concluí que Bardhosh era o local ideal: é uma vila vulgar, sem traços muito próprios, uma igual a tantas outras nos arredores de Pristina. A calma triste do local também foi determinante.

Dediquei uma semana a Bardhosh. Durante os primeiros dias, acompanhada de um jovem tradutor local, visitei algumas casas. Tocava à campainha, dizia ser documentarista e querer falar sobre migração. Todos me abriram a porta, todos se dispuseram a falar. Sem exceção, todos tinham uma relação próxima com a migração e viviam da receção de remessas de familiares no estrangeiro. Quando me acerquei da casa que documentei, o que me chamou a atenção foi a opulência da casa vizinha – uma moradia enorme, aparentemente luxuosa. Os donos emigraram para a Suécia logo após a guerra e lograram bons ventos. Os Morina tentam atualmente a sua sorte.

O meu trabalho videográfico e fotográfico é diverso, no que toca a temática, mas debruça-se sobretudo sobre os temas da migração e crise económica/política. O documentário que desenvolvi na Grécia, em Atenas, sobre a relação entre imigração e extrema-direita foi decisivo no rumo da minha carreira e no estabelecimento da minha identidade e assinatura enquanto documentarista. Interesso-me por cenários de caos político, social e identitário.