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Otelo: “Gostava de ir dar um abraço ao Eanes”

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A amizade de Ramalho Eanes e Otelo Saraiva de Carvalho resistiu ao golpe do 25 de Novembro, às profundas diferenças ideológicas entre os dois homens, e ao facto de terem sido rivais nas primeiras presidenciais da democracia portuguesa. Quarenta anos depois, a Fundação Gulbenkian inaugura uma exposição evocativa. Em entrevista ao Expresso, Otelo enaltece as “qualidades notáveis” de Eanes e recorda os motivos que o levaram às urnas a 27 de junho de 1976

Manuela Goucha Soares

Manuela Goucha Soares

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Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

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António Ramalho Eanes foi um Presidente polémico. Sisudo, interventivo, pareceu ser um homem de poucos diálogos em muitos momentos dos seus dois mandatos. Quatro décadas depois de ter sido eleito esta imagem mudou, e Eanes tem sérias probabilidades de ser o mais consensual Presidente da democracia portuguesa. Para isso contribui decisivamente a reputação de homem simples e despojado que inclui – entre outras recusas – a decisão de não aceitar este sábado a espada, símbolo de comando, que lhe foi entregue numa cerimónia militar em sua homenagem na Escola das Armas do Exército, pelo CEMGFA e Chefes Militares Exército, Marinha e Força Aérea.

Eanes preferiu confiar a guarda simbólica da espada ao atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, como “símbolo da confiança dos militares” no PR. Recorde-se que Eanes foi o único Presidente da República que acumulou o cargo com o de Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas.

A candidatura de António Ramalho Eanes às presidenciais de 1976 foi oficialmente apresentada a 14 de maio desse ano. Foi apoiado por 10 partidos e movmentos: PS, PPD, CDS, SEDES, MSD, PSDI, CAP, MRPP, PCP (m-l) e AOC

A candidatura de António Ramalho Eanes às presidenciais de 1976 foi oficialmente apresentada a 14 de maio desse ano. Foi apoiado por 10 partidos e movmentos: PS, PPD, CDS, SEDES, MSD, PSDI, CAP, MRPP, PCP (m-l) e AOC

ARQUIVO EXPRESSO

As homenagens ao primeiro Presidente eleito da democracia prosseguem esta segunda-feira com a inauguração na Fundação Gulbenkian, da exposição “40 anos – Eleições Presidenciais – Um Presidente para todos os Portugueses”.

Otelo, que nesse tempo “assustou o amigo Eanes”, tem receio de não poder estar na inauguração da mostra ... e deixa aqui um abraço ao homem que é o segundo PR a ser eleito com maior percentagem de votos nas nove eleições presidenciais do pós 25 de Abril; só Mário Soares, em 1991, ultrapassou a percentagem de votos de Eanes em 1976.

A 27 de junho de 1976, os portugueses elegeram o primeiro PR que se apresentou a votos. Captura de écrã com resultados parcelares (não definitivos) de Eanes, Otelo, Pinheiro de Azevedo e Octávio Pato. Eanes foi eleito com 61,59%

A 27 de junho de 1976, os portugueses elegeram o primeiro PR que se apresentou a votos. Captura de écrã com resultados parcelares (não definitivos) de Eanes, Otelo, Pinheiro de Azevedo e Octávio Pato. Eanes foi eleito com 61,59%

ARQUIVO A CAPITAL/IP

Ainda era o tempo dos candidatos militares

As primeiras eleições presidenciais da Democracia portuguesa realizaram-se 26 meses depois da Revolução dos Cravos. Até aí, o país tinha tido dois PR militares não eleitos – António de Spínola e Francisco da Costa Gomes.

Dos quatro candidatos que foram a votos a 27 de junho de 1976, três eram militares: Eanes era um homem da revolução, mas considera que o 25 de Novembro de 1975 foi o “momento mais importante da [sua] vida profissional”. Otelo Saraiva de Carvalho, um dos mais importantes estrategas do 25 de Abril, representava a ala mais radical do Movimento das Forças Armadas. Foi preso depois do golpe do 25 de Novembro, e libertado do presídio de Santarém a 3 de março de 1976, três meses e meio antes das presidenciais.

José Pinheiro de Azevedo, conhecido como o ‘almirante sem medo’, exercia o cargo de primeiro-ministro à época do sufrágio. Para a memória de muitos ficaram algumas frases mais espontâneas e menos felizes de Pinheiro de Azevedo durante a chefia do VI Governo provisório; essas ‘gafes’ acabam por não fazer justiça ao seu passado de oposição à ditadura como apoiante do MUD e das candidaturas Norton de Matos, Quintão Meireles e Humberto Delgado.

O militante comunista Octávio Pato representou o seu partido na corrida presidencial de 1976; o PCP teve 7,59% dos votos, uma das suas piores votações de sempre. Eanes conquistou 61,59% dos votos, Otelo ficou em segundo lugar com 16,46% e Pinheiro de Azevedo em terceiro com 14,37%.

Dois rostos do 25 de Abril de 1974: Otelo Saraiva de Carvalho, um dos militares que planeou o derrube da ditadura, e José Afonso, a voz de “Grândola Vila Morena”

Dois rostos do 25 de Abril de 1974: Otelo Saraiva de Carvalho, um dos militares que planeou o derrube da ditadura, e José Afonso, a voz de “Grândola Vila Morena”

ARQUIVO A CAPITAL

Em 1981, os militares tiveram a sua última participação na corrida presidencial ao longo destes 40 anos. Foi uma ‘despedida’ muito renhida e muito participada, com seis candidatos – cinco militares e um civil – a disputarem o voto dos portugueses. Numas eleições marcadas pela trágica morte de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, Eanes foi reeleito com 56,44%. Em segundo lugar ficou o general Soares Carneiro com 40,23%, e em terceiro Otelo com 1,49%.

Os outros três candidatos, Galvão de Melo, Pires Veloso e Aires Rodrigues [o único civil], tiveram todos menos de 1% dos votos, e a abstenção foi a menor de sempre nas presidenciais: 15,61%.

Otelo foi o candidato mais jovem. Eanes o mais jovem PR

Quando tomou posse a 14 de julho de 1976, António Ramalho Eanes tinha 41 anos. Foi o mais jovem PR em quatro décadas de Democracia. Otelo Saraiva de Carvalho, seu camarada de armas e maior rival nas urnas, só viria a fazer 40 anos a 31 de agosto desse ano, e foi o mais jovem candidato à presidência até hoje.

Foram preciso passar quase 40 anos, para que Marisa Matias se candidatasse à presidência com 39 anos. No entanto, estava umas semanas mais perto dos 40 do que Otelo em 1976.

Apesar da relação tensa que teve com Mário Soares – que não apoiou a sua reeleição em 1981 – Eanes, enquanto Presidente, foi conquistando o apreço dos portugueses.

Seis anos depois de ter deixado o Palácio de Belém, foi um dos passageiros do Lusitânia Expresso, na viagem até Timor, em março de 1992; esta deslocação foi feita para chamar a atenção da comunidade internacional, contra a ocupação indonésia: “Fiquei sensibilizado porque esta era uma acção promovida pela juventude, que muitos nessa época, catalogavam de ‘rasca’. Pus como condição para participar que o Estado português não discordasse desta ação” de protesto, disse na fotobiografia editada pelo Museu da Presidência.

Oito anos mais tarde, recusa ser promovido a marechal. E em 2008, recusou receber cerca de 1,3 milhões de euros em retroactivos relativos à reforma como general, que nunca recebera até então. O início deste episódio remonta a 1984, quando o Governo de então criou uma lei impedindo que o vencimento de um Presidente da República fosse acumulado “com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência que aufiram do Estado”. À época, o Presidente Eanes promulgou a lei do Executivo chefiado por Mário Soares. Quando terminou o seu segundo mandato, em 1986, Eanes optou pelos 80% do vencimento como PR, sem nunca receber a reforma de general de quatro estrelas. A lei só viria a ser alterada em junho de 2008 por insistência do Presidente Cavaco Silva, junto de José Sócrates, e após recomendação do Provedor de Justiça, Nascimento Rodrigues.

Tal como o seu amigo Otelo, já lembrou várias vezes que o 25 de Abril trouxe a liberdade a Portugal, mas nem sempre conseguiu “responder às aspirações justas e fundadas e aos interesses legítimos da maioria dos portugueses”.

A exposição “40 Anos Eleições Presidenciais – Um Presidente para todos os Portugueses”, que é inaugurada esta segunda-feira na Fundação Gulbenkian é gratuita e está patente ao público até 27 de julho. Entre as centenas de fotos e vídeos disponíveis, há imagens do Arquivo do Expresso.