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Abram alas para o maior cruzeiro de todos os tempos

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Tem tantos habitantes como muitas pequenas cidades. A sala de espetáculos leva mais pessoas do que o Teatro Nacional D. Maria II. E tem mais piscinas e escorregas do que muitos parques aquáticos. Mais do que um navio, é uma cidade sobre água que começou esta semana a cruzar os mares do Mediterrâneo. Está cansado do trabalho e apetece-lhe pelo menos sonhar com um cruzeiro? O Expresso entrou a bordo do Harmony of the Seas e mostra-lhe tudo o que pode encontrar lá dentro

A primeira sensação é de estarmos perdidos. Há elevadores que sobem e descem numa azáfama constante. Corredores que não terminam. Portas que vão dar a um espaço exterior, depois ao interior e depois novamente ao exterior. Ruas que se prolongam por vários metros até dar a outras, que por sua vez vão dar a outras ainda. Espaços fechados e depois grandes áreas abertas. É como um labirinto gigante que aguarda por ser decifrado. A segunda sensação é a de estarmos esmagados pela imensidão do espaço que nos rodeia. Isto é grande, mas mesmo grande, e tudo isto está sobre água. Estamos perdidos e esmagados, naqueles primeiros segundos em que entramos, mas a terceira sensação é de conforto. Tudo à volta é agradável: há piscinas e jacuzzis, há escorregas, há cafés e esplanadas , há teatros e campos de basquete e de mini golf. Mas isto não é nenhuma cidade, embora acabe até por sê-lo, se bem que em ponto pequeno. Isto tudo é um barco. O maior do mundo.

É quase como no atletismo: os homens e a as mulheres superam-se, até um ponto máximo de superação em que já se torna quase humanamente impossível ir mais além, e os recordes são batidos por centésimos de segundo, ou milímetros, mas são recordes. Para o caso, o Harmony of the Seas é 12 centímetros maior (em comprimento, bem entendido) que os anteriores maiores do mundo, e que na verdade são já seus irmãos (trata-se dos outros dois navios da classe Oasis que a Royal Caribbean possui, o Oasis e o Allure). Pouco maior se tivermos apenas em conta o comprimento. Porque, na realidade, o Harmony é bem mais pesado. São mais 1700 toneladas, para ser exato.

“É como visitar uma pequena cidade com os seus bairros”, compara Francisco Teixeira, o responsável pela Royal Caribbean Portugal. E, no caso desta mini-cidade flutuante, há 7 bairros distintos. Um dos mais emblemáticos é o Central Park, um grande espaço aberto no coração do navio onde os passageiros têm acesso a um jardim com mais de 10 mil espécies diferentes de plantas, e podem ainda aceder a vários restaurantes (entre eles o italiano do conhecido chefe britânico Jamie Oliver). Dá ainda acesso ao “Rising Tide”, uma bar de decoração futurista que na realidade é uma plataforma elevatória que se pode movimentar entre três decks do navio.

Uma das zonas mais emblemáticas do navio, o jardim do Central Park dá ainda acesso a restaurantes e lojas

Uma das zonas mais emblemáticas do navio, o jardim do Central Park dá ainda acesso a restaurantes e lojas

Descendo no bar elevador temos também acesso à “Royal Promenade”, o local com mais glamour do navio. Estacionado no meio da avenida, um automóvel clássico preto e reluzente capta os olhares. Tudo aqui brilha e reluz, de resto. Com destaque para as milhares de luzinhas brancas e os prateados que decoram o “Bionic Bar”, ali mesmo ao lado. Por trás do balcão temos não um barman, mas dois braços robóticos. Os clientes escolhem primeiro os ingredientes dos coktails, depois o braço que parece saído do “Exterminador Implacável” trata do ofício com mais perícia do que Brian Flanagan , o personagem de Tom Cruise no filme “Cocktail”. Depois há ainda lojas de marca, cafés com um certo ar de requinte, neons de várias cores. Até um ponto em que nos esquecemos que, na verdade, estamos dentro de um barco.

Para quem não gosta de nada disto há sempre as piscinas (vinte, no total) e os escorregas, como num verdadeiro parque aquático. Mas a grande sensação do navio não tem propriamente água. Chama-se “Ultimate Abyss”. Trata-se de um escorrega com dez decks de altura - aproximadamente uns trinta metros - cuja entrada é feita na boca de uma piranha gigante. Depois é “só” entrar num dos tubos cor de rosa e mergulhar num abismo de escuridão e velocidade até chegar lá abaixo (e, ao que parece, alguns sustos e experiências sonoras pelo caminho).

O objectivo, já se está a ver, é agradar a públicos diversos. “O desenho do próprio navio permite a que pessoas de várias idades possam usufruir do melhor tempo do seu dia a bordo sem nunca estarem parados no mesmo sítio, fixos na mesma opção”, garante Francisco Teixeira. “É isto que muitas das vezes procuramos quando visitamos uma cidade: caminhar por várias áreas, andar pela baixa, mas também pelos outros bairros”.

A tecnologia desempenha também um papel fundamental a bordo. Há monitores táteis espalhados por vários decks, bem como tablets. São eles que ajudam a que este labirinto dos mares se torne cada vez menos labirinto, e cada vez mais familiar. Os passageiros podem ainda gerir toda a sua vida a abordo através de uma simples aplicação, onde têm não apenas informações sobre o cruzeiro e as ofertas a bordo, como podem ainda, por exemplo, reservar mesa em restaurantes e marcar o lugar em vários espetáculos. Podem igualmente enviar mensagens uns aos outros. Isto a acrescentar à pulseira que todos recebem quando entram a bordo. Está equipada com GPS, para garantir que nunca ser percam, mas também permite entrar no camarote, ser usada para fazer compras ou reservas.

Mas a tecnologia desempenha ainda um outro papel importante, em especial nas cabines interiores, que não têm vista nem para o mar, nem para o Central Park. Um painel de LCDs permite formar o que a empresa chamou de “varanda virtual”. Na prática transmite imagens captadas em tempo real por câmaras que estão posicionadas no exterior da embarcação, como se de uma varanda real se tratasse.

Foram precisos mais de dois anos e meio para este novo gigante dos mares ser construído, nos estaleiros navais da STX em Saint-Nazaire, próximo de Nantes, em França. Tudo com um custo astronómico, claro está, que superou os mil milhões de euros. E como é possível construir um gigantone desta dimensão? Bem, o princípio é o mesmo do dos legos, mas em ponto mesmo muito grande. O navio é montado às peças, que depois se vão sobrepondo. Veja o seguinte vídeo em “time lapse” para perceber parte do processo de construção do Harmony of The Seas.

Como este navio, mais dois estão na calha, um deles já para 2018. Haverá procura para tudo isto? A Royal Caribbean acredita que sim. E que a questão tem de ser colocada ao contrário: a indústria está a saber criar essa procura. “Quando olhamos para o setor dos cruzeiros no global, neste momento existem 170 mil camas já em construção ou encomendadas para os próximos 8 anos”, afiança Francisco Teixeira. “Na próxima década estamos perante um crescimento do número de passageiros anual na ordem dos 10 milhões, quando neste momento são 24 milhões. Isso significa um crescimento de quase 50%, que certamente também vai ter a sua repercussão no mercado português.” Só a Royal Caribben conta neste momento com cerca de 17% de cota de mercado, e 25 navios de cruzeiro em funcionamento, de diversas classes.

O navio tem 20 restaurantes, desde o italiano do conhecido chefe Jamie Oliver à cozinha experimental do "Wonderland"

O navio tem 20 restaurantes, desde o italiano do conhecido chefe Jamie Oliver à cozinha experimental do "Wonderland"

O Harmony of the Seas fez a sua viagem inaugural no início de Junho entre Southampton, no sul de Inglaterra, e Barcelona, em Espanha. Foi a meio caminho, durante uma breve escala de 12 horas em Vigo, que o Expresso teve oportunidade de entrar a bordo. Ainda antes do percurso inaugural, a viagem de teste deu que falar. Os quatro dias entre Southampton e Roterdão, na Holanda, e depois o regresso a Inglaterra ficaram marcados por vários incidentes relatados pelos passageiros. Nomeadamente as queixas de que partes da embarcação estavam transformadas em pequenos “estaleiros”, com obras de acabamento ainda em curso; falta de água quente e problemas nas casas de banho, esperas intermináveis nas zonas de restauração. Vários colocaram fotografias nas redes sociais. Em declarações ao Expresso, o representante da Royal Caribbean em Portugal desvaloriza a polémica. “Há coisas que podem acontecer neste tipo de viagens teste que são naturais e programadas, mas que podem gerar um entendimento errado. Aquilo que possa ter acontecido uma ou outra situação, mas nada que seja anormal”.

O cruzeiro chegou a Barcelona no passado fim-de-semana, e está neste momento a fazer a sua primeira viagem pelo Mediterrâneo. São circuitos de 7 dias e 8 noites, com paragens em Itália e no sul de França. O Harmony of the Seas estará no sul da Europa até Outubro, onde fará mais de trinta cruzeiros, altura em que seguirá para Fort Lauderdale, na Florida, Estados Unidos, para iniciar a temporada de cruzeiros nas Caraíbas.

E quanto custa afinal uma viagem a bordo? Como em tudo há opções para todas as carteiras. As mais baratas nas cabines interiores podem rondar os €800 ou €900. Já as suites mais luxuosas podem facilmente atingir os €5000 por pessoa. “Mas tudo depende da antecipação com que se faz a reserva”, explica Francisco Teixeira. “Neste navio, se for com muitas antecedência, é possível adquirir pacotes 50% mais baratos. É possível ter €1000 euros de diferença se reservar um ano antes ou apenas três meses antes, por exemplo”.