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Trika e trika, campeão. Do emigrante preso na árvore ao JJ cabeça de melão

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Manuel ficou sem poder jantar em casa por castigo da mulher e sem sabe-se lá mais o quê. Guilherme ainda nem nasceu, mas já é do Benfica. Jorge não desce da árvore mas não é para ver os jogadores passar. É para ser avistado. E andava um melão à solta a noite passada no Marquês. As histórias mais incríveis da noite em que o Benfica se sagrou tricampeão nacional

Ele é do Benfica, ela é do Sporting. Ou se calhar ela nem é tanto do Sporting mas mais do contra, diz ele. Se é assim ou não, não sabemos, porque ela não saiu de casa para contar como é. Ele não podia ficar parado, e ela disse-lhe que ele ia ficar sem jantar nessa noite. “Ficou pior que estragada”, garante ele, quando ele lhe disse a ela que ia ver o Benfica dele, o campeão. O tricampeão.

Ela é assim toda caprichosa, garante ele, mas ele gosta dela mesmo assim, e já lá vão tantos anos gostando dela. Ele tem 7-1, diz mesmo assim, “tenho sete um”, e não setenta e um anos, sem se aperceber que o “sete-um” não é das melhores combinações de números para qualquer benfiquista quando o assunto é o Sporting, ou pelo menos para aqueles que ainda têm memória do que significa o “sete-um”. E a forma que ele encontra para a contrariar a ela, diz ele, é com os versos que ele tanto gosta de fazer. Os últimos foram em defesa do seu glorioso Benfica, para a atazanar a ela, ela que diz que o Sporting é o “maior, é o maior, é o maior”... (Assim mesmo, três vezes que é o maior). E vai daí Manuel fez os tais versinhos, para dizer que o maior é o seu Benfica, claro está. “Isso não tem qualquer fundamento”, disse ela, segundo ele, ao ler os versinhos marotos, em que ele lhe diz que ela lhe pode tirar tudo, tudo... até o “trika e trika”, porque não há nada melhor do que o Benfica.

Ele anda ali, nas suas sete quintas, no meio da multidão. Sorri, e sorri mais. Anda sozinho, mas isso não lhe importa nada. Anda feliz, garante ele. “Estou realizado, e satisfeito. Ando aqui à vontade.” Tinha saído de casa ainda sem saber se o Benfica seria campeão ou não. Ou, por outra... saber já sabia, a cabeça não admitia outro resultado. Ou seria talvez mais o coração. Tiago e Natércia também não tinham a certeza se iria haver festa ou não quando pegaram no carro em Alvaiázere rumo a Lisboa. Eles que tinham a festa à porta de casa, já que vivem por cima da casa do Benfica. Uma grande coincidência, garantem os dois benfiquistas ferrenhos. Mas não, não era suficiente. Nada chega ao Marquês.

É já o terceiro ano consecutivo que Tiago, 36 anos, e Natércia, 32, vêm fazer a festa a Lisboa. E este ano com duplo motivo de felicidade. O Guilherme vem a caminho, nasce em Julho. A t-shirt que a futura mamã enverga não deixa dúvidas: o Guilherme vai ser do Benfica. E se não for? “Aí vamos ter problemas”, diz o futuro pai na brincadeira. Se o Benfica voltar a ser campeão na próxima temporada, a logística vai ser complicada com um bebé que ainda não fez um ano. Mas Tiago e Natércia nem pensam em deixar de cumprir a tradição. “Se for necessário alugamos um quarto aqui perto só para vir aos festejos”, garantem.

Há pessoas em cima de semáforos. Outras no topo das placas que indicam as direções para a Praça de Espanha ou para… Benfica. Mas Jorge Ferreira está em cima de uma árvore que trepou. Para conseguir ver melhor os jogadores a passar? Não. Para ser visto. Jorge é emigrante em França há dois anos. Fez-se à estrada no carro, sem ter também a certeza se o Benfica iria ser campeão ou não. Mil e seiscentos quilómetros depois, chegou no dia do jogo da consagração, mas sem ter bilhete para assistir ao encontro no estádio. Acabou por ir festejar para o Marquês, mas perdeu-se do único familiar que o acompanhou na aventura. Com a rede de telemóvel sobrecarregada pela multidão que estava na praça, não conseguia ligar-lhe. “Esta foi uma vitória justa, sempre acreditei”. Como acredita que vai acabar por ser encontrado por quem o procura em cima da árvore.

“O menino. Deixem passar o menino”. O melão? “Não, o menino”, dizem eles. É assim que o tratam. E lá andam eles no meio da multidão com o “menino” de um lado para o outro. E o “menino” vai lá à frente para estar mais perto dos jogadores, e depois volta mais para trás quando uma ligeira escaramuça se instala entre o povo. O “menino” é uma espécie de espantalho improvisado, um melão a servir de cabeça no cimo de um pau de vassoura e adornado com uma camisola branca com riscas verdes na qual se pode ler “JJ, 35”. “Esta é para aqueles que andaram a dizer que não havia condutor para o Ferrari”, diz Pedro Antunes, um dos irmãos do “melão”. Perdão, do "menino".

Manuel já não se avista em lado algum, Talvez ainda esteja por aqui perdido na multidão. Ou talvez já tenho voltado a casa na esperança de que a mulher o “perdoe”, e de que afinal de contas hoje haja jantar para ele. Isso também não importa muito. Há coisas que hoje contam mais. Trika e trika. O Benfica é tricampeão.