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Não se sabe onde isto nos vai levar, mas é aqui que tudo começa

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NASA via Getty Images

Passaram quase um ano a ver o planeta azul da janela para um dia outros poderem olhar pelo vidro e avistarem um planeta vermelho. A missão chegou agora ao fim, mas na verdade é apenas o início de algo muito maior. No dia em que a humanidade chegar a Marte e a outros planetas há de lembrar-se também dos nomes de Scott Kelly e Mikhail Korniyenko. Eles são a primeira peça de um puzzle que fará com que num futuro não muito longínquo a realidade se aproxime dos filmes de ficção científica

A escotilha abre-se. Três homens agarram-no pelos braços e puxam-no para fora. A primeira coisa que Kelly sente quando retira o capacete é o ar fresco a bater-lhe na cara. E o cheiro a terra. Respira fundo. Mas o corpo tem dificuldade em responder. Os três homens ajudam-no a descer, enquanto outros cá em baixo agarram-no e carregam-no em braços. Em seguida sai Korniyenko. O mesmo ar fresco no rosto. O mesmo cheiro a terra. A mesma estranheza no corpo.

Mal chegam são-lhes colocadas várias ventosas no corpo com sensores. Todos os sinais são rigorosamente medidos. A missão pode ter chegado ao fim com a aterragem em segurança da cápsula espacial Soyuz no Cazaquistão, mas a experiência ainda não terminou. E não terminará tão cedo. Aliás, está agora apenas no início. Quando o homem chegar a Marte dentro de duas décadas (isto nas previsões da NASA) e a humanidade estiver a assistir a tudo com o mesmo ar de espanto com que seguiu em direto Neil Armstrong a pousar o pé na lua no final dos anos 60, provavelmente quase ninguém se vai lembrar destes dois. Mas o certo é que o norte-americano Scott Kelly, de 52 anos, e o russo Mikhail Korniyenko, 55, são a primeira peça do puzzle que vai conduzir-nos ao planeta vermelho. E, quem sabe, mais além.

Não chegou a um ano exato, apesar de a missão oficial ter esse nome, mas na verdade foram 340 os dias que os dois astronautas passaram em órbita da terra, a bordo da Estação Espacial Internacional, depois de terem partido a 27 de março do ano passado. A missão tinha como principal objetivo estudar o impacto de uma permanência tão prolongada no espaço num ambiente de gravidade zero. Entre os efeitos nocivos para o corpo humano estão a atrofia muscular, perda de densidade óssea, perturbações na visão, exposição a radiações, e isto já para não contar com os efeitos psicológicos de estar quase um ano num espaço confinado sem poder sair. “Mais de metade do tempo que estive lá em cima passei-o num espaço do tamanho de uma cabine telefónica”, recorda Kelly. É por isso que nos primeiros minutos de regresso à gravidade e à brisa fresca e ao cheiro a terra tudo parece estranho, e o corpo não sabe como responder. Por momentos, Kelly e Korniyenko são quase como extra-terrestres no seu próprio planeta.

Todos os dados dos 340 dias dos dois astronautas no espaço vão ser agora analisados, para estudar o impacto que a vida a bordo da Estação Espacial Internacional teve nos seus organismos. E há um importante termo de comparação. Mark, o gémeo de Scott, também ele um ex-astronauta da NASA, foi seguido durante o último ano em que o irmão idêntico esteve lá em cima. Assim será possível fazer a comparação entre um que passou um ano a viver uma vida pacata na terra e o outro que contou os dias a ver o planeta azul pela janela.

Durante a estadia na estação espacial, os astronautas realizaram mais de 400 experiências científicas, e Kelly saiu por três vezes para o espaço para participar em operações de manutenção. Scott fez dezenas de vídeos e publicou centenas de fotos no Twitter sobre a vida em gravidade zero. Uns mais científicos, outros mais lúdicos. Como aquela vez em que jogou ping pong… com água.

Uma das experiências mais significativas envolveu uma flor. A dada altura, Kelly já tinha perdido a esperança. As folhas estavam cobertas de fungos, resultado da humidade elevada, e quase todos julgaram que o mais provável seria que a planta morresse. Mas o comandante da missão 46 não desistiu. A meio de janeiro reparou numa primeira pétala a rebentar timidamente, depois mais outra, depois outra ainda em seguida. Dias depois, todas as pétalas se juntavam para formar um laranja muito vivo. Contra as expectativas, ali estava ela: a primeira zínia que floresceu a bordo da Estação Espacial Internacional.

A flor faz parte de um projecto da NASA intitulado “Veggie”, que existe desde maio de 2014, e que tem como objetivo o cultivo de vegetais num contexto de microgravidade, como é o caso da estação que anda em órbita da terra há já 15 anos. Foi assim que os astronautas conseguiram também fazer crescer uma alface, cujas folhas acabaram depois por comer. O objetivo é simples: se a humanidade quer aventurar-se em missões espaciais que podem demorar meses ou anos, os astronautas têm de conseguir produzir parte da sua comida no espaço. Missões como a viagem até Marte, que pode levar 8 a 9 meses a alcançar, começam por aqui. As zínias (que por acaso também são comestíveis) são apenas o início.

NASA

Não é por acaso que no dia em que Kelly e Kornienko regressaram, a atenção do administrador da NASA não se centrou no passado, mas no futuro. “Kelly tornou-se no primeiro americano a passar um ano no espaço e, ao fazê-lo, ajudou-nos a dar um passo gigante para colocarmos astronautas em Marte. Esta missão ajudou-nos a avançar na exploração espacial”, afirmou Charles Bolden.

A agência espacial norte-americana não tem dúvidas: a viagem ao planeta vermelho já teve início, e a Estação Espacial Internacional é a rampa de lançamento. Foi também o que explicou recentemente em entrevista ao Expresso Dava Newman, vice-administradora da NASA e a mulher que está à frente de uma das projetos espaciais mais ambiciosos de todos os tempos.

As missões a bordo da Estação Espacial Internacional, como a de Kelly e Kornienko, vão permitir desenvolver vários avanços tecnológicos que serão fundamentais em missões de longa duração no espaço. Mas, na prática, a estação está mesmo aqui ao lado, em órbita, a apenas 400 quilómetros da terra. Se algo de grave acontecer a bordo, a ajuda poderá estar apenas a um dia de distância. O mesmo não acontecerá numa missão de longa duração a Marte ou outros planetas e, por isso, há ainda um longo caminho a percorrer até as viagens no espaço deixarem de ser coisa apenas dos filmes de ficção científica.

Esta história pode ser longa, mas há uma certeza: já começou a ser escrita. E quando daqui a centenas de anos os humanos olharem para os livros (existirão ainda?) de História, os nomes Scott Kelly e Mikhail Korniyenko vão estar nessas páginas.

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