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As mulheres vêm de Vénus mas vão mandar em Marte

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Uma mulher, uma flor, uma nave espacial, um planeta. Esta não é uma aventura de ficção científica, é a história real da maior expedição espacial que a Humanidade tem pela frente este século. Há um “Starman” à espera no céu para nos deslumbrar a todos, como cantava David Bowie? Não. Provavelmente será uma Starwoman

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Texto e vídeo

Jornalista

João Roberto

João Roberto

Motion Graphics

Motion designer

Aquilo parecia um verdadeiro trono. O cadeirão antigo, forrado a cabedal, estava posicionado mesmo ao lado da entrada do Rialto. Era (e na verdade ainda é, quase quatro décadas depois) um dos bares e restaurantes mais emblemáticos da cidade. E a rua, situada no centro histórico de Helena, sempre foi muito movimentada. Tudo por estar na proximidade de várias lojas e edifícios do governo federal, já que a cidade é também a capital do estado norte-americano de Montana.

O dono do Rialto era um velho amigo da família de Dava, e foi assim que a miúda conseguiu aquele trono. Tinha 14 anos e queria fazer algum dinheiro. Via aqueles sapatos de executivos misturados com botas de cowboy que calcorreavam a rua do Rialto e um dia pensou para si: “Nunca vi ninguém a engraxar sapatos aqui em Helena”. Foi assim que o velho trono de cabedal se tornou na sede da sua primeira empresa: um negócio de engraxar.

Acordava todos os dias por volta das 5 ou 5 e meia da manhã para jogar basquetebol, a sua grande paixão. O que ela queria mesmo, naquela altura, era chegar um dia a jogadora profissional. Depois corria para a baixa da cidade para apanhar os clientes antes de os escritórios abrirem de manhã. E a miúda, com um certo descaramento, atirava para quem passava na rua:

Olhe que os seus sapatos já estão a precisar de ser engraxados.

E lá iam eles sentar-se no velho trono de cabedal. Anos mais tarde diria, em jeito de brincadeira, que conheceu praticamente todos os pares de sapatos de executivo e botas de cowboy da cidade.

Estávamos no final dos anos 70. O mundo vivia ainda na ressaca dos grande feitos espaciais das missões Apollo, entretanto já terminadas. Dava Newman tinha 5 anos quando viu pela televisão Neil Armstrong colocar os pés na Lua. Acompanhou os feitos dos novos exploradores do século XX, ao mesmo tempo que também ela sonhava um dia explorar novos mundos. Anos antes, em 1964, precisamente o ano em que Dava nasceu, tinha sido lançada a Mariner 4, a primeira sonda a alcançar a órbita de Marte e a enviar as primeiras imagens que a Humanidade conseguiu captar de perto de um outro planeta.

A miúda cresceu e foi procurando as coisas na vida com a mesma determinação e coragem com que montou o seu primeiro negócio de engraxar sapatos na rua com apenas 14 anos. Sem saber que, anos mais tarde, Marte estaria no seu destino.

De Helena para o Espaço

Estou a falar com a Dra. Newman?
Sim.
Daqui fala da Casa Branca. Gostaria de ser a número 2 na NASA?

Naqueles breves segundos, Dava pensou que aquilo seria uma brincadeira pelo telefone. Um aluno seu do MIT., talvez. Ou mesmo um colega professor mais brincalhão, que decidiu ligar-lhe a pregar uma partida. Mas não era. Do outro lado do telefone estava mesmo um assessor de Obama.

Passaram praticamente quatro décadas desde a infância em Montana. A mulher que recebe este telefonema é agora uma conceituada professora de aeronáutica e sistemas de engenharia no prestigiado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Boston. Isto além de há mais de uma década liderar uma equipa que tem como objetivo construir um fato espacial revolucionário que permita melhorar significativamente a experiência dos astronautas no espaço. A dra. Newman é reconhecida na comunidade científica pela sua competência e determinação e embora ela tivesse pensado nos primeiros momentos que aquilo se tratava de uma brincadeira, para muitos dos seus colegas aquele telefonema da Casa Branca não foi surpreendente.

Dava Newman com o marido, Guillermo Trotti, num juramento da tomada de posse como vice-administradora da NASA

Dava Newman com o marido, Guillermo Trotti, num juramento da tomada de posse como vice-administradora da NASA

NASA

Dava é nomeada pela administração Obama em novembro de 2014, mas é apanhada pela burocracia do sistema norte-americano. A sessão do senado chega ao fim nesse ano sem que a sua nomeação seja confirmada. Em janeiro volta a ser nomeada por Obama, e o seu nome é finalmente aprovado em abril. Enquanto vice-administradora, Newman, hoje com 52 anos, tem a seu cargo várias funções burocráticas, como auxiliar o administrador, Charles Bolden, em atos de gestão, ou representar politicamente a agência em Washington perante o congresso, a Casa Branca ou outras entidades. Esta é a parte cinzenta e aborrecida que vem com o cargo. Mas depois há a parte em que se sonha com o futuro e os novos horizontes da exploração espacial. E é também pelas mãos desta mulher que passa a coordenação de um dos maiores desafios da Humanidade para este século: levar-nos até Marte. Uma epopeia que se conta em três partes e que esconde um pormenor do qual a grande maioria das pessoas ainda não se apercebeu: é que a viagem até ao planeta vermelho já teve início.

Havia apenas duas semanas quando a esperança se tinha começado a perder. As folhas estavam cobertas de fungos, resultado da humidade elevada, e quase todos julgaram que o mais provável seria que aquelas plantas morressem. Mas o comandante não desistiu, nem os botânicos que lhe davam indicações lá em baixo, a centenas de quilómetros de distância.

E foi assim que, a meio de janeiro, Scott Kelly reparou numa primeira pétala a rebentar timidamente, depois mais outra, depois outra ainda em seguida, até que, dias depois, todas as pétalas se juntavam para formar um laranja muito vivo. Contra as expectativas, ali estava ela: a primeira zínia que floresceu a bordo da Estação Espacial Internacional.

As flores fazem parte de um projeto da NASA intitulado “Veggie”, que existe desde maio de 2014 e que tem como objetivo o cultivo de vegetais num contexto de microgravidade, como é o caso da estação que anda em órbita da terra há já 15 anos. Foi assim que os astronautas conseguiram também fazer crescer uma alface, cujas folhas acabaram depois por comer. O objetivo é simples: se a Humanidade quer aventurar-se em missões espaciais que podem demorar meses ou anos, os astronautas têm de conseguir produzir parte da sua comida no espaço. Missões como a viagem até Marte começam por aqui. As zínias (que por acaso também são comestíveis) são apenas o início.

Uma zínia laranja, a flor que nasceu na Estação Espacial Internacional pelas mãos do astronauta Scott Kelly

Uma zínia laranja, a flor que nasceu na Estação Espacial Internacional pelas mãos do astronauta Scott Kelly

NASA

O homem das flores nasceu no mesmo ano de Dava e é mais do que o atual comandante da Estação Espacial Internacional, o que já de si é um feito do qual poucos se poderão gabar de ter alcançado na vida. Scott Kelly lidera uma missão histórica. Ele e o cosmonauta russo Mikhail Korniyenko chegaram à estação em março do ano passado e vão tornar-se os primeiros homens a viver um ano inteiro no espaço (uma missão normal dura entre quatro e seis meses).

Um dos objetivos é estudar a forma como o corpo humano reage a uma estadia tão prolongada num ambiente de microgravidade, um desafio que será necessário superar em missões de longa duração para se chegar, por exemplo, até Marte, que na melhor das hipóteses está a uns oito ou nove meses de distância. A experiência pode ter vários efeitos nocivos para a saúde, como atrofia muscular, perda de densidade óssea, problemas de visão ou aumento da pressão craniana, e será preciso encontrar a melhor maneira de contrariá-los. Sendo que Scott tem uma particularidade acrescida: o irmão gémeo, Mark, já foi igualmente astronauta da NASA e no final do período de um ano será possível fazer comparações entre os dois: um que passou o ano a viver uma vida pacata na Terra e o outro que contou os dias a ver o planeta azul pela janela.

Dava e os restantes membros da NASA não têm dúvidas: a Estação Espacial Internacional é a rampa de lançamento para a missão tripulada a Marte. Além de estudarem as consequências físicas nos seres humanos, os cientistas vão poder avaliar os efeitos psicológicos de uma estadia tão prolongada no espaço. A Estação permite ainda desenvolver avanços tecnológicos que serão fundamentais em missões de longa duração. Mas, na prática, está situada a apenas 400 quilómetros da terra. Ou seja, se algo de grave acontecer, tecnicamente a ajuda estará a apenas um dia de distância. Mas estarão os astronautas preparados para resolver problemas que aconteçam no meio do meio do nada, a milhões de quilómetros de casa?

Em muitos sentidos, estar no meio de um oceano é quase como estar no meio do espaço. Talvez o fosse ainda mais há algumas décadas, quando não existiam o GPS e os modernos sistemas de navegação, mas não deixa de o ser ainda hoje em dia em muitas circunstâncias. Dava Newman sabe-o bem. Partilha com o marido, Guillermo Trotti (um arquiteto que desenhou algumas das estruturas para a Estação Espacial), uma paixão pela exploração e cenários extremos. E um dia, há 15 anos, as coisas estiveram prestes a correr mal.

Em 2001, Dava e Guillermo decidiram pegar num veleiro e fazer uma viagem de circum-navegação pelo globo. No total durou um ano e meio, durante o qual pararam em várias ilhas remotas onde deram palestras sobre o espaço e a exploração marítima. Um dia estavam a atravessar o Pacífico, em direção às ilhas Galápagos, quando o sistema hidráulico do leme avariou. De repente estavam no meio do nada, a mais de 1800 quilómetros do destino, num barco sem leme. Nesse momento, os conhecimentos de engenharia de Dava entraram em jogo. O casal tinha comprado cinco litros de azeite extra-virgem na última paragem, no Panamá. E se havia algo que Newman sabia é que o azeite tinha exatamente a mesma viscosidade do líquido hidráulico que tinha vazado por completo... Foi assim que conseguiram chegar às Galápagos à custa de um garrafão de azeite.

Hoje em dia, Dava recorda o episódio como seu momento Apollo 13, e a história serve para ilustrar uma situação importante: quando estamos num contexto extremo e nos vemos em dificuldade, é decisivo manter o sangue frio e, não raras vezes, pensar fora da caixa. A segunda parte da odisseia até Marte vai ser implementada na década de 20 deste século e consiste em cortar o cordão umbilical com a Terra. A NASA chama-lhe “Proving Ground”, a altura de provar que é possível executar uma missão que seja totalmente autónoma do apoio terrestre. Objetivo: enviar uma cápsula espacial com astronautas para o chamado espaço “cislunar”, ou seja, a órbita entre a lua e a terra. Para poder realizar essa missão, a agência espacial norte-americana tem neste momento em curso dois importantes projetos: a construção de uma nova geração de “rockets”, naquele que será o maior e mais poderoso sistema de lançamento espacial de sempre (o SLS, Space Launch System), e de uma cápsula espacial que possa levar o ser humano em missões de longa duração - a Orion.

Dava Newman visita os trabalhos de construção da cápsula espacial Orion

Dava Newman visita os trabalhos de construção da cápsula espacial Orion

NASA

O novo sistema de lançamento (recorde-se que a NASA terminou o programa de vaivéns espaciais há cinco anos e tem estado a usar as cápsulas russas Soyuz para colocar astronautas americanos na estação espacial) deverá estar pronto no final do próximo ano. Quanto ao primeiro voo tripulado da Orion, estava inicialmente previsto para 2021, mas a NASA já veio admitir que os atrasos poderão fazer com que se realize apenas em 2023. Os dois projetos deverão custar aos Estados Unidos quase 22 mil milhões de euros, qualquer coisa como 13% de toda a riqueza produzida em Portugal no espaço de um ano.

E é dessa forma que, a caminho de Marte, o homem vai voltar à lua na próxima década. Mas não existe qualquer plano para voltar a pôr os pés em solo lunar, diz a vice-administradora da NASA. “Se outras agências espaciais ou mesmo empresas privadas o quiserem fazer e tiverem essa capacidade, estão no seu direito, mas não é esse o nosso objetivo”, garante ao Expresso Dava Newman. Ao contrário do que aconteceu no anos 60, a lua não será um fim, mas apenas um meio para chegar a um fim. Será um trampolim para um novo “salto gigantesco para a Humanidade”, para usar as históricas palavras de Neil Armstrong quando pisou pela primeira vez solo lunar, a 21 de julho de 1969.

Há água em Marte, mas ainda não a podemos estudar

Enquanto prosseguem os planos para levar seres humanos pela primeira vez a Marte, aumentam também os conhecimentos sobre o próximo destino da Humanidade. A NASA tem “rovers” no planeta vermelho e sondas em órbita que enviam informações para a terra com frequência. Uma das mais recentes foi surpreendente.

No final de setembro do ano passado, a agência espacial norte-americana anunciou ter em sua posse provas concretas de água em Marte. Já se sabia da existência de gelo na calota polar do planeta, mas não de água em estado líquido. A descoberta foi feita por uma sonda que está na órbita de Marte, mas mesmo que o rover Curiosity, que está lá em baixo, se conseguisse aproximar dessa água, não a poderia estudar. Uma proibição que resulta de um tratado assinado pelos países nos anos 70 no que respeita à proteção planetária, que Dava Newman explica em entrevista ao Expresso.

Uma coisa parece certa. Marte já foi um planeta muito diferente do que vemos hoje em dia. Há três mil milhões de anos teria até um enorme oceano. Mas algo aconteceu. O planeta sofreu alterações climáticas drásticas e perdeu a água de superfície e a quase totalidade da sua atmosfera (a atmosfera marciana é de apenas 1% da atmosfera terrestre). Hoje especula-se que isso tenha acontecido por ação de ventos solares, mas há muitas questões por responder.

Já houve vida em Marte? Ainda existirá algum tipo de vida hoje em dia? O que é que aquele planeta nos pode ensinar sobre a vida no universo e as origens da vida na terra? Poderá servir de casa para a Humanidade um dia? São perguntas que só começarão a ter respostas com a chegada de seres humanos a Marte. E se é uma mulher que está a coordenar neste momento as operações em Terra, tudo indica que poderá ser uma mulher a primeira a colocar o pé no planeta vermelho.

Ou fazemos isto em conjunto ou não fazemos nada. Para eles isto é um motim.

Quando comandante Lewis diz estas palavras está a minutos de tomar uma decisão que vai expressamente contra as ordens diretas dos seus superiores da NASA. Lewis comanda uma missão a Marte que correu mal: uma tempestade levou a um abandono prematuro do planeta e um dos elementos da equipa ficou para trás, presumivelmente morto. Mas, afinal, o astronauta Mark Watney estava vivo e Lewis decide voltar para trás para o resgatar, numa missão que pode pôr em risco a vida de toda a sua tripulação.

A cena faz parte do filme “Perdido em Marte”. O ano é o de 2035. Ao comando da missão Ares 3 está Melissa Lewis, uma mulher. Ficção que dentro de alguns anos será mesmo realidade. Primeiro porque a viagem inaugural a Marte está prevista precisamente para a década de trinta deste século. Depois porque é bastante possível que seja uma mulher ao comando dessa missão, afirma Dava Newman ao Expresso. Certo é que a equipa de pioneiros será constituída, no máximo, por seis elementos e terá de ter pessoas com experiências de vida muito diversificadas.

Serão vários os desafios que os astronautas vão enfrentar quando chegarem a Marte. E para superá-los vão precisar, em primeiro lugar, de um novo fato espacial, bem diferente daquele que Neil Armstrong usava quando pisou a lua. Dava Newman conhece bem esta área: grande parte da sua carreira foi dedicada a investigar um novo fato que pudesse dotar os astronautas de maior liberdade de movimentos num contexto como Marte. Dessa investigação nasceu o Biosuit, que de início foi financiado pela NASA e que nos anos recentes contou apenas com o apoio de fundos académicos.

Outro dos desafios passa por tornar Marte num planeta habitável no futuro, como no cenário traçado em “Perdido em Marte”. Para isso será necessário que os astronautas consigam viver do solo marciano e uma das primeiras questões passa por conseguir produzir oxigénio em Marte. O certo é que, como explicou ao Expresso a vice-administradora da NASA, as primeiras experiências vão ser feitas no planeta vermelho ainda antes de qualquer astronauta colocar os pés em Marte.

Se tudo correr bem, dentro de duas décadas a Humanidade estará a olhar para a primeira mulher, ou homem, a pôr os pés em Marte com os mesmos olhos de espanto com que olhou para as imagens de Neil Armstrong a pisar a lua há quase meio século. E os privilegiados que irão a Marte poderão estar a ser escolhidos por esta altura. A NASA tem em curso um processo de seleção de novos astronautas, que encerra a 18 de fevereiro.

O que se segue agora é um “spoiler espacial” e, caso não tenha visto ainda o filme “Perdidos em Marte”, o melhor é terminar a leitura do artigo no final desta frase. Lewis acabou por tomar a decisão correta. Mark Watney, o astronauta abandonado em Marte, conseguiu ser resgatado, depois de mais de um ano a viver no planeta, durante o qual teve até de plantar batatas numa estufa improvisada. Mas, para Mark, o mais tortuoso de tudo nem era a atmosfera de Marte, mas antes a playlist de músicas que a comandante Lewis deixou para trás. Só que ali no meio dos ABBA, de Glória Gaynoe e todo o disco sound dos anos 80, Watney ainda conseguiu uma faixa com um título que lhe assentava que nem uma luva: “Starman”. Foi feita pelo único marciano que algum dia habitou a terra.

There's a starman waiting in the sky
He’d like to come and meet us
But he thinks he'd blow our minds
There's a starman waiting in the sky
He´s told us not to blow it
Cause he knows it's all worthwhile