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O vagabundo dos mares do sul que desapareceu para se salvar

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O mundo espantou-se com ele, a quem chamavam “vagabundo dos mares do sul” e também “o francês louco”. Foi um dos homens que ousaram uma das grandes aventuras da humanidade - navegar sozinho à volta da Terra sem qualquer paragem ou assistência. Foi num tempo em que partir para o alto mar era quase pior do que ir ao espaço: não havia localização GPS, as comunicações rádio eram rudimentares, usava-se ainda o sextante para determinar a posição através da leitura dos astros. Ele não quis saber: fez-se ao mar, mas não numa sexta-feira - isso não. “Os marinheiros não partem às sextas-feiras. Mesmo que não sejam supersticiosos.” E deixou uma mulher incompreendida em terra. “Quando parti, Françoise não estava feliz. Temos de sacrificar uma coisa pela outra. Temos de escolher entre a nossa vida e uma mulher. E tem de ser a tua vida, sem hesitação.” A incrível história de Bernard Moitessier, que trocou tudo pelo mar e o céu

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Texto

Jornalista

João Roberto

João Roberto

Motion Graphics

Motion designer

“Essa ideia dá-me vómitos.” Bernard atirou a frase à cara do homem com desdém. O outro ficou lívido. Estavam ambos sentados numa mesa num pequeno “bistrô” da zona portuária de Toulon, no sul de França. Nem pensar que aceitaria aquela proposta, disse ao homem que estava sentado à sua frente. “Não estou para entrar em circos, senhor Sayle. Essas coisas pertencem ao domínio do sagrado.” Bernard Moitessier levantou-se, furioso, e deixou o café de forma intempestiva. Murray Sayle, que estava ali enviado pelo jornal britânico “Sunday Times”, ficou perplexo. Tinha deixado escapar entre os dedos o homem que poderia ser a maior garantia de sucesso para a grande ideia que os patrões dele tinham tido há apenas algumas semanas.

Quase um ano depois, uma pequena lata cai no convés do navio petroleiro “British Argosy”, que estava fundeado ao largo da cidade do Cabo, na África do Sul. Um dos marinheiros apanhou-a e lá dentro encontrou um papel com uma curta mensagem escrita. A última frase dizia: “Faço isto possivelmente para salvar a minha alma”. O marinheiro olhou em redor e avistou um pequeno veleiro a afastar-se. O casco, pintado de vermelho, tinha escrito “Joshua”. A bordo estava um homem de cabelo e barba compridos, em tronco nu, a segurar uma fisga na mão direita com a qual tinha acabado de projetar a lata para dentro do petroleiro. Não tomava banho com sabonete há meses. O homem da fisga chamava-se Bernard Moitessier.

Bernard Moitessier a bordo do seu veleiro

Bernard Moitessier a bordo do seu veleiro

O vagabundo dos mares do sul

“Vai Bernard, acerta-lhe com força”, gritava o irmão, enquanto atirava uma lata ao ar. E as pequenas pedras que saiam a toda a velocidade da fisga raramente falhavam o alvo. Era a brincadeira preferida do menino que nasceu em 1925 no seio de uma família privilegiada na Indochina Francesa, atualmente Vietname. Bernard Moitessier viu a infância feliz chegar ao fim quando o Japão invadiu o território, em plena segunda guerra mundial. O pai era um homem de negócios colonial da velha guarda e a família chegou a estar presa. Depois da grande guerra serviu na marinha francesa, mas apenas para ver o seu país ser devastado por mais um conflito sangrento, desta vez a guerra civil nos anos que se seguiriam. Primeiro perdeu o irmão. Depois um dos melhores amigos. Bernard não aguentava mais.

Com 27 anos, decidiu partir. Comprou uma pequena embarcação em muito mau estado. Muitos marinheiros experientes não hesitariam mesmo em chamar-lhe um belo pedaço de sucata. Deu-lhe o nome de “Marie Thérese”, o mesmo nome de uma namorada que tinha deixado para trás na Indochina. As mulheres que se cruzariam com ele ao longo da vida aprenderiam isso depressa: Bernard pertence àquele género de homens que ninguém poderá algum dia prender. O jovem Moitessier fez-se ao mar com pouca experiência e acabaria por naufragar quase quatro meses depois, no meio do Oceano Índico. Sobreviveu e viveu três anos nas ilhas Maurícias, onde trabalhou para juntar dinheiro e construir o seu próprio barco de raiz. E assim nasceu o “Marie Therese II”, que Bernard navegou desta feita pelo Oceano Atlântico. Destino final: novo naufrágio, agora nas Caraíbas. Sobrevive mais uma vez.

Pensou em começar tudo de novo, em construir um novo barco. Mas alguém lhe disse que ali não haveria futuro: Bernard deveria tentar a sorte na Europa. Foi assim que arranjou emprego num navio de carga que o levaria até Hamburgo, e daí seguiria para França. Aos 30 anos tinha já uma longa lista de aventuras pelas costas. Decidiu passar tudo para o papel. Escreveu um livro em que relata as suas experiências marítimas, e ao qual chamou “Vagabundo dos mares do sul”. Foi, de imediato, um best-seller. Moitessier ganha rapidamente o respeito da comunidade náutica e a vida corre-lhe bem. Ao mesmo tempo reencontra Françoise, uma antiga amiga de infância. Casam-se em 1961, depois do divórcio dela, e Bernard toma os três filhos do anterior casamento de Françoise como seus.

Com o dinheiro ganho com as vendas do livro lança-se ao seu grande objetivo: construir o seu veleiro de sonho, um barco que, desta feita, seja para durar… Jean Knocker, um dos mais conceituados designers náuticos franceses, oferece-se para desenhar a futura embarcação do lendário “vagabundo dos mares do sul”. O veleiro, de 14 metros, fica pronto no mesmo ano do casamento. O seu nome? Joshua. Uma homenagem a Joshua Scolum, o primeiro homem a completar sozinho uma viagem de circum-navegação. Anos mais tarde, este barco foi protagonista de uma história que iria espantar o mundo.

Plano do Joshua

Plano do Joshua

A maior aventura do mundo

Segunda metade da década de 60. O mundo vive com entusiasmo a exploração espacial. O homem está cada vez mais próximo de pisar a lua. Mas enquanto os Estados Unidos terão o seu Neil Armstrong, o Reino Unido irá glorificar o seu herói na terra. Não um astronauta, mas um argonauta. Em maio de 1967, Francis Chichester é recebido por uma multidão em delírio no porto de Plymouth. Tinha acabado de terminar uma viagem solitária à volta do mundo, no incrível tempo de 226 dias. Pelo meio uma única paragem, na Áustralia. Tudo isto feito por um homem de 66 anos, que anos antes tinha sido diagnosticado com um cancro do pulmão, e que muitos duvidavam à partida que pudesse sequer completar a aventura. Quando pousou os pés de novo em Plymouth, Chichester tinha a glória garantida: semanas depois seria ordenado pela rainha cavaleiro da real ordem britânica.

Mas, por muito impressionante que fosse, não era um efeito inultrapassável. Moitessier e um punhado de outros homens sabiam disso. Havia algo que nunca ninguém tinha feito até ao momento, nem mesmo Chichester: navegar sozinho à volta do mundo sem qualquer paragem ou assistência. Essa sim, seria a glória suprema. E é assim que, na primavera de 1968, meia dúzia de homens têm já em curso preparações para uma aventura do género.

O “Sunday Times”, que tinha patrocinado a viagem de Chichester, não quis perder a onda. Foi dessa forma que os donos do jornal surgiram com uma ideia: a “Golden Globe Race”, uma prova que juntasse todos os navegadores que quisessem aventurar-se no desafio. As regras seriam simples: um homem, um barco, nenhuma escala ou paragem, nenhuma ajuda ou assistência durante a viagem à volta do mundo, três cabos míticos para dobrar: Boa Esperança, Leeuwin e o temido Cabo Horn, conhecido por muitos como o “Cemitério dos Mares”. Nunca ninguém tinha feito isso. Ninguém sabia sequer se seria possível. Na altura, partir para o alto mar era quase pior do que ir ao espaço: não havia localização GPS, as comunicações rádio eram rudimentares, usava-se ainda o sextante para determinar a posição através da leitura dos astros. Era possível um navegador solitário estar meses e meses desaparecido no meio do oceano sem que ninguém conseguisse saber do seu paradeiro ou se estaria vivo ou morto.

Havia dois prémios em jogo: um globo de ouro para o primeiro a chegar e 5 mil libras para o mais rápido. A escolha da data e do porto de partida é livre, desde que a saída se realize entre 1 de junho e 31 de outubro. Assim, um concorrente podia até partir mais tarde, mas fazer o percurso em menos tempo, arrematando o tão desejado prémio monetário. Na primavera de 68 há alguns homens interessados em entrar na prova, mas nenhum nome com capacidade suficiente para arrastar multidões e encantar o imaginário coletivo. Apenas um poderia vir a ter tal efeito mediático: o lendário navegador francês Bernard Moitessier. Moitessier, na altura com 42 anos, já tinha em curso os seus próprios preparativos para uma viagem independente à volta do mundo e já tinha inclusivamente assinado o contrato para o livro que iria escrever sobre a épica aventura que ainda iria ter. E é aí que o Times decide agir e enviar um emissário ao sul de França.

A primeira abordagem redunda num falhanço total. Moitessier recusa a ideia de uma corrida à volta do mundo e os fins comerciais da mesma (uma aparente contradição, uma vez que ele próprio tinha enriquecido à custa das vendas do livro em que conta as suas aventuras no mar). Insulta o emissário, Murray Sayle, no encontro que decorreu naquele pequeno café na cidade portuária. O “Sunday Times” teme pelo evento: o francês louco poderia partir e chegar a Toulon por sua conta própria e iria ridicularizar completamente a corrida que estava a ser organizada pelo jornal. Chegam mesmo a mudar as regras iniciais: já não é necessário sair de um porto no Reino Unido, basta que o ponto de partida esteja a norte dos 40 graus de latitude. Ou seja, um certo francês poderia até partir de Toulon e entrar na corrida à mesma…

Sayle voltou à carga dias depois para tentar convencer Bernard. Mas desta vez não foram precisas muitas palavras. Moitessier tinha mudado de ideias. Disse-lhe que entrava na corrida e que inclusivamente partiria de Plymouth, o porto onde Chichester tinha sido elevado a herói no ano anterior. Mas avisou que, se ganhasse, descontaria o cheque sem sequer agradecer e leiloaria de imediato o globo de ouro. Era esta a forma que encontrava para mostrar o desprezo pelo Times, disse-lhe Moitessier - um francês ganhar a grande corrida organizada pelos orgulhosos ingleses.

É a nossa vida ou uma mulher

Está uma bela tarde de julho. O tipo vem a enrolar um cigarro à proa enquanto o barco parece que navega sozinho para dentro do porto. Nigel olha para a cena com algum espanto. Nunca tinha visto um veleiro assim. Os mastros são antigos postes telefónicos reaproveitados. O gurupés é em aço, não há qualquer adorno em madeira e até os acabamentos da pintura parecem simples e meio toscos. Nigel Tetley dá-lhe as boas-vindas, e pergunta o nome do barco. “Joshua”, responde com sotaque francês o homem que enrola o cigarro.

Tetley, um comandante da Royal Navy de 44 anos que vivia num trimarã aportado em Plymouth, tinha decidido entrar na corrida semanas antes, quando viu o anúncio da Golden Globe Race no jornal. “Se quiseres ir não sou eu que te impeço”, disse-lhe a mulher, Eve, depois de ele lhe ter pedido permissão meio a medo. Nos dias que se seguiriam outros dois concorrentes iriam juntar-se a Tetley e Moitessier em Plymouth: Loick Fougeron, um francês amigo de Bernard, e o britânico Bill King, um oficial da marinha britânica. Outros três concorrentes já tinham partido e estavam por esta altura no mar. Entre eles o mais destacado era Robin Knox-Johsnton, outro oficial da marinha, de 27 anos. A completar o leque de nove concorrentes iriam estar, mais tarde, Alex Carozzo, considerado o “Chichester italiano”, e o praticamente desconhecido Donald Crowhurst, cuja incrível história iria ofuscar a corrida para sempre.

Antes da partida, o “Sunday Times” tentou dar um rádio transmissor a Moitessier, para que este pudesse enviar informações de forma regular durante todo o percurso, ou sempre que tal fosse possível. O francês recusou. “A bem da minha paz de espírito”, foi a razão que invocou na altura. A alternativa sugerida para as comunicações iria deixar os comissários da prova de boca aberta: iria usar fisgas para enviar pequenos recados para os barcos que passassem em redor, que introduziria dentro de latas que seriam projetadas. “Uma fisga vale mais do que todos os transmissores do mundo”, disse-lhes.

Moitessier treina com a fisga no porto de Plymouth, em Inglaterra

Moitessier treina com a fisga no porto de Plymouth, em Inglaterra

Quinta-feira, 22 de agosto. As previsões apontam para ventos favoráveis, mas indicam nevoeiro, que pode ser cerrado. Bernard não quer esperar por sábado e sexta-feira nem pensar. “Os marinheiros não partem às sextas-feiras. Mesmo que não sejam supersticiosos”. Françoise, a mulher, chora enquanto Moitessier levanta as velas. Mais tarde, o francês recordaria o episódio desta forma: “Quando parti, Françoise não estava feliz. Temos de sacrificar uma coisa pela outra. Temos de escolher entre a nossa vida e uma mulher. E tem de ser a tua vida, sem hesitação”.

Mas Moitessier não cabia em si de contentamento por regressar ao mar. “Não se pergunta a uma gaivota porque é que precisa de desaparecer de tempos a tempos rumo ao mar aberto. Ela simplesmente vai, tão simples como isso.” No íntimo do seu coração, Françoise sabia disso. Só não sabia que não o voltaria a ver.

Os dois franceses, Moitessier e Fougeron, partem de Plymouth lado a lado. Bernard enverga apenas uns calções de banho vermelhos, da cor do casco do Joshua, e, com o tronco a descoberto, vai ajustando as velas enquanto enrola mais um cigarro. Apesar da pose descontraída, ele sabia que estava prestes a embarcar na grande aventura da sua vida. Os últimos meses tinham sido passados a preparar o Joshua ao pormenor para uma viagem destas características. Tirou-lhe o motor, quilos de correntes desnecessárias, pilhas de livros e cartas oceanográficas de sítios para os quais não teria qualquer necessidade de ir. Joshua foi reduzido praticamente ao essencial. Estava mais leve e muito mais rápido. Os primeiros dias de corrida iriam comprovar isso mesmo.

Solidão no meio do nada

20 de outubro, um domingo. Um dos oficiais do cargueiro leva o dedo indicador ao meio da testa como que a dizer “este tipo é maluco”. Moitessier tinha acabado de usar a fisga para enviar uma lata para a embarcação que estava ali por perto, numa pequena baía não muito longe da Cidade do Cabo, na África do Sul. De seguida gritou “mensagem, mensagem”, perante os olhos esbugalhados dos marinheiros. “A esta distância podia acertar sem qualquer problema nos chapéus dos três” com pequenas bolas de chumbo, gaba-se no diário de bordo. Os outros recebem a mensagem e as embarcações aproximam-se e ficam por momentos lado a lado. Bernard consegue atirar um primeiro pacote com rolos de filmes e cartas para o convés do navio, mas quando quer atirar o segundo descuida a navegação: o veleiro embate com o cargueiro a estibordo. O resistente mastro central, que noutra vida tinha sido um poste telefónico, aguenta o choque. Mas o gurupés - o mastro que se projeta para diante da proa do navio - fica torto. Moitessier conseguirá arranjá-lo dias depois. Mas aprende a lição.

As notícias do encontro chegam a Inglaterra. O “Sunday Times” fica impressionado com a velocidade do francês e o tempo que ele precisou até chegar ao Cabo da Boa Esperança. O jornal coloca-o agora como favorito à vitória, a par do britânico Knox-Johnston, que embora tendo partido mais cedo a bordo do veleiro “Suhaili” estava a ser mais lento. A este ritmo, Moitessier poderia estar de volta em abril do ano seguinte, projeta o “Times”. Mas, por esta altura, dois concorrentes estavam ainda por sair (um deles, Donald Crowhurst, iria mesmo reclamar, dois meses mais tarde, o recorde do mundo para a maior distância percorrida num só dia no mar…).

Durante os próximos dias, Bernard cola-se ao rádio (não tinha levado transmissor mas aceitou levar a bordo um recetor, para ouvir noticias e as previsões meteorológicas), mas não ouve qualquer notícia da corrida, nem de si, nem dos amigos que tinha feito em Plymouth. “Onde estão Bill King, Loick, Fougeron?”, questiona-se. “Esperava ter notícias da BBC, depois de ter entregue a minha mensagem ao cargueiro. Nem uma referência. Estou a jogar sozinho com o mar inteiro, sozinho no passado, presente e futuro. Talvez seja melhor assim… mas gostaria de ter notícias dos meus amigos.”

O Índico irá atrasá-lo. Joshua enfrenta mau tempo e ventos contrários. Ondas gigantes desafiam a agilidade do veleiro. O ânimo de Moitessier vai abaixo, agravado pelo facto de não conseguir notícias dos amigos que também estão em prova. Emagreceu e sente-se cansado. E, pela primeira vez, questiona-se e questiona o sentido de tudo aquilo.

O lendário “vagabundo dos mares do sul” agarra-se então às memórias da infância, na Indochina, onde andava de um lado para o outro na floresta, descalço e com a fisga sempre na mão. Escreve no diário de bordo: “Quando eu era criança, a minha mãe disse-me que Deus pintou o céu de azul porque era a cor da esperança. Ele deve ter pintado o mar de azul pela mesma razão”. Mas há um livro em especial que vai mudar a sua viagem.

Há quase dez anos que Moitessier sofria de uma úlcera no estômago. Nos últimos dias, visivelmente mais magro e deprimido, a condição tinha voltado a dar-lhe motivos de preocupação. Um problema de saúde semelhante levou de resto à desistência da corrida de Alex Carozzo. O italiano sentiu-se mal ao largo de Portugal e, impossibilitado de continuar, foi recolhido no meio do mar pela Força Aérea portuguesa a 14 de novembro e transportado para o hospital no Porto. De resto, dos 9 concorrentes à partida, apenas quatro se encontravam ainda em prova nesta altura, os outros já tinham desistido. Os resistentes eram Moitessier, o amigo Nigel Tetley, Robin Knox-Johston e o enigmático Donald Crowhurst.

Um dia, entre os livros que ainda conservava a bordo e não tinha deitado fora para tornar o barco mais leve, Moitessier descobre um manual de ioga para principiantes que lhe tinha sido oferecido por um amigo um ano antes. A partir daí começa a praticar todos os dias no convés do Joshua, onde passaria horas a meditar na posição de lótus. Mais tarde diria que o ioga o ajudou a encontrar-se e a superar as dificuldades da viagem. E, não menos importante, os problemas de úlcera passaram.

As 6 mil milhas que separam o Cabo da Boa Esperança da Tasmânia foram percorridas a uma média mais lenta. Mas ainda assim estava a aproximar-se de Knox-Johnston, que seguia na frente. E as perspetivas de chegar ao final em primeiro eram boas, mesmo que a ideia de uma “corrida” ou “competição” fosse algo que Moitessier desprezava.

Percurso de Moitessier pelo Oceano Índico entre meados de outubro e inícios de dezembro

Percurso de Moitessier pelo Oceano Índico entre meados de outubro e inícios de dezembro

O pequeno planeta vermelho no meio do mar

Varley Wisby e os dois filhos estavam à pesca no seu pequeno barco na costa da Tasmânia quando avistam um reflexo muito brilhante ao longe no mar. Momentos depois veem um pequeno veleiro de casco vermelho a navegar na sua direção. Lá dentro segue um homem sozinho que faz um jogo com um pequeno espelho para atrair os raios de sol. Tem o cabelo comprido desgrenhado e a barba grisalha mais comprida que os miúdos Wisby já tinham visto na vida. As embarcações estão agora quase lado a lado e o homem da barba grisalha atira um pacote para dentro do outro barco com rolos de filmes e mensagens escritas. Diz-lhes que está numa corrida e que aquelas informações deviam ser entregues ao “Sunday Times”, em Londres.

Depois do incidente com o cargueiro no Cabo da Boa Esperança, Moitessier tinha jurado que não iria mais colocar em risco a viagem e a segurança do barco. Mas a necessidade de enviar noticias à família, depois de quase dois meses sem contacto, e de tentar saber notícias dos amigos levou-o a aproximar-se de novo de uma embarcação. E, mais uma vez, nenhuma notícia dos outros. Moitessier estava sozinho. Escreve no diário: “Se calhar a BBC está contra a ideia desta viagem como uma corrida. Mas eles estavam a fazer a cobertura em Plymouth...Quatro amigos saem mais ou menos ao mesmo tempo para uma viagem à volta do mundo e ninguém lhes dá informações sobre onde é que os outros estão?! Não preciso de nada, só gostava de ter notícias deles de tempos a tempos”. Não sabia, mas, a meio de dezembro de 1968, apenas um dos seus três amigos estava ainda em prova: Nigel Tetley. Os outros dois, o francês Fougeron e o britânico King, já tinham desistido. E, no desejo de ter algo que o conseguisse pôr em contacto com os outros, Moitessier acaba por antecipar em várias décadas os telemóveis modernos: “Um dia teremos pequenos walkie-talkies que não serão maiores do que um maço de cigarros, com um alcance de milhares de quilómetros. Aí, os amigos poderão comunicar sem a necessidade de intermediação de outros”.

Por esta altura, Bernard já tinha passado o Cabo Leeuwin, na Áustralia, o segundo dos três que precisava de dobrar na aventura à volta do mundo. É Natal e está agora ao largo da Nova Zelândia. Sente-se novamente sozinho. “Tenho tudo o que preciso aqui: calma, estrelas, paz. Mas falta-me o calor das pessoas e sinto-me deprimido.” Abre uma das três garrafas de champanhe que o designer do barco, Jean Knocker, lhe tinha dado para levar na viagem e abrir logo após a passagem de cada um dos três míticos cabos. Dias antes tinha construído dois pequenos barquinhos de madeira, que colocou à deriva do mar com mensagens. “A vida seria muito triste se, de vez em quando, não acreditássemos no Pai Natal”, escreve. (O certo é que os dois pequenos barcos acabariam mesmo por ser encontrados um ano depois, nas costas da Austrália e da Tasmânia. As mensagens chegaram ao seu destino e estavam perfeitamente legíveis.)

Dias depois, o universo oferece-lhe um espetáculo inusitado. Um grupo de cerca de 30 toninhas rodeia o Joshua e executa uma “dança” em torno do veleiro quase perfeitamente coordenada. Moitessier está sozinho mas sente-se finalmente acompanhado. Ele está em comunhão com a natureza, com os peixes, com os pássaros que o seguem e pousam todos os dias no convés do veleiro, com as estrelas. Ele está a dar uma volta ao mundo, mas encontrou o seu próprio planeta. (as ilustrações que servem de base a este trabalho pertencem ao próprio Bernard Moitessier)

E os deuses domaram o grande monstro

As três mulheres aparecem lado a lado no convés de um barco, sorridentes. Por baixo da imagem que ilustra o artigo de jornal, um título: “As viúvas do mar que eles deixaram para trás”. As fotografias foram tiradas dentro de uma embarcação que estava acostada no rio Tamisa. Nelas apareciam Clare Crowhurst, Eve Tetley e Françoise de Cazalet Moitessier. A meio de janeiro de 1969, o “Sunday Times” decidiu fazer um artigo com as mulheres dos homens ainda em prova - era mais um golpe publicitário para promover a decurso da sua grande corrida. Faltaria apenas a esposa do quarto concorrente ainda no mar, Knox-Johnston, que era solteiro.

Françoise mostrou logo ali ser diferente das outras. Declarou que a sua própria ambição era ser a primeira mulher a fazer também, um dia, uma viagem de circum-navegação sem parar em qualquer lugar. E, na verdade, ela já tinha experiência de mar. Cinco anos antes tinha estado com Bernard na primeira grande viagem do Joshua depois de o veleiro ter sido construído. Deixaram os três filhos num colégio interno em França e cruzaram o Atlântico, passaram o canal do Panamá e percorreram o Pacífico até ao Taiti. No regresso optaram pelo caminho mais rápido: rumaram a sul em direção ao Cabo Horn, a ponta mais a sul do continente americano, para depois subir novamente a norte em direção à Europa.

O Horn era um dos locais mais temidos do mundo para qualquer homem do mar. A confluência do dois Oceanos, o Pacífico e o Atlântico, as correntes e as ondas não raras vezes violentas e o mau tempo frequente faz com que seja um dos pontos mais difíceis de passar numa viagem à volta do mares. O “cemitério dos mares” já viu muitos barcos e marinheiros cederem à sua fúria. Foi ali que Bernard e Françoise apanharam uma das mais violentas tempestades da sua vida no regresso à Europa. Foi ali que Moitessier cometeu erros que podiam ter custado caro. Temeu pela sua vida e a da mulher. Mas sobreviveu e a experiência vivida dava-lhe agora uma vantagem: ele e o Joshua eram os únicos em prova que já tinham um dia passado aquele cabo.

Percurso de Moitessier pelo Oceano Pacífico entre meados de dezembro e inícios de fevereiro

Percurso de Moitessier pelo Oceano Pacífico entre meados de dezembro e inícios de fevereiro

O Pacifico foi cruzado a grande velocidade. Joshua chegou a fazer mais de mil milhas náuticas numa semana (para se ter uma ideia, são mais de dois mil quilómetros). Moitessier estava em perfeita sintonia com o veleiro e Joshua com ele. Preparou-se exaustivamente para o Horn. Antes da viagem tinha escrito a 15 experientes marinheiros que já tinham passado pelo cabo várias vezes para obter conselhos úteis dos velhos homens do mar. Uma das suas grandes preocupações era a possibilidade de um iceberg vindo da Antártida se atravessar no seu caminho, algo que seria bastante possível nesta época do ano.

Mas os deuses estavam com Moitessier desta vez. Dias antes de cruzar o cabo, o céu noturno ilumina-se de várias cores, como se os deuses estivessem a dar-lhe um sinal. Bernard testemunhava uma “aurora austral”. “Contemplei-a durante quase uma hora, nunca tinha visto nada tão belo na vida.”

Era um sinal do Universo. O Horn é dobrado a 5 de fevereiro, perante um mar relativamente calmo. Moitessier tem até tempo de pegar na pequena máquina de filmar que a BBC lhe tinha dado para fazer imagens do temível rochedo que estava agora ali à vista, a poucas milhas de distância. Mas, para um homem do mar, um cabo é muito mais do que um rochedo ou uma dança infernal de correntes violentas. “Para nós um grande cabo não pode ser apenas explicado em longitude e latitude, como para um geógrafo. Um grande cabo é uma mistura muito simples e complicada de pedras, correntes, ondas enormes, ventos ligeiros e fortes, alegrias e medos, fadigas, sonhos, mãos doridas, estômagos vazios, momentos maravilhosos e por vezes de sofrimento. Um grande cabo tem uma alma, com as suas sombras e cores muito suaves e muito violentas. Uma alma tão suave como a de uma criança e ao mesmo tempo tão dura quanto a de um criminoso. E é por isso que nós vamos.”

Estava vencido o último grande obstáculo. “Sinto-me feliz, alegre, comovido. Quero rir, dizer piadas e rezar, tudo ao mesmo tempo.” A partir de agora, o francês tinha o caminho livre para regressar a Plymouth e reclamar o prémio de vencedor da corrida. O que o mundo não saberia é que ele não iria regressar. Era um desejo que já crescia há muito dentro dele.

Não se parte do nada para voltar ao nada

“Plymouth está tão perto, a apenas 10 mil milhas a norte… Mas, neste momento, sair de Plymouth e voltar a Plymouth parece-me como sair do nada e regressar ao nada.” Moitessier há muito que tinha tomado a decisão no seu interior, mas só agora o admite para si próprio: ele não quer regressar. Ele não quer voltar à Europa, ser recebido e idolatrado por multidões em êxtase, reclamar dinheiro de um prémio de uma viagem que ele não vê como uma competição, mas como uma descoberta de si próprio. Sente-se doente só com o pensamento de voltar para aquele mundo. Mas não sabe como explicar essa decisão aos que estão lá, não sabe como lhes dizer sem eles pensarem que ele enlouqueceu de vez.

Pensa em seguir viagem sem paragens pelo Pacífico, mas a família vem-lhe ao pensamento. Estariam sem sinais de vida dele durante meses se não dissesse nada agora. Por isso, em vez de seguir uma rota mais a sul, aponta de novo ao Cabo da Boa Esperança.

A meio de março de 1969, quando o mundo pensa que Moitessier se aproxima cada vez mais de Plymouth, o francês está na verdade novamente ao largo da cidade do Cabo, na África do Sul. Mete todo o material - filmes, fotografias das imagens de bordo, cartas - dentro de uma espécie de “jerrycan”. Se algo lhe acontecesse, o editor teria todo o material necessário para escrever o livro por ele e a segurança financeira da sua família estaria garantida. Atrai uma lancha que navega por perto com o reflexo brilhante do sol no seu pequeno espelho e atira o “jerrycan” para dentro da outra embarcação. Pede que aquilo seja entregue ao cônsul britânico.

Quando se dirige novamente rumo a alto mar cruza-se com o petroleiro “British Argosy”, que estava ali fundeado. Usa uma última vez a sua fisga para projetar uma lata para o convés do petroleiro. Lá dentro, os oficiais encontrarão um papel com uma mensagem dirigida ao editor de Moitessier.

“Querido Robert. O Horn foi dobrado a 5 de fevereiro. Hoje é 18 de março. Vou continuar sem parar até às ilhas do Pacífico, porque estou feliz no mar e possivelmente também para salvar a minha alma.”

Bernard estava finalmente em paz com o universo.

A notícia fez manchete nos jornais britânicos e franceses. O mundo estava em choque. Françoise soube também pela imprensa. E também ela ficou chocada. Anos mais tarde, contaria o episódio num documentário sobre a “Golden Globe Race” de 1968: “A minha filha chorou durante três dias e três noites e perguntou-me: mamã, o que vamos fazer agora? Eu disse-lhe: vamos continuar a viver”.

No seu íntimo, Françoise saberia talvez desde o início que Bernard não iria regressar daquela viagem. Sabia-o quando afirmou que não se pode impedir um pássaro de voar. Foi uma decisão puramente egoísta? Talvez. Mas, no meio de toda a dor, Françoise conseguia compreendê-lo. “Ali, no meio daquela imensidão do oceano, tu és um pequeno deus aos teus próprios olhos. E penso que Bernard encontrou o seu universo.”

Seria a história mais incrível que iria marcar aquela corrida, não fosse, meses mais tarde, um outro concorrente ter surpreendido o mundo com algo ainda mais impressionante. Chamava-se Donald Crowhurst.

Mais tarde, Moitessier escreverá um livro sobre a viagem. Em “O Caminho mais longo” mistura parte do diário de bordo com outras reflexões e explica porque decidiu continuar a navegar rumo ao horizonte. Demorou dois anos a escrever o livro e, no final, renunciou a todos os direitos comerciais do mesmo. Disse ao editor para doar esses direitos ao Papa, a fim de ajudar à reconstrução do mundo. E, se o Vaticano não aceitasse, o dinheiro teria como destino uma organização não-governamental na área do ambiente. O livro acabou por ser um sucesso e é ainda hoje uma das referências da literatura marítima.

O Expresso selecionou algumas dessas reflexões feitas por Bernard Moitessier em “O Caminho mais Longo”. A música que acompanha o vídeo em baixo chama-se precisamente “Moitessier” e foi feita em homenagem ao lendário navegador pelo projeto de música eletrónica britânico North Cape.

O que aconteceu a Moitessier após desistir da corrida?

“Joshua, estás em paz.” A âncora está finalmente em baixo, após dez longos meses de viagem pelo mar. Ao aproximar-se da ilha, Moitessier tinha já avistado algumas embarcações atracadas naquele pequeno porto. Algumas delas eram-lhe familiares.

Depois de passar o Cabo da Boa Esperança, Bernard e Joshua voltaram a atravessar o Índico e entraram no Pacífico. Moitessier tinha dois destinos em mente quando desistiu da corrida e virou o barco: ou o Taiti, no meio do Pacifico, ou as mais desertas e distantes ilhas Galápagos. Acabou por escolher a primeira hipótese, onde já tinha estado com Françoise há 3 anos, e tinha algumas pessoas conhecidas.

No final tinha dado uma volta e meia ao mundo, num total de 37.455 milhas náuticas, mais de 60 mil quilómetros, sem nunca ter parado. Um recorde absoluto.

Moitessier sente-se em paz no Taiti. Não regressa para Françoise e apaixona-se por outra mulher, Ileana Draghici, uma refugiada romena. Em 1972, Ileana fica grávida de gémeos, mas após um parto prematuro apenas um sobrevive. Nasce Stephan Moitessier. Stephan vive hoje em dia nos Estados Unidos, onde trabalhou como fotojornalista em Nova Iorque e agora é um artista na área da animação vídeo. O Expresso tentou várias vezes falar com ele, mas sem sucesso. Ao longo dos anos foi sempre muito reservado em falar publicamente sobre a história do pai.

Bernard mudou-se depois para um atol da Polinésia, onde viveu três anos com Ileana e Stephan, na própria casa de madeira que ele construiu para os três. Tornou-se num ativista ambiental. Em 1980, em má situação financeira, a família muda-se para a California, nos Estados Unidos, onde Moitessier espera usar as imagens gravadas durante a viagem à volta do mundo para fazer um filme sobre as suas aventuras. Mas não teve sucesso.

Dois anos depois parte para o México a bordo do Joshua na companhia do polémico ator alemão Klaus Kinski, que lhe tinha pago para Moitessier lhe ensinar a vida do mar. A 8 de dezembro, uma violenta tempestade atinge o Cabo San Lucas, onde o veleiro está fundeado. Joshua e 25 outras embarcações são arrastados para a costa e destruídos pela força do temporal. Sem meios financeiros para o recuperar, decide vender o mítico barco no local, o seu velho companheiro de aventuras. Por 20 dólares.

Moitessier morreu em França a 6 de junho de 1994, aos 69 anos. Está enterrado numa campa discreta no cemitério de Bono, na Bretanha. Além da família, é visitado ocasionalmente por quem se lembra do lendário navegador e da sua história. Às vezes, os visitantes deixam-lhe fisgas em cima da campa.

O que é feito do Joshua?

O veleiro foi restaurado por um navegador americano e voltou mesmo ao mar. Alguns anos depois, é comprado pelo Museu Marítimo de La Rochelle, em França, onde está desde 1990. Está classificado como monumento nacional e participa ocasionalmente em algumas regatas e eventos marítimos.

Em 2000, um navegador francês, Jacques Peignon, levou o veleiro sem permissão do museu para fazer uma corrida pelo Atlântico. Ao chegar aos Estados Unidos foi intercetado e o barco foi resgatado. Entre a equipa de quatro homens encarregados de levar o Joshua de volta a casa estava Stephan Moitessier, filho de Bernard.

As histórias de François Moitessier e de Donald Crowhurst, de tão inacreditáveis, acabariam por ofuscar o feito do grande vencedor da corrida de 1968. Dos nove concorrentes à partida, Robin Knox-Johnston foi o único a conseguir completar a prova, chegando a Inglaterra a 22 de abril de 1969, após 312 dias no mar. Antes e depois da prova foi avaliado por um psiquiatra. Em ambas as situações, a avaliação foi precisamente a mesma: “anormalmente normal”. Knox-Johnston tinha partido a uma sexta-feira, o dia que todos os outros evitaram porque dava azar

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    Esta é uma história sobre ilusões e deceções, glórias imaginadas e fracassos comoventes. E sobre tudo o que os homens estão dispostos a fazer para não desiludirem os que verdadeiramente amam. Começa com um barco que é encontrado misteriosamente à deriva no Atlântico e acaba com uma interrogação: o que teríamos feito de diferente no lugar deste homem?