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Os Poços da Broca da Serra da Estrela e o Carlos, o truticultor dos mil ofícios

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Quando descobri que na região de Seia existiam pelo menos três POÇOS, chamados DA BROCA, fiquei intrigado com a coincidência e fui lá tentar perceber o porquê. No viveiro de trutas de Aguincho conheci o Carlos, o empreendedor beirão desta história, que me desvendou o mistério

João Paulo Galacho (texto e imagens), Carlos Paes (infografia) e João Santos Duarte (edição vídeo)

POÇO FUNDEIRO O poço da broca da aldeia de Muro, na ribeira de Loriga, tem nome próprio. É uma lagoa grande e muito bonita. Chega-se à sua beira a pé, por um caminho que não sendo muito difícil, afasta os 'banhistas da lancheira'

POÇO FUNDEIRO O poço da broca da aldeia de Muro, na ribeira de Loriga, tem nome próprio. É uma lagoa grande e muito bonita. Chega-se à sua beira a pé, por um caminho que não sendo muito difícil, afasta os 'banhistas da lancheira'

joão paulo galacho

O maciço do planalto superior da serra da Estrela marca o horizonte. São paredes imponentes, despidas de vegetação, que contrastam com os férteis vales que as  ribeiras de Loriga e de Alvoco escavaram na sua correria serra abaixo.  

Nestes vales o sol e a água nunca faltaram, os grandes desníveis sempre resguardaram as terras das inclemências do vento, e semente que caísse à terra era semente que medrava.

O vale de Loriga no seu início, junto à Praia Fluvial de Loriga
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O vale de Loriga no seu início, junto à Praia Fluvial de Loriga

João Paulo Galacho

O vale de Alvoco
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O vale de Alvoco

joão paulo galacho

Mas este sítio abençoado para a agricultura tinha um senão: faltavam terras planas, suficientemente vastas para permitirem a uma junta de bois lavrá-las. Os homens perceberam isso e com muito engenho - e não menos trabalho - fizeram obra.

Aplanaram depressões, despedraram os campos mais perto das aldeias, e aproveitaram o xisto, por sorte uma pedra branda que se lasca em placas facilmente empilháveis, para erigir muros e muretes que nivelaram as courelas.

A vila de Loriga
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A vila de Loriga

joão paulo galacho

A aldeia de Outeiro da Vinha, implantada a meia encosta, vista das margens da ribeira de Alvoco
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A aldeia de Outeiro da Vinha, implantada a meia encosta, vista das margens da ribeira de Alvoco

joão paulo galacho

Pormenor nas imediações de Outeiro da Vinha. Os casões foram abandonados mas a vinha continua verdejante. Fazer a própria ‘pinga’ é um orgulho desta gente
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Pormenor nas imediações de Outeiro da Vinha. Os casões foram abandonados mas a vinha continua verdejante. Fazer a própria ‘pinga’ é um orgulho desta gente

joão paulo galacho

Construíram ainda quilómetros de levadas para transportar a água até às terras mais distantes da ribeira, e erigiram moinhos e lagares que lhes moeram os cereais e a azeitona. 

E semearam centeio, milho, cebolas, batatas e couves; plantaram vinha, castanheiros, sobreiros e oliveiras, cerejeiras e laranjeiras, e com os cuidados devidos tudo se dava. 

O ATREVIMENTO MAIOR, OS POÇOS DA BROCA

Mas alguém, há mais de 200 anos, ao admirar a ribeira do alto de um cabeço, percebeu que se lhe conseguisse desviar o curso ganhava uma nova área de cultivo.

O Poço da Broca da Barriosa é o mais conhecido. Está junto à estrada, tem uma agradável zona de banhos, e o Guarda Rios - um ótimo restaurante, ali à beira, com vistas para o poço/espelho de água
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O Poço da Broca da Barriosa é o mais conhecido. Está junto à estrada, tem uma agradável zona de banhos, e o Guarda Rios - um ótimo restaurante, ali à beira, com vistas para o poço/espelho de água

joão paulo galacho

O Poço da Broca de Aguincho, sem água a correr em meados de setembro
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O Poço da Broca de Aguincho, sem água a correr em meados de setembro

joão paulo galacho

O Poço Fundeiro de Muro
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O Poço Fundeiro de Muro

joão paulo galacho

E esse alguém, se bem o pensou, melhor o executou. Partilhou a sua visão com os vizinhos, arquitetaram um plano, e no pino do verão, quando a ribeira seca à superfície, ousaram avançar com a obra.  

Represaram o leito natural da ribeira e abriram um canal, imediatamente antes, para obrigar as águas a correrem por um novo leito. Setembro chegou, as primeiras chuvas caíram, e a obra foi testada com sucesso. A represa conteve as águas e obrigou-as a desviarem-se no sentido pretendido.  

E no antigo leito da ribeira nasceu um dos campos mais produtivo das redondezas. Os vizinhos das aldeias em redor ouviram falar na obra, foram vê-la e, sem questionarem direitos de autor, replicaram-na nas suas aldeias.  

 O BÓNUS DA OUSADIA  

E o curioso é que estas obras trouxeram outros benefícios para além de novos campos agrícolas. 

Normalmente novo leito ficava num plano mais baixo e formava-se uma cascata. E então, o ditado que sentencia que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura confirmou-se: a cada ano que passava o poço para onde a água se despenhava crescia em extensão e em profundidade. 

A malta nova ganhou uma piscina e mesmo os mais velhos, sem casas de banho em casa, começaram a aproveitar a nova lagoa para tomarem o seu banho em dia de festa. Dizia-me um velhote, na aldeia de Muro, quando lhe perguntei onde era o poço da broca da localidade:  

“As melhores recordações que tenho da infância são desse sítio. Juntavam-se lá as crianças da aldeia e a nossa brincadeira era dar mergulhos das rochas. Havia sempre algum que subia para uma pedra mais alta, e logo outro, que se sentia desafiado, subia para outro sítio ainda mais alto e pumba, ‘amandava-se’ lá de cima. Bons tempos….”

E HOJE EM DIA?

O labor de muitos homens e mulheres durante séculos continua visível. Os poços da broca lá estão, os infindáveis muretes idem. 

Só que hoje é mais fácil ver uma águia no céu do que gente a trabalhar nos campos.

RARIDADE. Pessoas a trabalhar os campos. E a presença de uma criança ainda torna o quadro mais singular

RARIDADE. Pessoas a trabalhar os campos. E a presença de uma criança ainda torna o quadro mais singular

joão Paulo galacho

A emigração sangrou as aldeias. As cidades atraíram os mais ambiciosos e os famigerados serviços, trabalho mais clean, deram a machadada final na mão-de-obra mais capaz destas aldeias. 

E depois de tantas décadas de trabalho coletivo estes vales encantados desertificaram-se e só ficaram os mais velhos. Mas, de há uns anos para cá, existe um grupo de irredutíveis beirões que voltaram às origens e que 'meteram as mãos na terra'. E é a história de um deles, o Carlos, que eu tive o prazer de conhecer, que se segue. 

CARLOS, O EMPREENDEDOR 

Mesmo atrás da represa que obrigou as águas da ribeira de Alvoco a correr para o Poço da Broca de Aguincho, estão vários tanques de cimento onde Carlos Jesus de Brito cria as suas trutas. 

Logo depois do viveiro está um lago e, à sua beira, uma casa e uma ampla esplanada. Encostadas a um canto estão várias canas de pesca prontas para quem queira testar os dotes de pescador no lago – desde que no fim pese o peixe capturado e o pague.

A truticultura do Aguincho. Os tanques de engorda das trutas
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A truticultura do Aguincho. Os tanques de engorda das trutas

joão paulo galacho

O lago onde se podem pescar
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O lago onde se podem pescar

joão paulo galacho

As agradáveis esplanadas onde se podem deglutir
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As agradáveis esplanadas onde se podem deglutir

joão paulo galacho

Na cozinha, na extremidade da casa, o óleo que vai fritar as trutas já chia, o panelão de água fervente está cheio de batatas e no chão, junto ao poial, está um balde com uma dúzia de peixes aos saltos. A Marina, mulher do Carlos, fatia tomates para um grande alguidar, e a filha, a Marta, de 13 anos, entra e sai da cozinha numa grande azáfama para conseguir ataviar as mesas a tempo. 

 O Carlos está no balcão a fatiar o pão, e a encher os jarros de vinho e os pires de azeitonas. Olha na minha direção e propõe-me: 

“Quer vir comigo? Tenho de ir apanhar mais trutas. Afinal tenho mais clientes para o almoço”. 

Sigo-o. De camaroeiro na mão aproxima-se do tanque, agarra numa mão cheia de ração, atira-a para o lago e, logo a seguir, rapidíssimo, mergulha o camaroeiro no sítio onde caiu a ração. Quando o retira da água está cheio de peixes aos saltos que despeja para um balde. Repete a operação mais umas vezes, quase sempre com êxito, e diz-me: “Já devem chegar”. 

O CARLOS A PESCAR. Pela boca morre o peixe. E neste caso nem é preciso um anzol. Basta um camaroeiro nas mãos de alguém habituado a manejá-lo com eficiência e uma mão cheia de ração

O CARLOS A PESCAR. Pela boca morre o peixe. E neste caso nem é preciso um anzol. Basta um camaroeiro nas mãos de alguém habituado a manejá-lo com eficiência e uma mão cheia de ração

joão paulo galacho

Para além de criar trutas o Carlos cuida de uma horta, de um pomar, engorda dois porcos, faz o seu próprio vinho, o azeite, e também aposta na aguardente de medronho. E, respirem, ainda lhe sobra tempo para explorar um bar em Loriga.

NATUREZA BEM VIVA. E não morta como sói dizer-se. Os legumes e frutos da produção do Carlos estavam bem vivos/frescos

NATUREZA BEM VIVA. E não morta como sói dizer-se. Os legumes e frutos da produção do Carlos estavam bem vivos/frescos

joão paulo galacho

Esteve emigrado cinco anos na Suíça mas: “as saudades da terra davam cabo de mim. Olhe que cheguei a enviar 500 contos por mês para Portugal. Mas vim-me embora. Aqui trabalho muito mas é onde sou feliz”. 

E para terminar só falta dizer que eu, que nunca apreciei trutas, adorei as do Carlos. Fresquíssimas, fritas a preceito, crocantes q.b.. Só deixei no prato a espinha central. Até as cabeças marcharam. A acompanhar o peixe vem uma bela salada, batatas cozidas, e um pratinho de feijão manteiga. Encerra-se a refeição com uma fruta, um café, e se 'chorar' um pouco pode ser que convença o Carlos a levá-lo à adega para provar o seu medronho. É ótimo. 

 “Sabe, tudo o que comeu é da minha produção”, diz-me o Carlos orgulhoso. E com razão, digo eu.