Siga-nos

Perfil

Expresso

Multimédia

Hás de voltar aqui para ser palhaço comigo outra vez

  • 333

No início dos anos 50, em Portugal, a casa dele era diferente da casa da maioria das pessoas: tinha rodas e andava de terra em terra, com uma tenda de chapa de zinco e uma pista no ar e umas quantas lâmpadas para iluminar o espaço a que se chamava circo e que passado pouco tempo seria desmontado para voltar a ser montado numa terra diferente. É a história de Walter, que é a também a história do maior espetáculo do mundo e ainda a história do espetáculo que já não é o maior. Walter, ele que conta que lhe contaram que já não devia estar aqui: “No IPO dizem que sou mesmo um fenómeno de circo, mágico”

Joana Beleza

Joana Beleza

Texto e vídeo

João Carlos Santos

João Carlos Santos

Fotografia

Fotojornalista

João Roberto

João Roberto

Pós-produção vídeo

Motion designer

Vasco Carrondo

Tratamento de imagem

Walter Dias, o palhaço Carpanta: “Digo sempre isto: sou um homem que tem mais memórias do que vida”

João Carlos Santos

Walter tinha quatro anos quando começou a fazer o número de palhaço, ao lado do pai, e por isso cresceu sem conhecer outro modo de vida. Numas terras era bom ir à escola porque a lição já tinha sido estudada na vila anterior e ele “era visto como o menino do circo muito esperto”, noutras era mau porque a escola estava avançada e ele atrasado na matéria. Nas terras onde as coisas corriam bem e se faziam amigos dava pena sair, mas nas terras onde as coisas corriam menos bem era favorável ter aquela vida em movimento. O que nunca mudava era a família. Apesar de viver numa casa com rodas, a família de Walter era como todas as famílias e, por isso, um dia, como qualquer adolescente, ele decidiu fugir.

“Foi uma guerra com o meu pai. Fugi uma primeira vez, em Espanha, mas ele apanhou-me a descarregar camionetas de sal para ganhar algum dinheiro e comer. Voltámos para o circo e ele não me fez nada, não se revoltou. Mas depois arranjei um passaporte e disse-lhe:

- Não me podes prender aqui.

Na altura, eu tinha um acordeão, um trompete e os fatos de palhaço, mas ele respondeu-me:

- Daqui não levas nada.

O meu pai tentava que o filho não fosse embora, mas eu sempre fui muito cabeçudo… Ainda o ouvi dizer: hás de voltar aqui para ser palhaço comigo outra vez. E respondi-lhe:

- Palhaço é que não, nunca mais… Fiz mal, cuspi para o ar e caiu-me na cara.

Sentado, do lado esquerdo da foto, está Walter, com três dos cinco irmãos. Todos nasceram, cresceram e trabalharam no circo

Sentado, do lado esquerdo da foto, está Walter, com três dos cinco irmãos. Todos nasceram, cresceram e trabalharam no circo

Arquivo de Walter Dias

Se fosse de brincar seria um caleidoscópio

Palhaço, acrobata, equilibrista, domador de feras, pugilista, chefe de sala em nightclubs, vigilante de discotecas, instrutor de kickboxing, empresário de circo, homem do som, homem das luzes, vendedor de bilhetes, fazedor de pipocas e tratador de animais - Walter Porto Dias da Silva foi tudo isso em menos de 63 anos. No boxe era o Silva, no circo era o Porto, no mundo empresarial era e é o Walter Dias. Se fosse de brincar seria um caleidoscópio.

Graças ao circo, Walter conhece todos os países da Europa, exceto a Escandinávia, e alguns do Oriente próximo. Tem uma filha adulta, dois filhos com menos de dez anos e um quarto a caminho. Nasceu em Portugal, mas viveu algum tempo em Espanha e muito mais em Itália. Foi lá que casou e que arriscou entrar no mundo dos negócios, onde ganhou muito dinheiro. “Só casei uma vez. Aliás, sou casado há mais anos do que os anos da minha mulher mais recente. Complicado, não é? É a vida.” Walter teve um casamento oficial e quatro uniões de facto. Diz que vive assim: “tão depressa mato um homem como choro por ele, sem meias medidas”. E foi sem meias medidas que amou e desamou, ganhou e perdeu. Nos melhores anos teve carros de topo, motas de alta cilindrada, boas casas, salários gordos, muitos combates de boxe, um circo enorme, várias noites de espetáculo seguidas. Até que perto dos 50 diagnosticaram-lhe um cancro na garganta, com uma previsão de 12 meses de vida. O homem forte, que chegou a pesar 120 quilos de músculo, não consegue segurar as lágrimas: “No IPO dizem que sou mesmo um fenómeno de circo, mágico. Não só continuo vivo como consigo falar. Era suposto ter perdido a voz. Era suposto já não estar aqui.”

Fotografia de arquivo. Walter Dias, deitado, num número de acrobacia no Circo Atlas

Fotografia de arquivo. Walter Dias, deitado, num número de acrobacia no Circo Atlas

Walter baixa a camisola e mostra a cicatriz que vai de um lado ao outro do pescoço. A luz que ilumina a cena é a do meio da tarde, num descampado onde foi montado o circo. Atrás de Walter estão quatro atrelados, três caravanas e uma dúzia de animais de diferentes espécies. “O maior espetáculo do mundo” é pequeno e está numa aldeia pequena e meio deserta de Palmela, o Poceirão, para duas sessões de circo - uma no sábado à noite, outra domingo à tarde. “Hoje é sexta-feira e não quero falar sobre cancro. Não quero pensar na morte. Vamos jogar no Euromilhões. Você está aqui para me dar sorte. Acredito nisso, acredito mesmo.”

O dono do circo tem uma atitude positiva em relação a tudo. Até quando só vende 15 bilhetes no sábado à noite e logo depois afirma que “as pessoas do Poceirão estão a guardar-se para a matiné de domingo”. “Amanhã é que vai ser o grande dia, vou ter de ir buscar cadeiras e montar mais uma bancada. Amanhã é que vai ser.”

O circo é uma das mais antigas manifestações artísticas do mundo e, goste-se ou não de lá ir, quando se pensa na lona colorida aparecem logo a pista iluminada e a cara do palhaço, o truque de magia e o número dos animais exóticos. O imaginário circense faz parte da cultura ocidental e arrasta consigo uma mão cheia de ideias feitas. “A senhora jornalista veio cá tirar-nos uma fotografia pitoresca ao lado da rulote e a seguir vai embora, não é?”, ironiza Carlos Monteiro, artista de circo, cofundador do Atlas e cunhado de Walter Dias. Daqui a poucas horas estará a vender pipocas, depois irá vestir-se de cowboy para ser o primeiro a entrar na pista. Com um número de laços, chicotes e punhais há de cantar, saltar e fazer habilidades. Passado uma hora voltará vestido de palhaço: “Nós aqui fazemos um pouco de tudo. Eletricidade, carpintaria, montagem, número de circo, tratamos dos animais e tudo o que for preciso. Ser do circo é assim”, diz Carlos, não sem um pouco de nostalgia pelos tempos em que aquele modo de vida dava sustento a várias famílias e havia homens para tudo. Durante anos andaram de terra em terra com espetáculos esgotados. As bilheteiras eram pouco sofisticadas mas faturavam muito por noite.

Depois veio a televisão e os hábitos culturais mudaram. O circo teve de fazer um esforço para se modernizar e acompanhar as inovações tecnológicas. Hoje, debaixo da lona, as maiores companhias apresentam shows multimédia, com jogos de luzes laser, grandes ecrãs e bons sistemas de som. Por isso, assistir a um espetáculo no circo Atlas é quase como entrar na máquina do tempo e cair num passado em que o circo era só riqueza humana. Mas hoje o que isto tem de “vintage” tem também de exiguidade - “o maior espetáculo do mundo” dura uma hora e meia com o mínimo humano possível: uma apresentadora, dois palhaços e um domador de reptéis. Todos eles nasceram em famílias de circo, viajaram muito e treinaram várias artes. O que fazem agora é segurar a vida pelas pontas.

Carlos Monteiro, nome artístico “Monterrey”, durante o número com laços. Na plateia estavam menos de 30 pessoas

Carlos Monteiro, nome artístico “Monterrey”, durante o número com laços. Na plateia estavam menos de 30 pessoas

João Carlos Santos

Foto do arquivo de Carlos, publicada numa rede social com o título “Quantos têm o privilégio de sentir bater o coração de uma fera no seu peito?”

Foto do arquivo de Carlos, publicada numa rede social com o título “Quantos têm o privilégio de sentir bater o coração de uma fera no seu peito?”

Há quem defenda que o primeiro artista de circo foi aquele homem das cavernas que, depois de uma boa caçada, se aproximou dos companheiros aos saltos e, com alguns gestos de alegria, despertou gargalhadas nos outros.

Com o tempo, a superioridade do homem afirmou-se através do domínio dos outros animais e por isso supõe-se que desde os primórdios as outras espécies tenham estado sempre presentes no circo. Nas grandes civilizações antigas, desde a chinesa à egípcia, há sinais desta arte com desenhos de domadores, acrobatas, equilibristas e contorcionistas. O que no início certamente significava força e agilidade, provável sinal de perícia militar, com o tempo passou a ser harmonioso e belo e transformou-se em entretenimento.

No Império Romano, o circo ganhou uma enorme vitalidade com espetáculos de excentricidades - homens louros nórdicos, animais exóticos, engolidores de fogo. Mas apresentava também números de gladiadores e de execução de pessoas comidas por feras, coisa que com a crescente influência da cultura cristã foi entrando em decadência. Os artistas passaram a ser perseguidos pelas autoridades religiosas e por isso tornaram-se nómadas. Chegaram ao século XVIII como grupos de saltimbancos marginais que andavam de terra em terra em busca de lucro e algum respeito. Os seus espetáculos imorais e excêntricos tanto provocavam fascínio como maledicência e esses sentimentos de amor-ódio pelas tribos circenses chegaram aos dias de hoje.

Companhia de circo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, nos anos 50

Companhia de circo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, nos anos 50

Ao sabor do tempo o circo foi sabendo como se adaptar e as famílias com maiores tradições estabeleceram-se nos países da Europa, Estados Unidos e América Latina. O grande golpe chegou no fim do século XX, com a defesa dos direitos dos animais e a consequente condenação do uso dos mesmos pelas companhias de circo.

No que diz respeito à legislação portuguesa, em 2009 a portaria 1226/2009 proibiu a reprodução e compra de animais selvagens pelos circos. Grande parte das espécies foram salvaguardadas como espécies protegidas, mas, para o corte na prática circense não ser radical, quem já tinha animais teve autorização para os manter. Foi o caso de Viller Viotti, domador de serpentes e de crocodilos, que vê nesta lei o maior problema do circo. “Não sou contra a defesa dos animais, mas não sou radical. Em Itália, os defensores dos animais são iguais a terroristas. Boicotam espetáculos, pintam as caravanas do circo, etc etc. Em Itália, como em Portugal, os nossos animais são todos legais e bem tratados. Eles defendem que esses animais devem estar em liberdade. Concordo. Então, liberto os meus crocodilos no Tejo? Não, não pode ser. A grande maioria dos animais do circo nasceu em cativeiro, logo não pode ser solto. Temos o caso do lince que é libertado e passado uma ou duas semanas morre atropelado. Não estava melhor num centro, bem alimentado e bem tratado? Creio que sim.”

Os animais de Viller hão de acompanhá-lo até à morte, nem que tenha de mudar de país, por causa das leis. Aos 58 anos, este domador nascido numa família de acrobatas italianos tem um crocodilo e dois jacarés, uma píton albina, uma anaconda amarela e uma serpente. “Gosto mais de cobras e de crocodilos porque são mais sinceros, só atacam de frente. Os meus animais são tratados com as mãos, por isso é normal ser mordido, não é grave. Na pista já vi domadores morrerem à mão de leões que tinham sido criados desde pequenos por eles. Os leões matam por matar.

Viller Viotti, nome artístico Sam Sharakem, durante o número com os crocodilos e jacarés

Viller Viotti, nome artístico Sam Sharakem, durante o número com os crocodilos e jacarés

João Carlos Santos

João Carlos Santos

Viller é apresentado por Carmelita Conduto, a atual pivô do espetáculo, como “a grande atração internacional” do Circo Atlas. Também ela nasceu num circo e nos anos 60 chegou a atuar como malabarista para salas com mais de cinco mil espetadores. “O meu pai era o grande ilusionista Dom Aguinaldo e aos 7 anos eu já fazia o número de levitação com ele. Tenho três irmãs e todas nós fizemos vida no circo. Antes éramos muitos, tinhamos muitos colegas, mas depois foi reduzindo, reduzindo... Cheguei a sair para trabalhar num externato. Estive lá seis meses, mas a rotina cansava-me. No Atlas estou há quatro anos e há alturas em que não fazemos espetáculo por falta de público. Não sei onde isto vai parar assim.”

Fotografia do arquivo pessoal de Carmelita

Fotografia do arquivo pessoal de Carmelita

João Carlos Santos

Além de Carmelita, existe Pedro, o polaco. Fala um bocadinho de espanhol, um bocadinho de russo, um bocadinho de italiano, um bocadinho de alemão e um bocadinho de português, o suficiente para dizer que gosta muito do sol e do calor e por isso passa temporadas no circo Atlas a tratar dos animais e a ajudar durante os números de circo. Em troca recebe comida e guarida: “Não sou do circo, os meus pais não eram do circo. Andei pela Europa toda e fiz muitas coisas na vida. Agora estou aqui e estou bem”. É o máximo que conseguimos saber dele.

Depois de alimentar e escovar os póneis e as cabras, Pedro prepara-se para mudar de roupa e ajudar durante o espetáculo

Depois de alimentar e escovar os póneis e as cabras, Pedro prepara-se para mudar de roupa e ajudar durante o espetáculo

João Carlos Santos

Quem vem ao longe e avista a tenda e as bandeiras de Portugal percebe depressa que o circo chegou à aldeia, mas só quem se aproxima é que repara nos detalhes. Onde antes existia uma bilheteira com imagens de palhaços coloridos hoje há apenas vestígios desbotados. O próprio tipo de letra do slogan de “Walter Dias - o maior espetáculo do mundo” faz lembrar a assinatura de Walt Disney, o que remete logo para um imaginário de fantasia, cor e alegria. Uma das frases mais famosas do produtor e artista americano é mais ou menos assim:

- Tudo o que faças fá-lo bem. Fá-lo tão bem que assim que as pessoas te vejam queiram voltar para ver novamente e queiram trazer outras pessoas para que vejam como fazes isso tão bem.

O rasto desse sonho é o caminho que Walter Dias imagina à sua frente. Tudo o que faz quer fazer bem. E acredita que no dia seguinte a sala vai encher: “Estou a começar de novo. Perdi tudo e recomecei. Sou o palhaço Carpanta e tenho quatro anos outra vez.”