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O silêncio é de ouro? Na Beira Alta é sexy

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É mais velha do que nós todos: a linha ferroviária da Beira Alta fez 133 anos em 2015 e fomos à procura da gente que habita o caminho que ela percorre. Partimos com vontade de descobrir lugares e pessoas, curiosidades e costumes. Descobrimos terras cheias de pouca gente e que faz do partilhar tudo o que tem o ideal de bem receber. Sempre se disse que “onde comem três comem quatro”. Na Beira Alta comem dez

A aldeia de Trezoi, concelho de Mortágua, foi a primeira paragem. Às 18h57, no apeadeiro, lá estava Filipe. 38 anos, antigo camionista de curso internacional, hoje um dos dinamizadores da Associação Cultural e Recreativa de Vale de Mouro, aldeia vizinha de Trezoi, com cerca de 50 habitantes, na sua maioria idosos. "Boa tarde! Temos de ir além buscar borregos", apresenta-se.

O "além" é em Quilho, mais uma aldeia vizinha, outra com 50 habitantes, onde a tradição ainda é o que era. Chegados a casa do sr. Augusto, é servido um copo de vinho tinto fresco. Caseiro. Acompanha-se com pão, presunto e queijo, só depois se apanha o borrego. Um ritual cumprido religiosamente.

Lâmpada fosca, palha no chão, a porta de madeira. Dentro do cubículo estão dois borregos e a ovelha-mãe, que, de nervoso, faz frente a quem lhe tenta levar uma cria. Em cinco minutos impera a lei do mais forte e a economia local restabelece-se. Nas aldeias da Beira Alta "vai-se pouco aos supermercados", explica Filipe.

Atam-se as patas do animal com uma guita e fecha-se a porta de madeira do cubículo. Antes de ir, o ritual. Copo de vinho, pão, presunto e queijo. De diferente só o borrego na caixa aberta da carrinha, o primeiro de três que até ao final da noite se recolheriam. É a tradição.

O amanhecer do dia seguinte é em Vale de Mouro, num antigo palheiro que a associação da aldeia transformou em casa - corria agosto de 2014 - para receber quem lá queira passar uns dias silenciosos e tranquilos. O valor a pagar é deixado à consciência de cada um.

Ao lado da casa um museu conserva algumas "coisas do antigamente". Hoje a terra não se lavra com a junta de bois, não se faz luz ao cheiro do candeeiro de petróleo nem se dorme em colchões de palha. Resta apenas a representação, ali mantida.

Ao sair para a rua, uma coisa chama a atenção: o silêncio. Na tentativa de não o perder, a respiração torna-se mais lenta e controlada, mesmo apetecendo respirar fundo o ar fresco da manhã. Era importante registar o momento, o resto do dia seria ligeiramente mais agitado.

Uma semana, uma vez por ano, as associações das aldeias do concelho montam a sua tasquinha em Mortágua e vendem o que de mais característico (e caseiro) se faz em cada uma delas. Enquanto as mulheres preparam a comida, Filipe fica responsável por levar tudo o que é necessário para que a tasca esteja operacional às oito da noite, quando abrir.

Arroz de galo e de cabidela, caldeirada de borrego e lampantana. Caldo verde com chouriça e vinho tinto caseiro. Arroz doce e pão do CDS (casa da sogra). Tudo pronto para uma semana enfeitada nas Festas da Juventude de Mortágua.

Nas feiras populares, e quando há carrinhos de choque, costuma ouvir-se o jargão "mais uma voltinha, mais uma viagem". A ida de Trezoi até Papízios foi exatamente isso, uma viagem de menos de uma hora no comboio regional, com "paragem em todas as estações e apeadeiros". A chegada foi às 19h39.

Se nas aldeias anteriores a ligação ao comboio era praticamente inexistente, em Papízios, concelho de Carregal do Sal, a relação com a automotora vem de trás e em alguns casos, foi vida profissional.

Guardas de linha, chefes de estação, guardas-freio e operadores de apoio trazem no tempo alguns dos momentos passados na convivência de um meio de transporte que foi importantíssimo para a vida destas e de outras pessoas.

Foi na linha que se ganhou reforma e o pão que alimenta os dias. Foi no comboio, e pelo comboio, que se conheceu mundo, se criaram os filhos, que se trabalhou de sol a sol. E é do comboio que se guardam saudades.

“Cá andamos, até ao fim da vida”

A viagem mais longa pela linha da Beira Alta foi de Papízios a Maçal do Chão, a última paragem no comboio regional antes do regresso a Lisboa. Se até aqui as 24 horas do dia eram contadas até ao último segundo, em Maçal o tempo corre mais depressa.

Há gente na rua, movimento de carros e uns quantos jovens sentados no largo principal agarrados ao telemóvel. "O sinal de wireless é mais forte aqui", dizem. São rapazes e raparigas, todos da mesma faixa etária, que preferem ter os primeiros amores juvenis através de um ecrã.

Com o amor de uma vida, há quem se levante às sete da manhã para cuidar da fazenda, um pedaço de terra colado a outros pedaços de terra, separados quase sempre por linhas imaginárias, as “estremas”. Uma dessas pessoas é Carlos Nascimento, ou ti Carlos: castiço, mistura de sotaque alentejano com beirão, boina na cabeça e agricultor como poucos, diz. Nasceu na Beira Alta, viveu em Lisboa e em Évora, voltando a Maçal do Chão para assentar vida.

Até ao fim da vida talvez seja uma meta longínqua para André Correia, presidente da Junta de Freguesia de Maçal do Chão, eleito aos 25 anos. Hoje, com 27, assume que sempre quis estar onde está, mas que nunca imaginou que fosse tão cedo.

Se o wifi, disponível e gratuito em toda aldeia, o campo de futebol de cinco, o de 11, e a piscina - motivo de orgulho da aldeia e de inveja das aldeias vizinhas - já existiam quando André tomou posse, a verdade é que a sua juventude parece contagiar a vida da população.

Licenciado em Engenharia do Ambiente, divide o seu tempo entre a empresa onde trabalha e as preocupações das habitantes de Maçal. Perdeu amigos quando se candidatou, mas orgulha-se de nunca ter feito promessas que não pudesse cumprir. É bom de bola.

Uma frase escrita nas pedras da Associação de Vale de Mouro diz que "a alegria de fazer o bem é a única felicidade verdadeira". E as pessoas são genuinamente felizes nas aldeias beirãs.

Do tempo passado em viagem fica a imagem de aldeias acolhedoras, que sabem bem receber. São, na sua maioria, aldeias envelhecidas que transportam a sabedoria de quem lá vive e de quem também por lá acabará por morrer.

*A CP ofereceu os bilhetes de comboio para a realização desta reportagem