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Perseguidos, roubados e humilhados: na fronteira do desespero

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Ficar onde estavam não era opção: se a morte não os apanhasse, apanharia certamente um dos seus. Ou vários dos seus. Por isso deixaram, deixam e deixarão os países onde nasceram e viveram - e fazê-lo contra a vontade não é capricho, mas sobrevivência. E primeiro era o mar, que se tornou para uns (tantos, tantos) cemitério, a separá-los do que ansiavam alcançar cá, neste lado onde estamos e onde eles veem (esperam, sonham) esperança e dignidade. E depois do mar, agora há muros entre eles e nós, como este na fronteira entre a Hungria e a Sérvia: estivemos lá e é lá que regressamos consigo numa experiência multimédia que é experiência de vida. Se um mar não trava o desespero, é um muro que vai parar?

João Santos Duarte

João Santos Duarte

na Hungria

Jornalista

João Roberto

João Roberto

grafismo e animações

Motion designer

Rojan ainda se lembra daquela noite. Foi a noite em que lhe disse que não aguentava mais. Tinha ido deitar Anna, o Andy brincava na sala. Anna tinha apenas alguns meses, ainda nem sequer dava os primeiros passos, como começa a dar agora, dois meses depois, já num país estrangeiro e já tão distante daquela casa onde não sabe se algum dia irão voltar. Naquela noite, estava aberta a janela da sala onde Andy, de 6 anos, brincava. Lá fora só havia morte e destruição. Rojan disse ao marido, Mohammed, que não podia mais viver naquele sítio. Estava na altura de deixar tudo para trás.

Dizem que em Kobane, no norte da Síria, as janelas ficam algumas vezes abertas. Não porque as ruas sejam seguras, mas para evitar que, muitas vezes, as ondas de choque das explosões quebrem os vidros com violência e projetem os estilhaços diretamente para o interior, ferindo quem quer que esteja dentro de casa. Daquela mesma janela, Rojan avistara já por várias vezes as colunas de fumo que pintavam a negro o céu da cidade, provocadas ora pelos bombardeamentos aéreos, ora pelas explosões de carros bomba ativados por guerrilheiros do autodenominado Estado Islâmico (Daesh). Ou pelos morteiros que podiam aterrar a poucos metros de qualquer um que saísse às ruas de uma cidade já de si em ruínas. Mas, dias antes, o pesadelo tinha entrado dentro da casa de muitos dos seus vizinhos.

O sol mal nascera ainda. Eles irromperam pela cidade disfarçados de combatentes curdos. Arrombaram as portas das casas e dispararam indiscriminadamente. Muitos estavam ainda a dormir. Famílias inteiras, com mulheres e crianças. E aqueles que acordaram e tentaram fugir, ouvindo o barulho dos tiroteios nas casas ao lado ou explosões de carros-bomba, foram abatidos a tiro em plena rua, agora repletas de cadáveres e do sangue de pais e mães e filhos. Mais de cem no total. As grandes cadeias de notícias internacionais poderiam dizer, desde o início do ano, que a cidade estava libertada, que eles já não andavam lá, mas naquele dia os guerrilheiros do Daesh fizeram questão de demonstrar que famílias como a de Rojan e Mohammed - ambos jovens pais na casa dos 30 - nunca iriam estar seguras ali.

Por isso, na noite em que decidiu que não aguentava mais tudo aquilo, ela foi para a cama e fechou os olhos. Mas mais uma vez não conseguia dormir. Mais do que pensar nela própria, no que lhe poderia ou não acontecer, havia uma inquietação que lhe assombrava novamente os pensamentos: “Que futuro terão Andy e Anna?”.

Quando terá Qaiser dito o mesmo para si próprio, que não aguentava mais? Terá sido quando estava sentado à secretária do escritório do banco em Gujrat, no Paquistão, e ouviu aquela explosão lá fora? Terá sido quando soube que a explosão tinha atingido um centro comercial onde ele tantas vezes ia e que entre as vítimas estava um dos amigos? Terá sido num qualquer outro dia em que o som dos ataques de grupos radicais ligados aos talibãs o acordou de manhã, ainda antes do despertador tocar? Agora, olhando para trás, Qaiser Mehmood já não tem a certeza. Já pouco importa. Olhando ainda mais para trás, se há meia dúzia de anos, quando estava a estudar gestão em Inglaterra, lhe perguntassem onde sonhava estar dentro de uns anos, certamente que a resposta não iria ser estar sentado num chão empedrado, encostado a uma parede, tendo a seu lado apenas uma mochila com algumas peças de roupa. E certamente estaria longe de imaginar que iria um dia chegar uma noite, como a noite passada, em que seria acordado por um polícia quando estava a tentar dormir à beira de uma estrada.

Qaiser e os restantes, um grupo de cerca de vinte paquistaneses vindos de Gujrat, tinham encontrado por fim aquele caminho após horas e horas perdidos na escuridão de uma floresta - “a selva”: é esta a expressão usada por muitos dos migrantes e refugiados para descrever uma zona de reserva natural que se estende numa área considerável entre a Sérvia e a Hungria, o caminho usado por vários grupos para tentarem evitar serem detetados pelas autoridades ao entrarem no país, vindos dos arredores da cidade sérvia de Subotica, o último ponto de paragem a sul. Mesmo munidos de telemóveis com GPS, andaram horas às voltas até conseguirem sair dali. Mas a escuridão da floresta sérvia era, ainda assim, muito menos assustadora do que aquilo que ele tinha deixado para trás.

Aquele chão empedrado onde Qaiser se senta agora a contar a sua história é o da praça em frente à estação de comboios de Szeged, cidade húngara situada a escassos quilómetros da fronteira. Depois de os polícias os terem encontrado naquela estrada, ele e os restantes tiveram o mesmo destino de todos os outros milhares que foram detetados a tentar entrar ilegalmente no país. “Assim que são presos ao tentar atravessar a fronteira, são levados para o centro de trânsito de Roszke, a 14 quilómetros da cidade de Szeged”, explica Varkonyi Tamas, subchefe da Polícia de Fronteira do Condado de Czongrad. “Ficam com uma pulseira com um número para os podermos identificar e a bagagem também.” Uma vez identificados e registados, são entregues ao Departamento de Imigração e colocados em autocarros que os levam até à estação ferroviária. As autoridades concedem-lhes papéis que lhes permitem viajar nos comboios do país durante 48 horas, com o objetivo de chegarem a um de quatro centros de acolhimento. Mas a verdade é que, no momento em que esse prazo se esgotar, a maioria já estará bem longe da Hungria. Os dados mostram que metade das pessoas deixa o país nesse espaço de tempo e 80% já estão fora da Hungria nos dez dias seguintes a terem entrado. O país é apenas um ponto de passagem na União Europeia, a porta de entrada em busca de destinos como a Alemanha, a Aústria ou a Suécia. E é esse o pensamento que Qaiser Mehmood tem também na cabeça neste momento.

Faltam poucos minutos para o próximo comboio partir rumo a Budapeste e sente-se um burburinho crescente na praça. São paquistaneses, sírios, afegãos, não apenas jovens como o grupo de Qaiser, mas homens, mulheres, crianças pequenas que correm de um lado para o outro, bebés ao colo das mães, famílias inteiras que ali aguardam. Histórias de fuga e desespero. Como a de Salamudeen, que viu o próprio pai ser morto à sua frente. Ou Muhamad, que foi obrigado a deixar os dois filhos menores para trás. Ou Ranet, um jovem de 18 anos que tem apenas uma certeza na vida: se não tivesse partido, hoje já não estaria vivo.

Faz agora três meses que Qaiser e os restantes 20 paquistaneses deixaram tudo para trás. Foi árdua a viagem desde a já tão distante Gujrat até ao sul da Hungria. Mais de 6 mil quilómetros, muitos deles percorridos a pé, outros em autocarros ou em comboios. Para os que vêm de países como o Afeganistão e o Paquistão, torna-se imprescindível a longa travessia do Irão. Não é raro as rotas juntarem-se e os grupos tornarem-se maiores. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o grupo do paquistanês Muhamad Aslam, que ganhou vários novos elementos afegãos já em solo iraniano.

Os que fogem à guerra civil na Síria, como o casal Rojan e Mohammed com os dois filhos, atravessam logo a fronteira para a Turquia no caminho para a Europa. Acabam por se concentrar todos na costa este turca, onde apanham o “ferry boat” para a Grécia. A partir daí seguem para norte, passando por países como a Macedónia, a Bulgária e a Sérvia, até chegarem à Hungria na procura do sonho europeu. É a chamada “Rota dos Balcãs”, que só este ano trouxe mais de 140 mil pessoas à Europa, até ao momento.

Qaiser está ainda longe de chegar ao destino pretendido, a Alemanha. Mas apesar de algumas dúvidas e incertezas, sente que, de alguma forma, a pior parte desta aventura já terá ficado para trás. “O que foi mais difícil para ti em toda esta viagem?”, pergunto-lhe. A resposta sai rápida. “A fome. E a sede.” Em especial quando passavam por zonas mais remotas dos países, para poder escapar à atenção das autoridades, e os mantimentos acabavam. Chegaram a estar dias sem comer.

Na mochila levam pouco, muito pouco. Apenas algumas roupas, os telemóveis e dinheiro. Em muitos dos casos somas consideráveis para financiar a tentativa de chegar à Europa. Muitas vezes as poupanças de toda uma vida. Alimentando-se do desespero de milhares de refugiados, as redes clandestinas têm florescido nos últimos meses. Uma viagem organizada por redes de imigração clandestina pode custar entre 6 a 10 mil euros para quem vem de países como o Afeganistão ou o Paquistão. Com a garantia de que, em cada país por onde passarem, haverá sempre um contacto da rede que os ajudará a encontrar o caminho. Ou mesmo transportes organizados. Redes que se estendem desde os países de origem até à Europa, que obrigam os refugiados a submeterem-se, não raras vezes, a condições desumanas. Prova disso é o recente caso de refugiados encontrados mortos num camião já na Áustria.

Mesmo quem não vem com a ajuda de redes organizadas acaba por desembolsar somas consideráveis. É o caso de Qaiser, o jovem paquistanês que há apenas três meses trabalhava num banco em Gujrat e que gastou cerca de 3 mil euros até chegar à Hungria. Uma parte considerável foi para financiar a extorsão de autoridades policiais, que lhe exigiram somas significativas para poder seguir em frente. Só para passar a Grécia, o grupo de paquistaneses teve de pagar 800 euros às autoridades.

Perseguidos, roubados e humilhados. Junto à fronteira com a Sérvia, a câmara do Expresso registou, na primeira pessoa, os testemunhos da violência e abusos que os refugiados sofrem durante a longa viagem.

Anna está irrequieta. Fez há pouco um ano e já dá os primeiros passos no chão empedrado na praça junto à estação de Szeged. Anda de um lado para o outro com o seu “babygrow” azul claro e sandálias com o desenho de umas pequenas borboletas. Começou a andar já na parte final da longa viagem que a levou de Kobane (cidade síria junto à fronteira turca) até aqui. Rojan e Mohammed percorreram mais de dois mil quilómetros com o filho de 6 anos e a pequena bebé de meses ao colo. Estão mais perto do destino, mas a viagem ainda será longa. Tal como Qaiser, eles e os restantes seis sírios que vieram da mesma cidade querem chegar à Alemanha. Por enquanto espera-os um comboio até Budapeste. Depois logo se verá.

Rojan e Mohammed, com os dois filhos: Andy, de 6 anos, e Anna, com um ano

Rojan e Mohammed, com os dois filhos: Andy, de 6 anos, e Anna, com um ano

A pequena casa de madeira

As olheiras não enganam. Istvan Bitter passou a noite em claro. Os autocarros do Departamento de Imigração que transportam os refugiados podem chegar a qualquer hora. Se chegarem depois das nove da noite isso significa que já não têm mais comboios até perto das cinco da manhã e que terão de pernoitar na praça. A noite passada, a que Istvan passou ali, foram cerca de 30. Há madrugadas em que chegam a ser duzentos. No grupo que Istvan ajudou estavam muitas crianças e uma mulher afegã grávida de oito meses que teve de dormir no chão. Vieram do centro de trânsito de Rozcke, onde foram registados e identificados.

Zona de fronteira entre a Hungria e a Sérvia

Zona de fronteira entre a Hungria e a Sérvia

Istvan Bitter tem 41 anos e é romeno, mas fala inglês com uma pronúncia britânica quase perfeita. Vive em Inglaterra há vários anos e por estes dias está de férias, de visita a alguns amigos na Hungria. Ouviu falar num grupo que prestava ajuda a refugiados em frente à estação e não ficou indiferente. Não foi difícil dar com eles e com a pequena casa de madeira construída numa zona lateral da praça.

A construção está ali desde o final de junho, altura em que o movimento MigSzol - que significa “Solidariedade Migrante” - começou a ganhar forma. De início era um pequeno grupo de amigos e ativistas que dava ajuda aos migrantes dentro da estação. Dias depois foram expulsos do interior do edifício pelos responsáveis da companhia de comboios. Não baixaram os braços. Pediram apoio à câmara municipal e assim se construiu a casa de madeira. Os voluntários asseguram o seu funcionamento 24 horas por dia, porque nunca se sabe a que horas pode chegar mais um autocarro de refugiados. E no centro da praça improvisaram pequenos lavatórios onde as pessoas podem fazer os cuidados de higiene básicos após uma longa viagem, como fazer a barba ou lavar os dentes. A casa é onde guardam os bens que são doados pela sociedade: comida, água, roupas, brinquedos para as crianças, etc. Às vezes, até um simples giz pode trazer alegria às crianças. Foi assim que, numa manhã de Agosto, o chão da praça em Szeged se encheu de sóis coloridos, pelas mãos de uma criança síria.

De um núcleo inicial de apenas algumas pessoas, o MigSzol já contou, até hoje, com a colaboração de cerca de duas centenas de voluntários. “Por dia damos ajuda a 400 a 500 pessoas em média, mas em alguns dias esse número já chegou às 1500”, avança Mark Kékési, um dos coordenadores do movimento.

Leila destaca-se entre eles, também pelo hijab, o lenço árabe que lhe esconde o cabelo. É iraniana e veio estudar medicina para a Hungria há seis anos. Além de pequenos cuidados médicos, Leila dá outra ajuda muito importante desde que começou a fazer voluntariado com o MigSzol. Não é raro vê-la cercada por grupos de migrantes, confusos com os papéis que as autoridades lhes deram para poderem circular pelo país e que estão escritos apenas em húngaro. Leila fala persa, mas também percebe pashtun e algumas frases de árabe - procura ajudar no que consegue. Desde que os autocarros chegam até os comboios partirem da estação, os voluntários são incansáveis na ajuda aos refugiados.

Por entre o arame farpado

Os rostos deles têm um ar assustado. São oito e estão sentado em roda à beira da estrada, mas não estão sozinhos. Junto a eles está uma carrinha da polícia de fronteira. E, mesmo ao lado, dois agentes que os vigiam até chegarem reforços. O grupo de sírios tinha acabado de saltar o arame farpado da nova vedação de segurança. Não durou muito a caminhada em solo húngaro até terem sido detetados.

A cena passa-se na estrada entre Szeged e Ásothallom, uma pequena cidade de cerca de quatro mil habitantes que dista apenas uns dois ou três quilómetros da fronteira com a Sérvia. A pacatez das ruas de casinhas de piso térreo foi quebrada nos últimos meses pelo grupos de refugiados que diariamente atravessam os campos agrícolas da região, pelos vários jornalistas estrangeiros que agora vão aparecendo em cada vez maior número para cobrir a história e pelas movimentações dos carros e maquinarias do exército húngaro, que vão passando de um lado para o outro.

Anunciada em junho pelo governo húngaro, a vedação de segurança, numa extensão total de cerca de 175 quilómetros ao longo da fronteira com a Sérvia, foi construída a todo o vapor nas últimas semanas. Inicialmente prevista para novembro, o governo húngaro anunciou a conclusão dos trabalhos para o final de agosto. E na pacata Ásotthalom mora o homem que reivindica ter sido o pai da ideia.

Lazlo Toroczkai chocou uma boa parte do país ao ser eleito presidente da Câmara de Ásotthalom em dezembro de 2013 - e com mais de 70% dos votos. Com apenas 37 anos, tem já um longo historial atrás de si e nem sempre pelos melhores motivos: é líder e fundador de um dos movimentos de extrema-direita mais conhecidos do país e já foi expulso de países como a vizinha Sérvia, a Roménia e a Eslováquia, por envolvimento em atividades neonazis.

Toroczkai diz que a vedação não é a solução perfeita, mas é necessária. Uma ideia em linha com a argumentação do governo de Viktor Órban, que garante estar a defender os interesses não apenas da Hungria, mas da União Europeia. E, na retórica de ambos, habita ainda uma outra ideia: a da alegada ligação entre imigração e terrorismo. Mas a agência das nações Unidas para os refugiados e as organizações não-governamentais que trabalham no terreno criticam duramente a construção da vedação, afirmando que um muro, além de nada resolver, poderá agravar ainda mais a situação.

O Expresso ouviu as várias partes em confronto e viajou até à linha de fronteira entre os dois países, agora separada pelo arame farpado.

Para quem sempre viveu perto da fronteira com a Sérvia, a vedação de arame farpado torna-se ainda mais estranha. É o caso de Mark Kékési, coordenador do Migszol, nascido e criado em Szeged e atualmente professor de sociologia na universidade local. “Temos vizinhos, amigos e familiares no norte da Sérvia”, começa por apontar Mark. “Este muro não é construído em meu nome, nem em nome deles. A Sérvia está a emergir de várias guerras e está no caminho da integração europeia. Mas a mensagem que esta vedação envia, mesmo que o governo de Órban garanta que não é nada contra a Sérvia, é muito má.”

Mark tinha dez anos quando o muro de Berlim ruiu e a “cortina de ferro” começou a cair. Para ele, erguer em 2015 uma nova cortina, desta vez de arame farpado, não faz qualquer sentido.

A noite dos super-heróis

Final de tarde em Budapeste. Há um reboliço de hora de ponta à porta da estação de comboios de Nyugati: pessoas que partem apressadas com as suas malinhas de rodas, outras que chegam à capital ao final do dia, de regresso a casa. E, no meio de quem passa, uma mão que vem por trás e nos toca no ombro.

“És o John?”

“Hummm… sim… sou o John.”

“Estava à tua procura.”

Rezo tinha chegado a Budapeste apenas no dia anterior. Ele acha que me conhece. Eu só tenho uma certeza: não o conheço de lado nenhum. Mas o equívoco demora apenas alguns segundos a ser desfeito. Na verdade, estava à procura de John Henderson, o americano com quem tinha estado a falar várias horas na noite passada no Facebook. Rezo é iraniano mas vive há quase 40 anos emigrado no Canadá. Está na Hungria de férias para visitar um amigo. E o amigo falou-lhe do que estava a acontecer no país, dos grupos de refugiados que todos os dias chegam à cidade e das pessoas que se mobilizaram para os tentar ajudar. Mostrou-lhe uma página do Facebook onde se contavam as histórias daqueles homens, mulheres e crianças que vêm de tão longe para tentar chegar à Europa. Rezo comoveu-se com aquelas histórias e rapidamente se pôs à conversa com John Henderson, um americano de Chicago a viver há três anos em Budapeste e um dos coordenadores do movimento Migration Aid, que conta já com mais de 15 mil gostos no Facebook. Se Rezo queria mesmo ajudar, John disse-lhe para aparecer então naquele dia ao final da tarde junto à estação de comboios de Nyugati. E Rezo ali estava, mesmo que apenas escassas horas depois de ter aterrado no país.

Assim que John e os restantes voluntários da Migration Aid chegam, são cercados por grupos de refugiados que, até àquele momento, ocupavam as arcadas e as escadarias de acesso à estação de Nyugati. O grupo de voluntários é voluntarioso, mas nem sempre bem organizado. Trazem água, comida e roupas, mas não é suficiente. Rezo decide agir. Pede a indicação do supermercado mais próximo e atesta um carrinho com bens, que traz para a frente da estação.

Tanto aqui como em Keleti, a outra estação principal de Budapeste, há dezenas de pessoas a passar a noite. “Algumas estão apenas em trânsito. Mas outras viram o centro de acolhimento, perceberam que não tinham condições para ficar e voltaram para trás”, afirma Babar Baloch, o porta-voz do ACNUR. Isso acontece porque os centros estão sobrelotados. No de Debrecen, o maior no país, estão neste momento 1800 pessoas - tem uma capacidade inicial de 800.

Em Budapeste, tal como em Szeged, não é difícil encontrar vários casos de refugiados desesperados, que não quiseram dar a cara, para não serem identificados. Como Shahab, o miúdo afegão de 13 anos a quem os pais deram dinheiro para chegar à Europa. Ou Ahmed, que tem apenas algumas moedas no bolso para alimentar a família: um filho pequeno e a mulher grávida de cinco meses.

Além da barreira física que foi erguida na fronteira com a Sérvia, as organizações não-governamentais advertem que o muro tem continuação noutros domínios. Por exemplo, na legislação. As recentes alterações à lei do asilo são um exemplo disso. Entre outras medidas, permitem às autoridades recusar automaticamente pedidos de asilo de pessoas que tenham dado entrada no país vindas da Sérvia, por considerarem que este se trata de um país seguro que já as poderia ter acolhido. Além disso, o procedimento é acelerado, com uma decisão num máximo de 15 dias, e com possibilidades de recurso muito limitadas. “São tudo formas de limitar o acesso à proteção, num país que já estava entre os estados europeus que menos pedidos de asilo aprova”, diz Gábor Gyulai, o coordenador do programa de refugiados do Comité Helsínquia da Hungria, a única organização que presta apoio jurídico gratuito a requerentes de asilo. No ano passado, de um total de mais de 40 mil pedidos de asilo, as autoridades húngaras aprovaram apenas 9%. E os milhões gastos na vedação, sublinha Gábor, poderiam servir para ajudar muitas pessoas.

A somar à barreira de segurança na fronteira e às alterações legislativas, há ainda a campanha mediática lançada pelo governo húngaro desde o início do ano, com cartazes na rua que ostentam mensagens como “se vieres para a Hungria não podes roubar o trabalho dos húngaros”. Cartazes que geraram uma resposta por parte da sociedade civil, com uma verdadeira contracampanha com mensagens satíricas, entre as quais “pedimos desculpa pelo nosso primeiro-ministro” ou “venham para a Hungria, nós já estamos a trabalhar em Londres de qualquer forma”.

De repente, quando menos se esperava, há uma capa negra de super-herói a esvoaçar em frente à estação de Nyugati. Passa já das 23h quando o Batman entra de rompante. Segue-se o Super-Homem. Só que esta noite eles não estão ali para combater vilões. Vêm acompanhados da Pantera Cor de Rosa, do Scooby Doo e de outros “amigos”. Num ápice, o local enche-se de bolas de sabão que esvoaçam por toda a parte.

Há sorrisos no rosto das crianças que estavam antes quase adormecidas no chão, ao colo das mães. Os super-heróis são na verdade voluntários da Migration Aid, que esta noite resolveram fazer uma surpresa e trazer alguma alegria aos mais pequenos que têm de passar ali a noite a dormir, depois de tantas outras noites mal dormidas ao relento, depois de tantas centenas de quilómetros de viagem que ficaram para trás. E, ainda que por alguns minutos, os sorrisos das crianças substituem a amargura de uma viagem que ninguém sabe, ainda, como irá chegar ao fim.