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A incrível viagem de Donald Crowhurst, o homem que se matou por vergonha

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Esta é uma história sobre ilusões e deceções, glórias imaginadas e fracassos comoventes. E sobre tudo o que os homens estão dispostos a fazer para não desiludirem os que verdadeiramente amam. Começa com um barco que é encontrado misteriosamente à deriva no Atlântico e acaba com uma interrogação: o que teríamos feito de diferente no lugar deste homem?

7h50 da manhã. O comandante acordou, sobressaltado, com alguém a bater-lhe à porta. Era o imediato do navio “Picardy”, da marinha real britânica. Algo de muito estranho se passava naquele início de 10 de Julho de 1969. O capitão Box vestiu-se à pressa e chegado ao convés viu o pequeno iate à deriva não muito longe. Tocou três vezes a buzina de nevoeiro. Não teve qualquer resposta.

Box decidiu aproximar-se e enviar uma equipa a bordo da embarcação para investigar o caso. Vira agora que se tratava de um trimarã e que no casco tinha inscrito o nome “Teignmouth Electron”. Não havia sinais de qualquer problema de maior na estrutura do barco, mas as investigações só vieram confirmar os piores receios: não estava ninguém a bordo.

Só que aquela não era uma embarcação qualquer. As notícias dos jornais que o “Picardy” tinha trazido do último porto só falavam dela. A bordo seguia um homem que estava prestes a tornar-se um herói por ter sido o mais rápido a dar a volta ao mundo, sozinho, e sem qualquer paragem. Milhares de pessoas já o aguardavam dentro de poucos dias em Inglaterra, em êxtase total. Só que ele desaparecera, misteriosamente, em pleno mar, sem qualquer indício do seu destino. Como era possível? O que era feito de Donald Crowhurst, o homem que estava ali tão perto de alcançar um feito que muitos pensavam, meses antes, que para ele seria impossível de atingir?

Donald Crowhurst, retratado no documentário “Deep Water”, de 2006

Donald Crowhurst, retratado no documentário “Deep Water”, de 2006

O homem que corria atrás do impossível

“Vais casar com um homem impossível”, disse-lhe Donald. Os olhos fixos nos dela, as duas mãos a agarrar firmemente na mão direita de Clare, com a palma virada para cima. Ele estava a ler-lhe a sina. Estavam ambos numa festa em casa de um amigo comum. Ela vinha deslumbrante, com um vestido vermelho.

“Tenho a certeza de que aquilo era um truque. Deve tê-lo usado com várias outras”, diria Clare. “Mas a verdade é que resultou…”

Donald era assim mesmo: inteligente, charmoso, encantador, persuasivo, capaz de convencer qualquer um que ele, sim, ele é que tinha razão qualquer que fosse a situação. Saíram juntos naquela primavera de 1957, depois no verão. Ele levou-a a passear de barco em Oxford. Ainda nem sequer namoravam oficialmente quando ele apontou para um hotel e disse-lhe: “É aqui que passaremos a nossa lua-de-mel”. Mais uma vez os dons de Donald Crowhurst estavam certos: a previsão cumpriu-se.

Casaram-se nesse mesmo ano e foram viver para Bridgwater, uma pequena cidade no sul do Reino Unido. Donald tinha então 26 anos. Engenheiro eletrónico, trabalhou numa empresa, depois noutra, depois noutra ainda, mas nenhuma lhe podia dar o que ele queria. Porque Donald queria mais. Queria ganhar dinheiro com as suas próprias invenções, que passava horas a tentar desenvolver numa pequena divisão da sua casa, isolado do mundo. Foi assim que fundou a sua própria empresa, a “Electron Utilizations”, que iria, segundo ele, começar por fazer uma fortuna a vender o “Navicator”, um dispositivo por ele inventado que permitia usar sinais de rádio para facilitar a navegação marítima.

Clare não se opôs. Raras vezes lhe dizia que não, porque sabia que o marido levava sempre a sua avante. E, quase sempre, conseguia vencer as dificuldades. Alguns anos mais tarde, numa noite de hotel que ambos passariam quase em branco sem conseguir dormir, ela iria arrepender-se de não ter posto um travão nos seus sonhos.

O desafio mais difícil do mundo

A televisão mostrava imagens de uma multidão em delírio. Estávamos no final de maio de 1967, e mais de duzentas mil pessoas aguardavam por Francis Chichester no porto de Plymouth. Aos 66 anos, tinha acabado de fazer uma viagem de circum-navegação a bordo do veleiro “Gipsy Moth IV”, parando apenas uma vez, na Austrália. O país estava rendido ao seu novo herói. Mas Crowhurst, que assistia ao evento pela BBC, nem tanto.

“Não percebo a razão de tanto alarido. Ainda se não tivesse parado em lado nenhum durante a viagem...”, desabafou na altura a um dos melhores amigos.

A epopeia tinha tido o patrocínio de um jornal, o “Sunday Times”, que quis cavalgar o sucesso do acontecimento. Mas desta vez era preciso ir mais além. Não bastava bater o tempo de Chichester (demorou 226 dias a dar a volta ao mundo), era necessário um ingrediente extra, que prendesse a atenção das massas e desafiasse o imaginário coletivo. Desta feita, era preciso que um homem desse a volta ao mundo de barco mas sem nunca poder parar. Foi assim que nasceu a “Sunday Times Golden Globe Race”.

Por essa altura, e ainda antes do lançamento oficial da corrida, já vários homens se preparavam para tentar o feito. Entre os candidatos mais fortes estavam dois: o inglês Robin Knox-Johnston, de 28 anos, um oficial da marinha britânica, e o francês Bernard Moitessier, 42 anos, na altura já uma lenda dos mares, com várias milhas viajadas em todos os oceanos. Apresentaram-se nove candidatos à corrida. O nono surpreendeu por ser um marinheiro de “fim de semana”, que nunca tinha saído de Inglaterra ou feito uma travessia oceânica. Chamava-se Donald Crowhurst. Tinha agora 36 anos e era pai de quatro crianças pequenas: James, Simon, Roger e Rachel.

Crowhurst, como em tudo na vida, tinha grandes planos. Começou por tentar levar o mesmo veleiro que Chichester tinha usado na sua volta ao mundo. Não teve sucesso nas suas tentativas de convencer a sociedade detentora da embarcação. Dois meses depois do anúncio da corrida, ainda não tinha um barco, nem sequer patrocínios. Até que teve uma ideia. Ele, Donald Crowhurst, iria construir o seu próprio barco de raiz. E não iria ser um barco qualquer: seria uma embarcação revolucionária, com uma tecnologia que o mundo nunca tinha visto, inventada por ele próprio, e mais rápido do que todos os outros em prova.

Mas havia um senão: precisava de dinheiro. Foi assim que usou mais uma vez os seus dotes de persuasão para convencer um homem de negócios local, Stanley Best, a investir no projeto. Best tinha feito uma pequena fortuna no negócio de caravanas e já tinha mesmo uma participação na “Electron Utilizations”, a empresa de Donald. O velho Stanley pôs seis mil libras na mão de Crowhurst, contra a vontade da mulher. “Ela dizia-me que eu devia estar louco”, afirmava Best na altura, “por apostar em algo tão incerto. Mas ele era o tipo mais convincente que eu já tinha visto”. Só que o homem de negócios precaveu-se: Crowhurst não podia desistir da corrida, caso contrário tinha de comprar o barco de volta. E esse cenário, para ele, iria significar a ruína financeira.

A construção do trimarã, o modelo escolhido por Donald por ser uma embarcação mais rápida, foi tudo menos pacífica. Passou junho, julho e agosto sem que tivesse fim à vista, com vários avanços e recuos. Por essa altura, já a maioria dos participantes estava no mar. A organização estipulava que os concorrentes pudessem partir entre 1 de junho e 31 de outubro, e em compensação atribuía dois prémios: o globo de ouro para o primeiro a chegar a casa e, bem mais importante, cinco mil libras para o homem mais rápido a fazer o percurso. Partir mais tarde não seria, por isso, um problema. Isto desde que o concorrente fizesse a viagem no menor tempo possível.

Uma partida atribulada

Rodney Hallworth era um homem que farejava uma boa história a quilómetros de distância. Antigo jornalista de casos de policia, era um veterano da Fleet Street (a rua londrina que até aos anos 80 albergou a sede dos principais jornais do país) e agora tinha a sua própria agência de noticias, a Devon News. Além disso, trabalhava como assessor do município de Teignmouth, pequena cidade costeira no sul de Inglaterra. E quando Hallworth soube de Crowhurst, percebeu de imediato que ali estava uma boa história.

Foi assim que se tornou seu agente e que o convenceu a começar a sua grande aventura em Teignmouth. Mais ainda, num autêntico golpe publicitário, a “revolucionária” embarcação iria chamar-se “Teignmouth Electron”, numa dupla referência à cidade e à empresa de Crowhurst.

23 de Setembro. Depois de um longo e conturbado processo de construção, o trimarã é finalmente inaugurado. Como manda a tradição, Clare lança uma garrafa de champanhe contra o casco. Só que a garrafa não parte, tem de ser teimosamente quebrada à mão. Não terá, certamente, deixado de haver quem tivesse visto aqui um mau presságio. Crowhurst leva o barco até Teignmouth, para a partida oficial da corrida. Mas uma viagem que deveria demorar apenas três dias acaba por levar duas semanas. Nem sequer o alegadamente revolucionário sistema eletrónico que Donald prometera estaria pronto a tempo da partida.

“Aquilo simplesmente não batia certo”, recorda hoje, em declarações ao Expresso, John Ware, na altura um jornalista em início de carreira, com apenas 22 anos, que trabalhava para o “Herald Express”. Ware acompanhou o caso desde o início. “Ele não estava preparado. Quando conheci Crowhurst, não parecia ter grande experiência de navegação e estava demasiado hesitante. E o barco não estava pronto. Teve uma falsa partida e foi rebocado de novo para o porto por causa de problemas nas velas. Até os pescadores locais diziam que ele não ia longe. Lembro-me mesmo de um afirmar ‘este homem nem sequer vai chegar ao Atlântico’.”

O certo é que, bem ou mal, Donald acabou mesmo por partir. Estávamos a 31 de outubro, último dia possível para os concorrentes poderem entrar em prova. A bordo do “Teignmouth Electron” seguia um homem com poucas horas de sono em cima. Na noite anterior, depois de se ter deitado às duas da manhã, confessou-se à mulher:

- Querida, estou desapontado com o barco. E eu não estou preparado. Se eu partir nestas condições, vais perder a cabeça com preocupações?

- Se desistires agora, não irás ser infeliz para o resto da vida? - perguntou-lhe por sua vez Clare.

Donald não disse nada. Em vez disso, começou a chorar compulsivamente e quase não parou o resto da noite. Clare não o tentou demover de partir. Ele consegue sempre dar a volta às situações, pensou. E este é o sonho dele.

Mais do que um sonho, já era tarde demais para voltar atrás. As primeiras duas semanas no mar só vieram comprovar aquilo que quase todos, e até o próprio Crowhurst, sabiam - o barco simplesmente não estava preparado.

Crowhurst decide continuar, mas as dúvidas e o medo condicionam-lhe o espírito. Começa a fazer contas à vida e aos locais onde poderia eventualmente abandonar a corrida. Ao passar ao largo da Madeira faz um estudo pormenorizado do porto do Funchal, caso seja necessário aportar. Mas desistir implicava duas coisas: por um lado, a ruína financeira, por ter de devolver o dinheiro do barco a Stanley Best, e por outro a chacota e a humilhação públicas. Tentar a viagem significava o risco de naufragar e perder a vida. Haveria uma terceira opção?

O milagre

“Sir Robin-Knox Johnston acaba de lhe enviar um e-mail.” Não é todos os dias que recebemos um e-mail de um cavaleiro da Real Ordem Britânica. Muito menos quando a resposta chega quatro minutos depois de o e-mail ter sido enviado. Sir Robin é um dos poucos participantes ainda vivos daquela corrida de 1968. Vivo e muito vivo. Aos 76 anos, o velho lobo do mar não consegue ficar afastado da sua maior paixão. Quando o Expresso o contactou com um pedido de entrevista por Skype, em finais de junho, estava a minutos de atravessar mais uma vez o Atlântico. Ia embarcar numa regata com partida nos Estados Unidos e chegada em Inglaterra. “Teria muito gosto em falar consigo e recordar esses tempos”, respondeu, “mas estou ocupado com as preparações finais da corrida e vou estar com as comunicações limitadas nas próximas semanas.”

Knox-Johnston sabe mais do que ninguém como ir para o mar hoje em dia é totalmente diferente do que era há 50 anos. Naquela altura não havia GPS nem o auxílio das modernas tecnologias de navegação. Ainda se utilizava o sextante para calcular a posição pelos astros, como no tempo dos Descobrimentos, e as comunicações eram feitas via rádio e por código Morse. “Ir para o meio do Oceano, em muitos sentidos, era quase como ir para o espaço”, chegou a dizer. Podia acontecer, como chegou mesmo a suceder em 1968, os participantes ficarem semanas, ou mesmo meses, incomunicáveis. Qualquer telegrama que chegasse a Inglaterra enviado por morse, via rádio, era precioso por mais lacónico que fosse.

Foi num desses telegramas que o mundo ficou a saber de uma das maiores reviravoltas náuticas que a História já tinha visto. Estávamos a 10 de dezembro e a notícia preenchia vários jornais:

“CROWHURST BATEU O RECORDE DO MUNDO”

Rodney Hallworth, o relações públicas, ficou maravilhado. Depois de várias semanas a receber informações de progressos modestos por parte de Donald, finalmente o seu homem estava de volta à corrida. No telegrama enviado para Inglaterra, garantia ter percorrido 243 milhas num único dia, o que na altura seria um recorde para uma embarcação tripulada por apenas uma pessoa. O “Teignmouth Electron”, que tantos problemas tinha dado nas primeiras semanas, estava agora finalmente a cumprir a sua promessa de ser a embarcação mais rápida em prova. Para mais, por esta altura, cinco dos concorrentes iniciais já tinham desistido. Restavam apenas quatro. Donald Crowhurst estava vivo e de novo na corrida. Ele tinha conseguido um milagre. Mas como foi possível?

Solidão e uma canção

Simon Crowhurst tem hoje 57 anos e trabalha como investigador na Universidade de Oxford, no departamento de ciências terrestres. Ainda se recorda do mapa-mundo que ele e os irmãos tinham em casa, onde iam marcando com uma espécie de pionés os progressos incríveis que o pai ia fazendo no mar. Na cabeça deles, não havia dúvidas desde o início: ele ia ganhar a corrida.

O Expresso contactou-o com um pedido de entrevista, que Simon recusou cordialmente. Alega que nesta altura “a família está sob forte pressão mediática por causa do filme que está a ser preparado sobre a história de Donald Crowhurst” e que por isso não se sentiria confortável em falar neste momento. O filme já começou a ser rodado e as gravações têm agitado a vida na pequena localidade de Teignmouth. Colin Firth fará o papel de Crowhurst, a atriz Rachel Weizs o de Clare. A história inspirou, de resto, ao longo dos tempos tanto filmes como livros, poemas, músicas e outras criações artistas. Como afirma Simon numa entrevista concedida há poucos anos, “no final, esta é uma história que nos faz refletir sobre os dilemas e a condição do ser humano”.

Mas voltemos para o interior do “Teignmouth Electron”. O final de dezembro aproxima-se rapidamente, com Donald a enviar telegramas para Inglaterra em que informa dos bons progressos feitos na corrida. Está por esta altura há 80 dias no mar. É Natal. Escreve no diário de bordo:

“Aqui estamos nós no bom Teignmouth Electron. O meu calendário diz que é dia 24 e que faltam 11 minutos para a meia-noite. Estamos no mês de dezembro. Por outras palavras, é véspera de Natal. E tenho a certeza que esta é a véspera de Natal mais solitária que já tive na minha vida”.

Crowhurst liga o seu rádio de bordo, um RACAL RA 6117. Consegue apanhar uma frequência. Joan Sutherland canta “The Holy and de Ivy”. É a única coisa que o liga neste momento a casa, onde a mulher e os quatro filhos passam o Natal em família.

Enquanto ouvia esta música, já Donald tinha há pelo menos três semanas um novo dilema na cabeça. Não podia desistir, sob pena de passar pela ruína financeira, mas também não podia sair do Atlântico, correndo o risco de naufragar e arriscar a própria vida. Na mente dele havia agora apenas uma única saída possível: mentir. Foi assim que começou a forjar dados de navegação, enviando para Inglaterra mensagens com informações falsas ou demasiado vagas quanto à sua posição. A meio desse mês de dezembro tinha aberto um segundo diário de bordo: enquanto num anotava os dados da sua viagem real, no outro registava as coordenadas de uma bem-sucedida, mas imaginária, viagem de circum-navegação.

A estratégia era boa, de momento, mas arriscada. Embora não fosse fácil, era possível que o uso do rádio permitisse que a sua localização fosse detetada. Se tal acontecesse, seria rapidamente desmascarado. É assim que, a meio de janeiro, decide tomar uma decisão drástica: cortar todas as comunicações com terra. E assim permanecerá durante três meses, a navegar no Atlântico Sul.

O vídeo seguinte descreve a diferença entre o percurso real e o percurso fictício de Crowhurst nesta fase da corrida.

Em Inglaterra, a família, os amigos e o agente desesperam com a ausência de notícias de Donald. Com falta de informações, Rodney Hallworth não deixa arrefecer a incrível história do homem que partiu de Teignmouth para conquistar a glória e começa a alimentar a imprensa com informações sobre a odisseia de Crowhurst com base em extrapolações feitas a partir da sua última posição e velocidade conhecidas. E é assim que, na imprensa britânica, o tripulante do “Electron” já passou, por esta altura, o Cabo da Boa Esperança e atravessa o Oceano Índico. Na verdade, ele nunca chegou a sair do Atlântico...

Em declarações ao Expresso, John Ware, jornalista e amigo de Hallworth, afirma: “O Rodney já não está cá para se defender, mas eu faço-o por ele. O tipo estava sob imensa pressão para apresentar resultados. Nem sempre agiu bem? É verdade. Mas não se pode condenar totalmente as suas ações”.

A bordo do “Electron”, Crowhurst está cada vez mais embrulhado nas suas próprias mentiras. O trimarã mete água por um dos cascos, mas Donald não pode desistir, com risco da farsa ser descoberta. Como justificar que dá à costa na América do Sul quando todo o mundo o julga agora noutro lado do mundo? Mas a condição do barco não lhe deixa alternativa: sem os necessários materiais a bordo, é forçado a uma paragem arriscada na costa argentina, para reparações. Mesmo que os seus dados de navegação não tivessem sido deturpados até aqui, só esta decisão em si seria suficiente para ser desqualificado da corrida.

Esse é um dos episódios retratados no documentário “Deep Water” (2006), que conta a história da viagem de Donald Crowhurst.

Por esta altura, há um novo plano que se forma na cabeça de Crowhurst. Ainda haverá uma hipótese de salvar a face? Há. Como? Dentro de algumas semanas, os três outros concorrentes ainda em prova terão de subir o Atlântico ao largo da costa da América do Sul, depois de passarem o cabo Horn, na ponta mais a sul do continente americano, a etapa mais difícil e temida de todo o percurso por causa das correntes e constantes tempestades. Nesse momento, Crowhurst pode apanhar “boleia” para cima. Há apenas um pequeno grande senão: ele agora não pode “vencer”. Se o fizer, os diários de bordo seriam minuciosamente escrutinados e toda a sua farsa seria descoberta. Mas se chegar em terceiro ou quarto lugar, ninguém se interessará. Voltará são e salvo e não terá de devolver o dinheiro a Best. Só que uma ironia suprema estava prestes a desenrolar-se no Atlântico.

A reviravolta na corrida

Manhã de 10 de abril, 1969. Hallworth tinha a cara coberta de espuma de barbear quando recebe um telefonema. Do outro lado da linha o operador informa-o de que tem um telegrama. É de Donald Crowhurst. Três meses depois, quando muitos já temiam que pudesse ter naufragado e morrido, o tripulante do “Electron” dá sinais de vida. Sem sequer tirar a espuma da cara, Rodney faz um telefonema para Clare para a informar que o marido está bem. Em seguida, faz o que tinha feito nos meses anteriores: dedica-se a interpretar uma mensagem demasiado vaga e a passar a informação à imprensa. Crowhurst está de novo na corrida. Na cabeça de Rodney e de todos os outros, ele ainda tem hipóteses de vencer.

Nesse mesmo mês, Knox-Johnson chega a Inglaterra. É o primeiro terminar a viagem à volta do mundo, mas foi demasiado lento (levou 312 dias, bem mais que os 226 - e com uma paragem - de Chicester em 1967). Ou seja, qualquer um dos outros participantes ainda em prova pode ganhar o cobiçado prémio do mais rápido.

É então que o impensável acontece. Um telegrama inesperado chega a Paris. O francês Bernard Moitessier, que despreza a fama, as multidões e os fins comerciais da prova, decide guinar o seu veleiro e rumar novamente a sul, para uma nova viagem de circum-navegação (na verdade, acabaria por terminar no Taiti, em junho do ano seguinte). Sobram Crowhurst e Nigel Tetley em prova. Tetley é um tenente da Royal Navy, de 44 anos, que vai igualmente a bordo de um trimarã.

Em Inglaterra, Rodney vai alimentado Donald com telegramas de incentivo:

YOURE ONLY TWO WEEKS BEHIND TETLEY

PHOTO FINISH WILL MAKE GREAT NEWS STOP

Mas o relações públicas está longe de saber o dilema do seu cliente. Para arrefecer o entusiasmo à sua volta, Crowhurst envia a seguinte resposta:

OVERTAKE TETLEY ONLY BY LUCK

O que não contava é que os deuses voltassem a intervir. Pressionado pelos relatos de que Crowhurst estava forte na perseguição, Tetley esforça o seu barco em demasia e acaba por naufragar ao largo dos Açores, a 21 de maio. A grande mentira de Donald acabou por afundar Nigel. Sem mais ninguém na corrida, Crowhurst iria ganhar. Em Teignmouth, milhares de pessoas já se preparavam para o receber e todas as televisões nacionais já se posicionavam para transmitir o acontecimento em direto, recorda o jornalista John Ware. Só mesmo Crowhurst sabe que tudo não passa de uma grande mentira.

Os acontecimentos imprevisíveis e atribulados das últimas semanas da corrida estão retratados no vídeo que se segue (a música que sonoriza as imagens é um dos exemplos da influência desta história na cultura popular: chama-se precisamente “Donald Crowhurst” e é do projeto britânico “The Third Eye Foundation”).

Um mistério desvendado

Quando entraram a bordo da embarcação, o imediato do navio “Picardy” e três outros membros da tripulação deram de caras com um verdadeiro mistério. A cabine tinha ainda sinais da presença humana: pratos de comida por lavar, peças de um rádio desmontado espalhadas pela mesa e, mais importante do que tudo o resto, três livros. Eram os três diários de bordo: um registava as comunicações rádio, os outros dois os dados do percurso real e da rota ficcionada. Mas também a resposta final para o grande mistério dos últimos dias de Donald Crowhurst.

Preso num dilema e numa teia de mentiras que ele próprio criou, e isolado do mundo há oito meses, a sua mente desliga-se progressivamente da realidade. Além dos dados de navegação, a análise dos diários de bordo encontrou vários poemas, mas, mais importante ainda, uma espécie de testamento filosófico. Entre 24 de junho e 1 de julho escreve, a lápis, mais de 25 mil palavras.

O ponto de partida é um livro de Einstein sobre a “Teoria da relatividade”, um dos cinco que tinha levado para a viagem. Numa derivação simultaneamente esquizofrénica e paranoica, o pensamento de Donald forma uma última escapatória: a teoria de que algumas mentes, nas quais ele está incluído, atingem um estado de evolução tão avançado que podem libertar-se das limitações físicas do corpo e ascender a um plano metafísico.

A última entrada data de 1 de julho. Nesse dia, Donald atirou-se ao mar, deixando para trás os diários de bordo, para que o mundo soubesse tudo o que se tinha passado na viagem até aos últimos dias. As leituras desses registos vieram mostrar uma mente altamente perturbada, irremediavelmente perdida dentro de si própria.

A última carta de Crowhurst

Quatro meses após a partida do marido, Clare estava a arrumar uma secretária em casa quando encontra, por um mero acaso, cinco folhas papel escritas à mão. É o rascunho de uma carta que Crowhurst escreveu na eventualidade de não regressar da sua grande aventura. Permanece, até hoje, como a última mensagem de Donald para a mulher.

(O Expresso selecionou alguns excertos da carta, publicada originalmente no livro “A Estranha Viagem de Donald Crowhurst”, de Nicholas Tomalin e Rin Hall)

Onde está hoje o Teignmouth Electron?

Michael Jones Mckean é um escultor e artista plástico norte-americano. Cruzou-se com a história de Donald Crowhurst há uns anos quando fez uma pesquisa sobre a história das circum-navegações para um trabalho que estava a fazer em conjunto com outros artistas.

Michael decidiu seguir o rasto do “Teignmouth Electron”. Queria encontrá-lo, por sentir que era o único elemento físico ainda existente que o poderia colocar em contacto com a história e o personagem de Crowhurst.

Depois de recolhido pelo navio da marinha real britânica “Picardy” a 10 de julho de 1969 - há precisamente 46 anos -, o trimarã foi levado para a Jamaica, onde acabaria por ser vendido a uma empresa que o utilizou para fins turísticos. Vários donos depois, a investigação de Michael foi descobrir o barco numa zona ainda mais remota das Caraíbas…

Michael Jones Mckean acabou por comprar os restos do “Teignmouth Electron” em 2007. O trimarã ainda permanece atualmente numa zona isolada das ilhas Caimão. Michael estuda a hipótese de utilizá-lo numa instalação artística, preservando a memória de Crowhurst e de todos os que se aventuraram no mar.

Mas, afinal, quem ganhou a corrida? Robin Knox-Johnston, o único a terminar entre os nove que partiram, acumulou os dois prémios: o globo de ouro e as cinco mil libras para o homem mais rápido a dar a volta ao mundo de barco sem uma única paragem. Doou todo o dinheiro à família de Donald Crowhurst.