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Anabela, a mulher que arranca monstros do barro

Uma mulher e a doença que a condiciona. Um interior selvagem moldado em barro e monstros domesticados por dedos impulsivos. Arte bruta com assinatura, concebida por uma anónima que ganha rosto e identidade através das suas obras ao moldar a lama que traz da infância. Memórias de dor equilibradas entre o mercado da arte e o objetivo terapêutico. Anabela, a mulher que arranca monstros do barro

Christiana Martins

Christiana Martins

texto

Jornalista

João Roberto

João Roberto

grafismo animado

Motion designer

Bastam dois dedos, a respiração concentrada e, como desde sempre, do pó molhado, transformado em barro, faz-se o homem. E a mulher. Ainda antes de Eva, a primeira, Lilith, foi resultado de uma amálgama de lama e cuspo. E nunca daí saímos. No atelier do Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos, a tradição mantém-se. Violentamente, Anabela retira monstros do barro cinzento, pequenos golens, representações de medos, vozes, anseios. Liberta-os a eles e a ela.

Doente mental, 48 anos, Anabela Soares tem dois dias por semana para consumar no barro o que há muito a atormenta. Sandro Resende e José João Azevedo, monitores e responsáveis pelo projecto artístico do Júlio de Matos, encontraram nas suas obras mais do que o resultado de um impulso patológico. Encontraram arte naquele barro manuseado e, por isso, no fim do ano passado, Anabela partilhou o espaço do Pavilhão 31, no terreno dos hospital, com Emir Kusturica, ele a expor vídeos associados sobretudo ao filme "Gato Branco, Gato Preto" e ela as suas esculturas de animais humanizados ou seres humanos bestializados.

Amassa agora o Inferno. O dela e o de Rodin, revisitando, à sua maneira, a célebre porta do escultor Auguste Rodin, que precisou de 37 anos para acabar o seu projeto, entre 1880 e 1917. Anabela concluiu a sua em algumas semanas. Nunca ouvira falar do artista francês, nem da porta, mas foi desafiada e aceitou. Aceita sempre. Também não sabe quem é Dante Alighieri, nem "A Divina Comédia", que serviram de inspiração a Rodin. Basta-lhe a sua tragédia.

Diz que "é lá de cima, da Anadia" e ainda criança era na lama que encontrava alívio para a dor e a desadequação que sentia. Fazia bolinhas, estradas para os carrinhos de linha, os brinquedos que lhe faltavam. Vai desfiando, olhando a câmara de frente, como entreteceu a sua vida na doença mental que desde cedo se manifestou. Só conheceu o pai aos 21 anos, a mesma idade com que se casou. Está em Lisboa há 14 anos, tem quatro irmãos, é separada e teve três filhos, mas a família é passado. Nunca os vê. Não a procuram. Não os procura.

Esteve internada em Coimbra e na Alemanha, para onde emigrara com o então marido. No Júlio de Matos diz ter sido hopitalizada sete vezes. Uma sorte, diz ela, porque foi ali que encontrou o Sandro e o "Zé", o primeiro "um irmão mais velho" e o segundo, "como se fosse um pai". À vontade, passeia-se pelos corredores, sempre acompanhada pelo seu minúsculo cão, o Pantufa, dona de uma auto-estima conquistada à força das suas mãos. "Muitos colegas querem vender as suas obras e não conseguem, eu consegui, adoro!", conta. Com o dinheiro da primeira venda, comprou uma máquina de lavar roupa. Depois, arranjou os óculos. E já planeia tratar dos dentes, tudo à custa do barro manipulado, amassado, criado.

Quando ouvimos Anabela contar a sua história, sem nem mesmo saber nomear a sua doença, parecemos ver um dos seres mágicos por ela manipulados: uma mulher constituída por uma boca falante e aberta ao mundo, ancorada num par de mãos grandes e agéis, capaz de gestar monstros disformes, refletores dos seus sentimentos sem travões. Uma experiência sensorial, que nos convoca a pensar em outras histórias de vida e na forma como a sociedade acolhe a tristeza individual. Os gestos de Anabela são rudes, brutos. O rosto da artista é banal, as suas obras, curiosas. Um fluxo que não parece preparado para ser interompido, só ela sabe quando acaba. E Anabela continua a amassar o barro, às quintas e sextas, desbravando com as mãos a própria dor, expondo os medos de todos nós.

O primeiro trabalho de Anabela no Pavilhão 31 foi a construção de um urso gigante. Simboliza o peluche que nunca teve na infância.

O primeiro trabalho de Anabela no Pavilhão 31 foi a construção de um urso gigante. Simboliza o peluche que nunca teve na infância.

Cortesia Pavilhão 31

Bruta, degenerada e impulsiva

A arte que nasce das mãos de doentes mentais tem nome, rótulo, mesmo que com margens desfeitas. Arte bruta é a expressão mais utilizada para referir esta produção artística. Foi cunhada pelo pintor francês Jean Dubuffet, na primeira metade do século passado. Sempre existiu, mas surgia anónima, ficava esquecida pelas ruas ou nas salas de hospitais. Em 1922, o psiquiatra Hans Phinzorn apresentou um estudo relacionando o impulso criativo às patologias mentais, atraindo a atenção de nomes da vanguarda artística como o próprio Dubuffet ou o pintor alemão Marx Ernst.

Na tradução inglesa ficou conhecida como "outsider art", em alemão é dita a arte degenerada (entartete kunst) marcas de que as obras estão para lá do pensamento normalizado. Nomes como o do dramaturgo francês Antonin Artaud ou do sueco Strindberg, do pintor do "Grito", Edvard Munch ou da escultora Camille Claudel, amante de Rodin, internada num asilo psiquiátrico os últimos 30 anos da sua vida, período em que não só nada produziu como destruiu o próprio trabalho, são citações obrigatórias.

Expressando-se sem limites de escolas ou métodos artísticos pré-estabelecidos, os doentes mentais escapam às baias culturais ou do condicionalismo social. Guardam os filtros e apresentam o que sentem. Indiferentes à tradição ou à avaliação crítica de especialistas ou do próprio mercado, as obras têm como primeiro destinatário os próprios criadores. Dita instintiva, a bruta arte é considerada por alguns especialistas como uma espécie de linguagem primeira, ou, para outros, sobretudo pessoal médico, apenas uma forma de terapia.

Em Portugal uma experiência importante aconteceu no já encerrado Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, com os trabalhos realizados pelos doentes durante os seus 164 anos da sua existência. Um exemplo é o de Ângelo de Lima, poeta que esteve internado na unidade hospitalar quando esta ainda era chamada Rilhafoles, que produzia nos momentos de lucidez e conseguiu que vários textos seus fossem publicados no segundo número do "Orpheu".

Ricardo França Jardim foi diretor do Serviço de Reabilitação do Hospital Júlio de Matos e presidente do Conselho de Administração e Diretor Clínico do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa e, para abordar o tema, vai buscar uma das últimas cartas de Vincent Van Gogh ao seu irmão Theo: "A doença mental não me incapacita para a pintura. Pinto como se nada se passasse. Trabalho como um verdadeiro possesso, tenho uma fúria surda para trabalhar como nunca. E creio que isto contribui para me tratar." É assim, no limiar entre a arte e a terapia que a abordagem de França Martins se situa.

"O facto de ser produção artística não anula a dimensão terapêutica porque há que ter em conta que a grande parte das doenças mentais tem como consequência um défice de competências e a perspetiva do trabalho de reabilitação visa recuperar algumas destas capacidades ou mesmo que o doente readquira novas capacidades", explica o psiquiatra. França Jardim recorda que "a patologia mental pode trazer uma certa patoplasticidade, que reflete o que eles sentem, o que não quer dizer que o seja sempre".

A tentação em crer que o génio artístico surja associado a um contexto patológico já fez que investidores em arte bruta pedisse a França Jardim que não medicasse certos doentes para não lhes limitar a criatividade. "Como médico não posso esquecer-me nunca da vertente terapêutica, de onde parte todo o trabalho inicial, mas a arte e a doença são dimensões que podem coexistir", cala o clínico. Sobre o trabalho do Pavilhão 31, França Jardim diz que "é uma tentativa de expor resultados, de desestigmatizar as pessoas, tentando que estas caminhem pelos próprios pés."

"A entrevista" - exposição com esculturas de Anabela Soares em diálogo com o filme "Gato Preto, Gato Branco" de Emir Kusturica. Abriu ao público em novembro de 2016 no Pavilhão 31, no Hospital Júlio de Matos.
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"A entrevista" - exposição com esculturas de Anabela Soares em diálogo com o filme "Gato Preto, Gato Branco" de Emir Kusturica. Abriu ao público em novembro de 2016 no Pavilhão 31, no Hospital Júlio de Matos.

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"A entrevista" - exposição com esculturas de Anabela Soares em diálogo com o filme "Gato Preto, Gato Branco" de Emir Kusturica. Abriu ao público em novembro de 2016 no Pavilhão 31, no Hospital Júlio de Matos.
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"A entrevista" - exposição com esculturas de Anabela Soares em diálogo com o filme "Gato Preto, Gato Branco" de Emir Kusturica. Abriu ao público em novembro de 2016 no Pavilhão 31, no Hospital Júlio de Matos.

Do divã para a galeria

Mais uma vez, também aqui, o nome de Sigmund Freud surge como início. Coube à corrente psicanalítica por ele iniciada, como explica Ricardo França Jardim, tomar a produção artística dos doentes mentais como objeto científico, valorizando-a. Produzida sem conhecimentos técnicos ou artísticos, como valorizá-la, inserindo-a no mercado? O pintor Sandro Resende e o seu companheiro de missão no Pavilhão 31, José João Azevedo, há mais de uma década são responsáveis pelo trabalho de produção artística com doentes mentais no Hospital Júlio de Matos.

No site do Centro Hospital Psiquiátrico de Lisboa (CHPL), o P31 é apresentado como "um espaço no qual se promove o desenvolvimento artístico no máximo das suas vertentes, reabilitando mentalidade e apostando numa ação de responsabilidade social direcionada para a doença mental". Diz-se ainda que por lá já passaram, em exposições conjuntas com os doentes, nomes marcantes como Pedro Cabrita Reis, Jorge Molder, Souto Moura ou Jeff Koons, iniciativas reconhecidas em trabalhos jornalísticos por media internacionais como "El País", "The Guardian" ou a revista norte-americana "Forbes".

Para a administração do centro hospitalar, aquele é "um trabalho com fins terapêuticos, sendo que muitos dos trabalhos realizados possuem inegável mérito artístico", garantindo ao Expresso que "a sobrevivência do projecto está assegurada pelo próprio orçamento do CHPL". Mas, para Sandro e José, os monitores que lidam de muito perto com os doentes, impulsionando-os, a missão é mais ambiciosa: "Conseguir trazer legitimidade aos artistas que todos os dias produzem no atelier de artes plásticas, ensinando conteúdos (pintura, desenho, escultura, fotografia, videoarte), assistir no processo criativo, mediar a concretização da obra produzida , sendo o nosso desejo criar condições para que todas as pessoas olhem para estes artistas como nós os vemos."

"Interessa-nos a pessoa, o artista, o seu tempo", diz José Azevedo, que é complementado por Sandro Resende que sublinha a vontade de ter "trabalhos obviamente de mérito artístico, sem, com isso, claro, abanar a estrutura do artista". Explicam que não lidam com dinheiro das vendas das obras expostas, não cobram comissões. Não querem, garantem. O que realmente lhes interessa, seria "conseguir projetar este trabalho para fora dos muros hospitalares de uma forma fixa e definitiva", explica Sandro. Porque, conclui, "é importante ganhar espaço fora do Muro".

Mas e o muro construído pela doença que marca aqueles 12 artistas que trabalham no P31? O que fazer quando Anabela diz não se reconhecer como artista? Ou quando um comprador pede um desconto, apoiado na tese do artista menor por ser um artista patológico? O trabalho discreto, quotidiano, no armazém nos fundos do Júlio de Matos continua a se fazer. São os doentes que abrem a porta, que atendem os visitantes. As obras, muitas, vão ficando encostadas às paredes, à espera de um patrocinador privado que lhes abra mundo, porque ambição e vontade são ingredientes que todos os dias aquelas pessoas tiram das gavetas. E Anabela continua a trabalhar na lavandaria do hospital, à espera das quintas e sextas-feiras, quando poderá, mais uma vez, mergulhar as mão no barro mole, ansiosa, por fazer nascer mais um monstro.

  • Epidemia silenciosa

    Há hoje mais 18% de seres humanos com doenças mentais do que na última década. Uma das mais silenciosas e por vezes com desfechos dramáticos é a depressão: afeta 322 milhões de pessoas. Em Portugal, a taxa de prescrição de antidepressivos atingiu valores elevados - é o dobro da média europeia. Os sintomas variam entre a tristeza persistente, perda de interesse, incapacidade de executar tarefas simples, perturbações do sono ou outros mais extremos. E o tratamento chega a poucas pessoas em todo o mundo. Jornalismo de dados em dois minutos e 59 segundos. Para explicar o mundo