Morte lenta
Há qualquer coisa de estranho no ar. Ainda não se sabe muito bem o que é. Mas que há qualquer coisa, isso há. Os sinais existem, mas têm leituras diferentes. Quase toda a gente garante que os sinais são de tempestade. O Governo afiança que são de bonança. Mais estranho não podia ser.
Esta semana uma empresa de rating avançou com uma previsão de "morte lenta" para a economia portuguesa. Pior era impossível, mesmo dando o desconto de que a credibilidade destas empresas anda pelas ruas da amargura. O Banco de Portugal foi mais optimista, um dia depois. Mas pouco. O desemprego vai aumentar e a dívida externa também.
Preocupante? Bom, mais ou menos. Seguindo a intensa actividade governativa o país continua em festa. Há investimentos para todos os gostos, iniciativas em quase todo o lado. Na versão oficial o país vive um surto de investimento, que nos arrancará das trevas do subdesenvolvimento para os píncaros da prosperidade. Está em curso uma espécie de 'plano Marshal', reescrito para versão portuguesa pelo primeiro-ministro José Sócrates.
O défice orçamental é alto? Avança o TGV. A dívida externa ameaça a credibilidade do Estado português? Arranca mais uma auto-estrada. A economia patina? Anunciam-se barragens, hospitais e creches. Nos últimos tempos José Sócrates não tem parado, no frenesim de estimular a economia, prometendo tudo a toda a gente. Os portugueses só podem estar baralhados. Em quem acreditar? Nas previsões pessimistas que aconselham prudência aos gastos públicos? Ou no Governo que anuncia investimento público para tirar o país da estagnação? Como ninguém gosta de más notícias, acho que os portugueses preferem a ilusão à realidade. O pessimismo nunca deu de comer a ninguém. É claro que o optimismo também não, mas sempre conforta um pouco.
Projectando no futuro as duas previsões, Portugal só pode ter duas hipóteses. Na versão pessimista estamos a caminho de um grande desastre. Na versão oficial estamos na via da redenção. A estratégia governamental de combate à crise pela via do investimento público não tem meio termo. Se falhar pode ser mesmo um grande desastre. E tem tudo para falhar.
Basta olhar para as previsões do Banco de Portugal. Podemos crescer 0,7% em 2010. Mas com que pressuposto? Que as exportações subam 1,7%. Quer isto dizer que será a procura externa a alimentar o crescimento da economia portuguesa, como é normal e salutar que seja.
Ora, é exactamente neste ponto que o discurso oficial dá sinais errados. Tudo o que anuncia alimenta o sector importador e aumenta a dívida. Favorece o sector financeiro e a construção, que têm sido dominantes na economia portuguesa. Mas esquece as milhares de pequenas e médias empresas que produzem para o exterior, que procuram sobreviver num mercado internacional cada vez mais competitivo.
O sector exportador deve ser o motor do crescimento da economia, agora e no futuro. Como, aliás, já foi. Se o Estado quer estimular a economia deve encontrar formas de apoiar essas empresas e esses empresários, começando por reconhecer o seu esforço e mérito. É com eles que o país pode evitar a "morte lenta" a que estamos condenados e não com um Estado descomunal e ineficiente.
Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010


