Júlio Resende, que hoje faleceu aos 93 anos, ia inaugurar amanhã mais uma exposição em Lisboa
Rui Duarte Silva
A pintura contemporânea portuguesa ficou mais pobre. Júlio Resende
, nascido no dia 23 de outubro de 1917 no Porto, morreu hoje na sua casa em Valbom, Gondomar, nas vésperas de completar 94 anos e da inauguração, em Lisboa, de uma grandiosa exposição da sua obra.
Fazendo coincidir com as Noites de São Bento, a galeria São Roque inaugura amanhã em Lisboa, às 20h, a exposição "Resende, uma mão cheia de cor: um pintor de mão cheia".
"Pintor de mão cheia"
A exposição, que tem o apoio do Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende, reúne 27 obras dos colecionadores Maria Helena e Mário Roque. Lugar ainda para a exibição da colecção Traços de Mestre, desenvolvida por Júlio Resende para a Revigrés.
"Bem demonstrativa da grande qualidade artística do pintor a exposição permite, numa viagem por várias épocas e diferentes séries, conhecer um pouco do percurso de Júlio Resende, um trabalho criativo em constante transformação", diz o press release da exposição.
"Figura incontornável da arte portuguesa do séc. XX,Resende é um pintor de transição entre o figurativo e o abstractocom uma vasta obra pictórica. A sua pintura perde-se no tempo e na memória, criando universos intimistas onde a realidade serve de suporte ao gesto criativo", refere o texto.
A primeira exposição de Júlio Resende acontece em 1946, em Lisboa, cidade onde conhece Almada Negreiros. Volta a viver no Porto em 1951, ano em que ganha o prémio especial na Bienal de S. Paulo. O tema principal da sua pintura é, na altura, a gente do mar.
Professor do ensino secundário, arrecada em 1952 o Prémio da 7.ª Exposição Contemporânea dos Artistas do Norte, ano em que também executa um fresco da Escola Gomes Teixeira, Porto e faz investigação sobre desenho infantil.
"O desenho é expressão de um consciente que o particulariza", lê-se no site da Internet da Fundação Júlio Resende, instituição onde está reunido um espólio de cerca de dois mil desenhos do artista português. "Que o desenho seja entendido no seu mais amplo sentido. Não apenas restrito às artes-plásticas mas a todas atitudes criativas do homem. Não é monopólio de qualquer época nem de qualquer sociedade", afirmou o artista, responsável pela ilustração da obra de Fernando Namora "Retalhos da Vida de um Médico".
Pintura de cariz social e humano
Júlio Resende concluiu a Escola Superior de Belas-Artes em 1939. Visita Madrid e Paris, onde contacta com a pintura de Goya e Picasso, que irão influenciar a sua obra de estilo expressionista à qual se associa uma pintura dinâmica, geometrizante, que caminha progressivamente para a abstracção, assumindo algum cubismo picassiano, diz o texto de divulgação da exposição que amanhã inaugura em Lisboa.
Segundo o mesmo documento, de regresso a Portugal, na sua passagem pelo Alentejo (1949-1952) desenvolve uma estrutura pictórica triangular, onde o quotidiano é retratado de forma geométrica e por vezes quase abstracta.
Volta ao Porto e inicia um estilo novo, com um registo rectangular e pincelada mais solta e leve. Destaca-se em qualquer dos casos o carácter humanista dos seus quadros, em que a temática do trabalho e a vertente social são dominantes.
Renovador constante, após esta fase inicial com um discurso pictórico rígido em que pinta a vida pesarosa, difícil e cinzenta do povo, em 1971 viaja pelo Brasil e posteriormente África e Goa, responsáveis por uma nova mudança no seu estilo de pintura que privilegia agora a diagonal, base formal dos seus quadros onde a figura humana constitui elemento central, tornando-se o quotidiano tema constante.
Rapidamente se apercebe da importância da cor na vida árdua destas populações, dando-lhes ânimo para a encarar. Sente a necessidade de "mergulhar os pincéis no arco-íris" (Adriano Gusmão) com uma pintura mais espontânea, cheia de cor, atitude de grande sabedoria e humanismo com que quer ajudar o povo a ultrapassar a sua dura realidade.
Nunca é demais realçar o cariz fortemente social e humano da sua pintura"tudo o que sei aprendi com o meu semelhante, desde o mais humilde ao mais sábio" afirmou o artista, para quem a arte era "um sinal de vida (...) e um caminho para um mundo mais fraterno".
Fama internacional
Com uma carreira diversificada - pintura a fresco, vitral, painéis cerâmicos, ilustração de obras literárias e cenários teatrais - conta com uma numerosa obra mural, com destaque para a "Ribeira Negra" e a estação de Sete Rios do Metropolitano de Lisboa. Foi, ainda, director artístico do Grande Espectáculo de Portugal na Exposição Mundial de Osaka, em 1970.
Entre várias distinções salientam-se: Prémio Nacional de Pintura da Academia de Belas-Artes, Prémios Armando de Basto e Sousa Cardoso, Prémio Especial da Bienal de Arte de S. Paulo, 1º lugar no Concurso para o Monumento ao Infante D. Henrique, Medalha de Prata na Exposição Internacional de Bruxelas, 1º Prémio de Artes Gráficas na X Bienal de S. Paulo. Recebeu a Medalha de Ouro da Cidade do Porto, o Grau de Oficial da Ordem de Santiago de Espada em Portugal e da Ordem de Mérito Civil do Rei de Espanha, entre outras.
A obra de Júlio Resende está representada no Museu de Arte Moderna de São Paulo, Museu de Helsínkia ( Finlândia), Museu Aalesund Kubstforening (Noruega), Biblioteca Real Alberto (Bruxelas), Gabinete de Estampas (Antuérpia), sede da Unesco (Paris) e Museu Marítimo de Macau. E também no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian ( Lisboa), Museu Regional de Évora, Museu de Ovar, Museu Amadeo de Souza-Cardoso ( Amarante) e, ainda, Museu de Arte Contemporânea de Lisboa.
Até ao dia 9 de outubro, na Galeria do Acervo, podem ser vistos os 33 estudos para o painel cerâmico da estação Sete Rios do metropolitano de Lisboa, que é da sua autoria. A exposição "A Intuição Atenta à Razão" abriu há quase um ano.
Num texto de apresentação, publicado no site da Fundação Júlio Resende, o artista diz que o objetivo foi tornar o espaço "animado como uma continuidade do clima exterior". Júlio Resende explica que "dada a proximidade do Jardim Zoológico, entendi natural que a vida animal e vegetal servissem de motivação no tratamento das paredes e dos pavimentos. Os estudos foram feitos à exaustão mas a execução foi de um grande improviso respeitando o princípio que nenhum sinal é repetível!... Os azulejos foram realizados na Fábrica Viúva Lamego, em Sintra, onde sempre encontrei o melhor ambiente de trabalho e consideração".
"Prémio Nacional de Pintura da Academia de Belas-Artes, Prémios Armando de Basto e Sousa Cardoso, Prémio Especial da Bienal de Arte de S. Paulo, 1º lugar no Concurso para o Monumento ao Infante D. Henrique, Medalha de Prata na Exposição Internacional de Bruxelas, 1º Prémio de Artes Gráficas na X Bienal de S. Paulo."
Que pena !!! Não foi premiado em Paris. Só no terceiro mundo...
Este SENHOR era um dos raríssimos ícones idolatrados que em Gondomar viviam. A Casa do Desenho, muito tem contribuido para que sirva de tranpolim para futuros artistas plásticos e não só. Será sempre lembrado por todos os gondomarenses e principalmente por aqueles a quem tanto deu e ensinou. Pena é que, e quando se realizar o seu funeral, surjam algumas figurinhas representantes deste concelho na primeira fila, engravatados, mas com óculos escuros, para que desta forma possam esconder toda a sujidade que por aqui continuam a conspurcar.
Júlio Resende bem que dispensava estas presenças. Ficam as suas obras e fica também o seu santuário que concerteza o perpetuará. Até sempre mestre Júlio.