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Mordaça no jornalismo argentino e latino-americano

A Argentina vive sob tensão entre a imprensa independente e a pressão oficial para controlar os meios críticos. O Governo Kirchner tem usado todas as metodologias possíveis para dificultar a vida à imprensa crítica do poder.

Márcio Resende (www.expresso.pt)
13:23 Segunda feira, 9 de novembro de 2009
Depois do bloqueio, tiveram de ser improvisados postos de vendas nas ruas para que os cidadãos argentinos pudessem adquirir jornais
Depois do bloqueio, tiveram de ser improvisados postos de vendas nas ruas para que os cidadãos argentinos pudessem adquirir jornais
La Nación

A Argentina vive sob tensão entre a imprensa independente e a pressão oficial para controlar os meios críticos. O sindicato mais combativo e aliado do governo bloqueia a distribuição e sabota a venda nas ruas. A Sociedade Interamericana de Imprensa, reunida em Buenos Aires até terça-feira, condena os ataques e alerta para a táctica como modalidade da nova censura que se espalha pela América Latina.

Censurar a imprensa é simplesmente impedir que algum assunto seja publicado? Na Argentina, o Governo Kirchner tem usado todas as metodologias possíveis, convencionais ou encobertas, subtis ou explícitas. O final de semana foi marcado pelo estilo explícito.

Centenas de integrantes do sindicato dos camionistas, principal aliado sindical do governo, bloquearam as gráficas dos maiores jornais do país, o "Clarín" e o "La Nación". Depois de terminado o bloqueio, as metodologias de intimidação continuaram pelas esquinas. Em diversos pontos da capital argentina e da periferia, vendedores viram os jornais roubados, alguns sob a ameaça de armas de fogo, ou ficaram com os jornais molhados como forma de impedir a venda.

Foi mais uma escalada de um cerco que começara durante a semana com a obstrução sistemática dos camiões que partiam dos centros de distribuição dos jornais. A revista semanal "Noticias", a maior do país, também foi alvo do bloqueio que visava impedir a sua circulação. A Associação de Editores de Jornais de Buenos Aires (Adeba) classifica o bloqueio como "o ataque mais grave à imprensa desde o fim da ditadura militar" em 1983.

Governo em silêncio


A alegação formal para os ataques é forçar os motoristas das cooperativas que distribuem os jornais e revistas a afiliarem-se ao sindicato dos camionistas, o mais poderoso do país, aumentando os tentáculos dos aliados dos Kirchner (Presidente Cristina Kirchner e o seu marido, o ex-Presidente Néstor Kirchner, co-governante).

O Governo manteve um silêncio conivente com os ataques enquanto a polícia parecia ter ordem para não intervir. Por mais que os jornais denunciassem os actos, a polícia fez caso omisso.

"A Presidente não pode ficar neutra. Deve agir como chefe de um Estado de Direito, mesmo que seja o seu próprio esposo o ideólogo de tamanha barbaridade", denuncia o deputado Francisco de Narváez, sócio de um canal de TV e responsável por derrotar Néstor Kirchner em Junho na campanha para deputado. "Esses episódios podem ser a escalada de violência que dividiria a sociedade numa cópia do modelo autoritário da Venezuela de Chávez", alertou.

A acção dos camionistas é liderada por Paulo Moyano, filho de Hugo Moyano, secretário-geral da peronista Confederação Geral do Trabalho (CGT), única central sindical oficialmente reconhecida e a quem os Kirchner recorrem cada vez que precisam paralisar as actividades de algum sector desobediente.

Assinaturas impossíveis de realizar


"É necessário contextualizar essa acção no clima de agressão e hostilidade em relação à imprensa que vem sendo registado na Argentina, e do qual não têm sido alheios sectores ligados ao poder político", denunciou, em nota, a Associação das Entidades Jornalísticas Argentinas (Adepa).

Os jornais e revistas afectados são sempre os críticos ao Governo. A revista "Noticias" desta semana, por exemplo, tem como título principal um livro que conta a suposta "história secreta" de Néstor Kirchner.

Enquanto os jornais eram bloqueados, o Governo decretava a obrigatoriedade da venda de jornais nas bancas. Na Argentina, nem existe a assinatura de jornais. Não pode haver comercialização em canais alternativos como supermercados, lojas de conveniência ou postos de combustíveis.

"Só a estratégia do governo nacional de limitar o exercício da liberdade de imprensa permite compreender a acção perpetrada com o objectivo de impedir que os jornais 'Clarín' e 'La Nación' chegassem aos seus leitores", afirmou o "Clarín" em editorial.

Silenciar as críticas


Desde que chegou ao poder em 2003, Néstor Kirchner criticou sistematicamente jornalistas com nome e apelido. Entre outros mecanismos pouco subtis de pressão, os Kirchner têm redobrado a aposta nos últimos meses, avançando contra o negócio dos meios de comunicação, especialmente contra os mais críticos como o grupo Clarín, o maior do país.

O Governo pressionou a Associação de Futebol Argentino (AFA) a rescindir o contrato com a empresa TyC (do grupo Clarín) para que a transmissão dos jogos de futebol fosse estatizada. Logo depois, a fusão entre as duas maiores operadoras de TV por cabo, a Multicanal (grupo Clarín) e a CableVisión, foi anulada, embora tivesse sido aprovada por Néstor Kirchner dois anos antes.

Em Setembro, num dos episódios mais grotescos, 200 agentes fiscais foram enviados à redacção do "Clarín" e às residências dos editores como forma indirecta de intimidação. A prática é denunciada há dois anos por empresários que recebem inspecções fiscais surpresa cada vez que ousam não acatar as ordens (ilegais) do governo.

Usar a publicidade como pressão


No mês passado, o Governo conseguiu a aprovação do Congresso para a polémica Lei de Serviços Audiovisuais que, sob o pretexto de desmonopolizar as propriedades dos meios de comunicação, restringe e disciplina a liberdade de imprensa.

Um dos elementos de maior pressão tem sido o uso da pauta publicitária somente para disciplinar e pressionar os meios de comunicação. A pauta publicitária saltou de 11 milhões de dólares em 2003 para os actuais 265 milhões de dólares (sempre para a imprensa aliada), segundo a jornalista Maria O'Donnell, autora do livro "Propaganda K" (por Kirchner).

Diversos jornalistas são alvos de espionagem através da intervenção ilegal de telefones e correios electrónicos ou são alvos de supostos "delitos" inventados pelos serviços de inteligência ou policiais como forma de desprestígio de um jornalista com credibilidade.

Jornalistas do mundo preocupados


O cerco dos Kirchner contra a imprensa acontece justamente quando em Buenos Aires começou a 65ª Assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). A escolha da Argentina para o encontro que reúne os representantes dos principais jornais do continente não foi uma coincidência. Até terça-feira, o debate é sobre os métodos de censura que se agravam na região, especialmente na Venezuela, Equador, Bolívia, Nicarágua e Honduras. Por outras palavras, o venezuelano Hugo Chávez e os seus aliados.

Como contraponto e como ilustração do clima de conflito latente, o Governo da Venezuela, com patrocínio do argentino, promove um encontro de imprensa também em Buenos Aires. É o Primeiro Encontro Internacional de Meios e de Democracia na América Latina.

Segundo Robert Rivard, presidente da Comissão de Liberdade e Expressão da SIP, "as tácticas de Kirchner e Chávez contra imprensa são muito similares".

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