A confissão não é fácil, e a água que sobe aos olhos de Elisabete confirma o constrangimento. Mas a força do desabafo vale a partilha da intimidade: "Já tivemos apuros, e ele ofereceu o dinheiro, mas nós não o usámos." Elisabete é mãe de Luís, ou melhor, a mãe real do Carlitos imaginário que entrou na casa dos portugueses durante a série televisiva "Conta-me como Foi". Aos 14 anos, já deu para juntar algum dinheiro, mas os pais garantem que é dele. E para ele.
Nem todos os pais são assim. Entrar no mundo do trabalho artístico infantil é entrar num cenário de silêncios e muitas interpretações díspares. E o dinheiro é o grande tema-tabu deste enredo. A própria legislação portuguesa que regula a atividade não foi tão longe quanto alguns especialistas defendem: não limitou no texto da lei o acesso dos adultos ao dinheiro acumulado pelas crianças, como acontece em alguns países. A verdade é que estas crianças trabalham. Não cosem sapatos numa fábrica nem ajudam no café da família. Recebem aplausos, dão autógrafos e, na sua maioria, adoram o que fazem. Mas trabalham. Desdobram-se em gravações, ensaios e os trabalhos de casa. Algumas têm estrutura, apoio da família e dos empregadores. Outros nem por isso. Há especialistas a defender que o assunto deve ser debatido amplamente pela sociedade. Mas não é fácil. Afinal, eles ficam tão bem em cima dos palcos!
Quando o Tiago venceu a gala no Casino Estoril e foi escolhido para o musical "Fado, História de Um Povo", de Filipe La Féria, entre mais de mil candidatos, a mãe e os amigos explodiram de alegria e orgulho. Mas o pai, José, disse-lhe ao ouvido, a chorar, no abraço muito apertado: "Vais começar a trabalhar ainda mais cedo do que o pai."
Durante nove meses, Tiago Correia, 14 anos, participou, de quinta a domingo, no musical. Cheio de alegria e entusiasmo. Entrava às 19h30 e saía às 23h, para, a seguir, fazer uma viagem até ao Montijo, onde vive. Às sextas-feiras, as aulas começavam às 8h30. "Nos outros dias era mais fácil", afirma. Mas também assume que nos tempos dos ensaios era mais puxado. As notas na escola não caíram. Antes pelo contrário. Até porque Tiago sabe bem que os produtores não querem miúdos com mau aproveitamento escolar. Boas notas são mesmo uma condição essencial para quem quer entrar no mundo das artes. A tese é de que, quando as notas vão bem, nada pode ir mal. Mas nem sempre será assim. E, quando é, também há de ter em conta os seus custos. "O Tiago é um homem em ponto pequeno", afirma o pai. O mesmo que, de voz embargada, assume: "Orgulho é pouco para dizer o que sinto. Não sei qual é o adjetivo, mas orgulho não chega."
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| Beatriz Leonardo, 11 anos, ficou na memória dos portugueses desde que participou nos anúncios da Sociedade Ponto Verde |
| Tiago Miranda |
E José, vendedor de produtos de limpeza, sabe do que fala. Começou a trabalhar com 14 anos. Era bom aluno - "tinha cinco a tudo" -, mas a dureza da vida obrigou-o a ficar pelo nono ano e a ir à luta. Por isso reconhece o esforço do filho mais velho, que, sempre com um sorriso no rosto, faz o que gosta, sem perder o pé da "prioridade que é a escola". Estas crianças e adolescentes, no seu curto tempo de vida, aprenderam as manhas da sobrevivência. Tiago, por exemplo, reconhece a lição: "Tenho de ser humilde no mundo do espetáculo para ter amigos, mas não deixar que me ponham o pé em cima. É um meio muito competitivo." O pai também já lhe ensinou que o que ele vê e ouve, se não lhe diz respeito, "é como se não existisse". Tudo em apenas dois anos de vida artística e, caso raro, sem qualquer ligação à agências de representação de modelos e atores.
Mensalmente, uma criança destas pode receber, numa novela ou série, entre 1000 e 1500 euros, se tiver um papel de destaque. "Se lá forem de vez em quando fazer uma perninha, esses valores descem para 75 a 200 euros", explica Sofia Espírito Santo, da True Sparkle. No cinema, varia entre 250 e 400 euros, se tiver falas. Na publicidade, os montantes voltam a subir: se a criança for protagonista e tiver falas, pode receber 1500 euros; se tiver um papel principal mas não falar, recebe 800 euros; e, se fizer apenas figuração, leva para casa entre 300 e 600 euros.
Quanto às comissões das agências, a True Sparkle cobra 10% de agenciamento na área da representação e 20% para publicidade. Mas há casos de comissões que chegam a atingir os 40% ou mais. Situações menos claras também as há, nomeadamente no que diz respeito aos contratos. "Já tive pais que vieram ter connosco porque se aperceberam que o contrato entre a agência e o filho tinha valores diferentes dos valores do contrato entre a agência e a promotora", afirma Sofia Espírito Santo. "O que é ilegal', conclui.
A profissionalização do trabalho artístico infantil é confirmada pelo surgimento de várias empresas na órbita destas crianças. "Alguns miúdos chegam a estar inscritos em dez ou mais agências em simultâneo", afirma Sofia Espírito Santo. A atriz e responsável pela True Sparkle explica que a agência exige exclusividade aos seus representados, "caso contrário, é muito difícil controlar o número de trabalhos que a criança está a fazer. E há pais que não têm bom senso".
Falta ver as consequências. "Existe uma responsabilidade social neste assunto, mas é inegável que a maior responsabilidade é dos pais. Assim, seria necessário fazer uma investigação para perceber os efeitos desta experiência na vida das crianças daqui a dez anos", afirma Sara Bahia, psicóloga especializada no acompanhamento de crianças e adolescentes que desempenham atividades artísticas. E aproveita para colocar o dedo na ferida: "Quando são experiências continuadas, é preciso saber as razões que estão por trás. Se há interesses financeiros, é claramente exploração infantil." O problema é que, enquanto as leis espanhola e francesa determinam que o dinheiro vá para uma conta bancária em nome da criança, que só pode ser movimentada a partir dos 18 anos ou pelos pais em casos excecionais, a lei portuguesa é omissa.
Representar sempre?
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| Beatriz Costa, 14 anos. Começou no "Música no Coração", de La Feria, com 9 anos |
| Tiago MIranda |
O impacto deste tipo de trabalho vai, contudo, muito além das questões monetárias. Como uma personalidade em construção lida com as dificuldades de entrar e sair de uma personagem? Beatriz Costa tem nome de grande atriz e uma vontade evidente de singrar na profissão. Para interpretar o papel da irmã de Amália no filme sobre a vida da fadista, ficou mais de duas horas dentro de um caixão no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Até achou graça. A mãe, Lina, não. Esteve quase para desistir.
É difícil gerir todas estas fronteiras. Tanto que Beatriz assume, se calhar sem perceber o alcance das próprias palavras: "Todos nós somos um bocadinho atores na nossa vida real. Nem que seja para esconder as tristezas." Sentimento semelhante é confessado por Luís Ganito, o ex-Carlitos. personagem ainda muito presente na pele do jovem ator. Situação que a mãe confirma: "A imagem do Carlitos ficou nele." E Luís admite algo que não é fácil: "Eu estou sempre a interpretar."
Quando Carlitos começou a crescer e o "Conta-me como Foi" o levou por caminhos mais complicados, os pais foram avisados pela produtora. Falaram então com a pediatra do Luís e com uma psicóloga para saber como lidar com o novo desafio. Antitabagista convicto, Luís fumou um cigarro falso para as câmaras. Falou de sexo e deu beijos na boca das colegas da série. Parece ter passado incólume pela experiência. Mas, "muito metido para dentro", como explica a mãe, deixa os pais preocupados com os efeitos que a participação tão prolongada na série terão na formação da sua personalidade.
A psicóloga Sara Bahia explica que há três reações possíveis perante esta realidade volátil. "A questão de fundo e o maior risco é o facto de se lidar com a criança por aquilo que ela fez, esquecendo a pessoa que ela é. Ela própria confunde-se e esquece-se da pessoa que é." Por isso, Sara Bahia defende que a criança que trabalha no meio artístico deve ter acompanhamento psicológico, "porque, muitas vezes, é difícil sair da personagem".
Por outro lado, a psicóloga diz que "pode surgir uma desproporção no sentido de a criança querer muito aparecer pela necessidade de reconhecimento e da aprovação dos outros". Normalmente acontece na adolescência, "altura em que têm medo de ser diferentes". Explica ainda que é uma ambivalência que pode levar a três tipos de comportamento: "Ou o adolescente lida com o medo e continua no meio artístico ou não consegue e desiste ou tenta ainda mais dar nas vistas como forma de reconhecimento."
Entre beijos e bofetadas
O tema é controverso. Sempre que se fala de crianças, a voz mais ouvida é a dos pais. Mesmo quando são os filhos que falam. "É como se eu fosse um carro a conduzir à noite. Os meus pais são as luzes, se as parto, despisto-me", explica Beatriz Costa. Conversar com os miúdos artistas é perceber a grande influência desempenhada pelos seus responsáveis de educação. A relação pai e filho transforma-se em relação de amigos e até em relação profissional.
Falado em voz baixa entre os entrevistados, o assunto é recorrente. E, sem nomes, as histórias vão sendo contadas. Como aquela da criança com cerca de dez anos que, durante um casting, foi esbofeteada em público pela mãe, depois de se ter esquecido da deixa que devia dizer. Ou a do pai que, enquanto esperava o filho à saída de uma pré-estreia, lamentava as más notas dele, resultado "apenas da má vontade dos professores". Ou a da mãe que prometeu à filha uma Barbie se ela aceitasse participar no casting. São histórias anónimas, repetidas por quem anda nos corredores dos teatros, das televisões e das produtoras.
Nenhum dos entrevistados assumiu, por exemplo, ter, mesmo que ocasionalmente, uma atitude de rebeldia perante os pais. Beatriz Leonardo, 11 anos, é um exemplo de exuberância. Fala sem precisar de ajuda e acompanha a par e passo o que a mãe diz na entrevista. Uma cumplicidade reforçada à noite, quando, antes de dormir, as duas estudam os textos que a pequena tem de decorar. Mas Beatriz não abre mão do seu poder decisório. Paula garante que nunca contrariou a vontade da filha. Nem quando Beatriz se recusou-se a fazer o casting do "Conta-me como Foi". "Disse que não queria ir, não queria vestir aquelas roupas, não gostava da série. E não foi. Faz o que quer até querer", conta.
A autonomia dos miúdos é outro tema recorrente, assim como os pais que transferem o desejo de uma vida artística nunca concretizada para os filhos. Há 22 anos a fazer castings com crianças, a experiência ensinou Patrícia Vasconcelos a não deixar os pais entrarem na sala de seleção. "Já tive dissabores. Assim que sinto que a criança está contrariada, nem sequer a apresento ao realizador, por mais ideal que ela possa parecer para o papel." A explicação para esta decisão? Patrícia é pragmática: "Também sou mãe, sei ler nos olhos e nas atitudes das crianças e percebo se sentem-se bem ou não."
Par entre os pares
Uma questão relevante a ter em conta é a relação das crianças com os colegas de escola. Beatriz Leonardo aprendeu a lição da mãe. Paula ensinou-a a responder que aparecia na televisão apenas porque tinha "sabido aproveitar uma oportunidade de fazer alguns trabalhos". Para, logo a seguir, dar o contraponto: "Mas ainda não sou a Daniela Ruah." Mãe e filha contam a dificuldade sentida quando a pequena passou de um colégio particular para uma escola pública. Houve colegas que nem sempre acharam graça em vê-la na novela da SIC "Perfeito Coração". Acusavam-na de se achar melhor do que as outras. Problema semelhante foi vivido por Beatriz Costa e até por Tiago Correia. O pai do pequeno fadista arruma o assunto de forma simples: "Os outros é que fazem a discriminação." Para a psicóloga Sara Bahia, o importante é que os professores saibam lidar com as diferenças, "porque muitas vezes estas crianças são marginalizadas e vítimas de bullying".
E quando, em lugar do sucesso, o que bate à porta destes pequenos artistas é o fracasso ou o esquecimento? A psicóloga alerta: "O facto de repetidamente se ver na televisão ou noutros meios, de ser reconhecida na rua e, de repente, isto deixar de acontecer, pode deixar marcas." Tiago Correia, por exemplo, é sincero: "Fico triste se não puder ver o público e as suas reações, mas há que ultrapassar isto." E Sara Bahia deixa o aviso: "A criança tem de desenvolver expectativas de que a vida é difícil e que é preciso esforço e trabalho." Talvez por isso, todos os entrevistados repitam o mesmo refrão: "A prioridade é a escola." Ou, variando na forma, como afirmam Beatriz Leonardo e Luís Ganito: "Quero representar, mas quero ter um curso." No fundo, todos percebem a instabilidade inerente à atividade artística num país como Portugal. A melhor explicação vem mesmo da mais nova das entrevistadas: "Ainda não sei bem o que quero ser para além de atriz. Sei que quero ter este meio na minha vida, mas é impossível ser só atriz, porque, quando não tiver trabalho, como é? Não recebo!"
Persistentes, apaixonadas pelas câmaras, seduzidas pelos aplausos e pelos bravos, as crianças artistas, em geral, estão sob os focos porque querem. Porque gostam do que fazem. Esta será sempre a condição principal para que um miúdo aprenda a se desdobrar entre sessões de gravação, ocasionais faltas à escola, noites mais curtas, trabalhos de casa judiciosamente feitos nos fins de semana. Patrícia Vasconcelos traça uma linha de separação entre o trabalho infantil tradicional e o trabalho das crianças artistas: "O prazer que a criança tem em fazer este tipo de coisas é determinante." Mas o prazer não é o único elemento presente neste caminho. Beatriz Costa pressente as dificuldades que a esperam: "Eu quero ser atriz. O meu coração está virado para aí e não há hipóteses. Eu vou lutar por isso e para ser cada vez melhor. Tenho noção de que ainda não sou nada."
Profissão, brincadeira, hóbi. Sempre uma situação complexa. E da boca das crianças vai saindo a verdade: "Fico com borboletas na barriga, até que chego lá e pum! Depois vai passando... Agora que a série acabou, tenho saudades de tudo. Das pessoas, das câmaras..." Luís Ganito, o ex e ainda Carlitos, resume o sentimento dos outros. Aspetos sobre os quais muitos preferem não falar.
Publicado na Única de 3 de Junho de 2011