O ex-ministro da Indústria e Energia, Mira Amaral, defendeu quarta-feira uma solução ibérica para o problema da energia nuclear em Portugal.
"Na minha perspectiva o dossiê do nuclear deveria ser pensado num contexto ibérico", afirmou o ex-governante e actual presidente do banco BIC, justificando esta ideia com a inexistência em Portugal de recursos humanos altamente qualificados, imprescindíveis para este tipo de projectos, e com os elevadíssimos custos relativos aos sistemas de segurança que seria necessário implementar caso se construísse uma central nuclear no nosso país.
Mira Amaral falava durante um debate moderado por José Paulo Santos, presidente da comissão organizadora da conferência Física 2008 na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, na Caparica, que contou ainda com as intervenções de Pedro Sampaio Nunes, consultor do empresário Patrick Monteiro de Barros no projecto da construção de uma central nuclear em Portugal, e Augusto Barroso, presidente da Sociedade Portuguesa de Física e investigador na área da Física das Partículas e Altas Energias.
Da audiência, constituída sobretudo por investigadores e docentes nos domínios da Física, chegou mesmo, já no período do debate, uma proposta concreta.
Conceição Abreu, da Universidade do Algarve, defendeu que a central espanhola de Almaraz, constituída por dois reactores e localizada nas margens do Tejo, a pouco mais de 100 quilómetros da fronteira portuguesa, deveria ser desactivada e substituída por uma central de terceira geração. Um projecto que, em seu entender, deveria ser assumido conjuntamente pelos dois países.
Esta solução teria como vantagem imediata resolver o problema da localização de uma central nuclear em Portugal, tal como referiu Joanaz de Melo, especialista em questões de Ambiente e ex-presidente a associação ambientalista Geota, também presente na assistência.
"Quando, a propósito do processo da co-incineração, que é perfume de rosas em comparação com uma central nuclear, houve o estardalhaço que houve, gostava de ver onde é que se vai encontrar um sítio para construir uma central nuclear em Portugal", questionou Joanaz de Melo.
Prós e contras
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| Central Nuclear de Almaraz, nas margens do Tejo |
| João Carlos Santos |
O debate acabou por servir, sobretudo, para identificar os prós e os contras da energia nuclear mas também das renováveis (solar, eólica e hidroeléctrica).
Sampaio Nunes, partidário da construção de uma central nuclear em Portugal, lembrou que "as renováveis não são assim tão limpas", já que da produção deste tipo de equipamentos resulta a emissão de dióxido de carbono (CO2), enquanto uma central nuclear apenas liberta vapor de água para a atmosfera.
Na sua opinião será ainda necessário dispor de uma solução alternativa para quando não há sol, vento ou água. "É evidente que é o nuclear que nos pode trazer uma solução para este problema", afirmou.
Mira Amaral lembrou ainda o impacto na paisagem, nomeadamente dos parques eólicos.
Já a propósito dos resíduos nucleares, urânio enriquecido (235), que servem de combustível aos reactores, e empobrecido (238), um subproduto do enriquecimento do urânio, Joanaz de Melo contradisse em absoluto a versão avançada por Sampaio Nunes, para quem se resolve este problema isolando os produtos radioactivos.
"Não é verdade que o problema da extracção de resíduos esteja resolvido. Não há nenhum país do mundo que neste momento tenha uma solução definitiva", contrapôs Joanaz de Melo lembrando que há 22 anos, estava no Governo Mira Amaral, Espanha manifestou a intenção de guardar em Aldeadávila de la Ribera, junto à fronteira portuguesa, os resíduos produzidos pelas suas centrais.
Para este ex-dirigente ambientalista, "falar apenas destes resíduos não é sério porque há ainda a extracção". Joanaz de Melo lembrou a grave situação que se vive actualmente nas desactivadas minas de urânio da Urgeiriça, Viseu, onde ainda se registam elevados níveis de radioactividade. "No dia em que, seja onde for, se instale uma extracção de urânio, acabou a agricultura e o turismo nessa região", concluiu.