Convocaram uma nova manifestação para dia 8. Ainda compensa trazer os professores para a rua?
Compensa muito. Mas esta não é uma manifestação com o formato clássico, é uma marcha aberta a todos para manifestar a indignação dos professores, que estão extremamente indignados e zangados com a forma como este Ministério da Educação os tem tratado. A este descontentamento tem de ser dada expressão de rua, para dar um sinal à ministra e à própria sociedade da enorme insatisfação que grassa nas escolas.
Qual é a diferença de figurino?
A Fenprof não quer ser a organizadora com os outros a reboque. Lançamos a iniciativa e todos os que quiserem aderir - e que foram convidados - passam a ser, connosco, promotores desta marcha.
Um dos motivos de queixa dos sindicatos diz respeito à falta de diálogo com o Ministério. Mas, 107 reuniões com os sindicatos em 2007 não é diálogo que baste?
Provavelmente, esta é a equipa ministerial que mais reuniões realizou com os sindicatos. Mas é também a que menos acordo alcançou e que menos flexibilidade demonstrou. E com isto conseguiu uma coisa extraordinária: ter todos os 14 sindicatos contra si.
O problema está na falta de capacidade do Ministério ouvir, ou a vossa incapacidade de transmitir a mensagem?
Penso que não. Os sindicatos mostraram grande flexibilidade, conseguindo, apesar de todas as diferenças, apresentar propostas únicas a discussão. Isso foi uma forma de facilitar o entendimento ao Ministério da Educação. E nem assim.
Estas falhas de diálogo não vos retiram terreno e apoio das bases? Prova disso não é o surgimento de uma série de movimentos autónomos de professores, que não se revêem nos sindicatos?
Alguns desses movimentos têm o nosso contributo. Por exemplo, há uma escola em Aveiro que está de luto há um mês e é o nosso delegado sindical um dos organizadores. O que se contesta são as políticas do Ministério da Educação.
Mas, também, contestam a representação sindical. Estão a perder associados?
Não. Há dois anos, a contagem feita pelo Ministério mostra isso mesmo. A única coisa que os sindicatos perderam, neste momento, foi financiamento. Isso explica-se pelo aumento dos professores desempregados - que não pagam quotas - e pelos milhares de professores que se reformaram que, de acordo com os estatutos, pagam metade da quotização. Não perdemos associados. Os movimentos de entradas e saídas de associados continuam a ser positivos - mas perdemos receitas. O momento é difícil. Lidar com este muro de intransigência que é o Ministério da Educação...
Não é muito diferente dos anteriores...
Não tem comparação. E não digo isto, por ser o actual. Nunca fomos chantageados, como fomos com esta equipa...
Têm usado as mesmas críticas para todos os ex-ministros. Esta ministra tem tomado medidas populares...
Quais? O alargamento do horário do 1º ciclo não é uma medida popular, é uma necessidade... Mas não importa só deixar as crianças na escola. Importa o que lá ficam a fazer! E o que fazem, neste momento, é muito mau. Admito que muitos pais não estejam a acompanhar o que se está a passar.
Nunca um sindicato disse bem de um ministro da Educação. À força de repetirem as críticas não perderam capacidade de ser ouvidos?
Não dizemos nem bem nem mal de um ministro. Falamos de políticas. E fizemos ao longo de anos acordos com os Ministérios. O papel dos sindicatos não é serem almofadas do poder. Somos a parte mais frágil numa negociação e só conseguimos ter vantagem através da acção dos professores... É a única arma que temos.
E as batalhas jurídicas?
Não são uma frente de acção política. Só temos actuado nessa área, porque é uma inevitabilidade, graças aos atropelos que o próprio Ministério faz às leis que produz. Se este Governo agisse dentro da lei, não tínhamos de ir para a Justiça. Há milhares de processos a correr.
Como vê a intervenção do primeiro-ministro na área da educação?
Acho que ele disse banalidades na televisão. Mas, finalmente, reparou que tem um barril de pólvora nas escolas. Fala-se nos recuos na avaliação, na gestão. Eu acho que são recuos tácticos. Os objectivos estratégicos foram conseguidos. O PM veio ao terreno porque percebeu que tem uma panela de pressão, que ou deixa sair algum ar, ou rebenta.
Não vê vantagens nesta tentativa de apaziguar os ânimos?
Era uma necessidade. Até por determinação dos tribunais... mas não resolve o essencial. No novo modelo de gestão, dizer que o presidente do Conselho Geral não podia ser um professor, não era uma proposta, era uma provocação. Agora, deixaram-se de provocações, porque estava a dar mau resultado. Os sinais de algum recuo só mostram que, em linguagem de batalha naval, foi dado um tiro no porta-aviões. Era inamovível e impenetrável, mas foi descoberto. E agora, com um rombo no porta-aviões, é tempo de dar mais força à luta dos professores. Se hoje há indícios, pela primeira vez na Legislatura, de que o Ministério da Educação abriu brechas, isso foi porque a luta foi eficaz. Agora, com estes sinais, não podemos abrandar. Pelo contrário, é preciso mais força. E esse muro há-de cair. Como caíram todos os outros.
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| Para a Fenprof ainda é compensador trazer os professores para a rua |
| João Pedro Tomaz |
A entrada em cena do primeiro ministro foi vantajosa?
Foi o reconhecimento de que esta equipa ministerial, sozinha, não vai lá. Precisámos de subir o nível político de acompanhamento da Educação. Esta equipa só não foi remodelada porque não há ninguém neste País, por mais louco que fosse, que aceitasse agora receber em mãos este pacote!
E a intervenção do PR, serviu-vos de apoio?
O PR percebeu que não há escola de qualidade construída contra aqueles que são actores e protagonistas. Não tenho problema em reconhecer que ajudou. Percebendo o mau tratamento de que os professores estavam a ser alvo, o Presidente foi feliz ao falar na necessidade de acarinhar e respeitar os professores. Como é evidente, se um Presidente da República apoia os professores, eles sentem-se reforçados.
Mudando de assunto, a CGTP sai melhor deste Congresso?
Sai reforçada, sai unida e, sobretudo, sai uma CGTP que mostrou uma grande maturidade e uma atitude democrática muito grande. Soube no Congresso mostrar diferenças, o que é importante porque não somos todos iguais, e em que todos se souberam ouvir mutuamente e, ainda mais importante, souberam respeitar-se. Por isso é que foi possível chegarmos ao fim em clima de unidade, marcando as diferenças, mas convergindo no essencial. O importante é dizer que este Governo não presta, e nisso estamos todos de acordo.
Mas persistem as críticas das diversas tendências sobre a falta de democracia. Sairam 47 dirigentes. Isso não fragiliza a central?
Não. A renovação não fragiliza, pelo contrário. Entraram dirigentes que, apesar de não terem experiência na central, têm nos seus sindicatos ou federações. Terão dúvidas em relação a alguns aspectos, mas vão trazer também novidades, novas formas de actuar, reflexões que não existiam. E se é certo que vêm 47 novos, mantém-se 100 antigos. Digo mais: as organizações ou têm capacidade de renovação e de rejuvenescimento, ou não sobrevivem. Acho que este foi um facto importante, mas um sinal fundamental para os sindicatos e para todo o movimento sindical.
A publicidade das críticas à vida interna da CGTP e as acusações da forte ingerência do PCP na organização, não fragilizam?
Não. Partimos para a luta com toda a força. Faço minhas as palavras de Carvalho da Silva: Os problemas dos partidos em relação ao movimento sindical é que há partidos que só dão importância ao poder. Nomeadamente, o PS. Estar nos sindicatos é mais complicado, não tem benesses, subvenções vitalícias, reformas para a vida, ajudas de custo...
Não estamos a falar num partido de poder...
Mas o que digo é que, infelizmente, há partidos que só dão importância ao poder. Depois, há partidos que dão mais atenção ao contra-poder. Também não se pode querer que haja uns e que não existam os outros. Faz parte.
Não acha que a CGTP tem história suficiente para poder declarar independência?
Não acho que a CGTP esteja na dependência. Eu tenho assento na comissão executiva na qualidade de dirigente da Fenprof, independentemente do partido a que pertenço. O mesmo se diz em relação a muitos outros sectores. A maioria dos membros da executiva estão lá é porque representam os maiores sectores.
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| Para dia 8 de Março está prometido uma manif com um figurino fora do clássico |
| Jorge Simão |
São todos do PCP...
Mas se amanhã forem outros, serão de outros partidos. Há, depois, uma parte da comissão executiva que representam as sensibilidades, mas isso faz parte da história da CGTP. Na Fenprof, por exemplo não é assim. Mas essa cultura da CGTP, respeito-a e percebi que esse equilíbrio é muito importante. Nem me meto nessa discussão.
A interferência do PCP - que vai negar - condiciona, ou não, a vida da CGTP? O forcing de ataque ao Governo, neste momento, é um calendário sindical ou político-partidário?
A carta reivindicativa, os compromissos gerais da luta aprovado e as lutas previstas foram todas aprovadas em Congresso. Como disse Carvalho da Silva, são um sério aviso ao Governo e tudo foi aprovado por todos os dirigentes. Fossem comunistas, socialistas, bloquistas, católicos. Não percebo que se fale na agenda de um partido com estas assinaturas!. É uma agenda sindical. Como foi a manifestação que põs 200 mil pessoas na rua. Senão fosse uma organização dos sindicatos, seriam quase tantos manifestantes quanto os votantes num partido...
Esse aviso mais sério é o quê. Depois de duas greves gerais, várias da função pública pretendem fazer o quê?
Aguardamos as propostas sobre as alterações às leis laborais. Claro que não temos grandes expectativas, depois do relatório da comissão do livro branco. Mas vamos ver se depois do diagnóstico grave que foi feito, o que se receita é a morte do doente, ou não. Vamos ver se o que o Governo propõe. O aviso está feito. Toda a gente nos órgãos da CGTP estão de acordo que, se as propostas de alterações do código de trabalho forem as que esperamos, terá de haver uma forte resposta.
Sentiu-se como o sucessor de Carvalho de Silva?
Eu? Não. Tenho um compromisso muito forte, neste momento, com os professores.
Neste momento. E daqui a quatro anos?
Não, nem pensar. Nem há um ano que sou secretário geral da Fenprof!
Foi apontado, várias vezes. Este pode ser o seu tempo de estágio?
Fiz o meu estágio há mais de 20 anos. E devo dizer que tenho aprendido imenso neste tempo na CGTP. Porque estamos a falar de um mundo imenso.
Lá está, é um estágio...
Não nesse sentido. É um privilégio. Mas, também, um mundo muito exigente. Essa não é a questão. O Manuel Carvalho da Silva está agora a começar um mandato. Tem apenas alguns dias de secretário geral e penso que vai fazer um excelente trabalho. E penso que a CGTP, quando chegar a altura própria - e não será só daqui a quatro anos - vai saber encontrar soluções. Não é uma questão de sucessão, que não somos nenhuma monarquia. Vai ser possível encontrar quem reúna as melhores condições, naquele momento, para coordenar este grande colectivo. A CGTP tem essa capacidade de decidir na melhor forma, tendo em conta os interesses dos trabalhadores.
E tendo em conta esses pressupostos, estará disponível?
Se o interesse do colectivo for que qualquer um de nós avance, falta a outra parte: estando reunidas as condições do colectivo, falta a vontade do próprio. E daqui a quatro anos, muita coisa pode acontecer.
Essa matéria ainda não foi abordada, mesmo sabendo-se que este é o último mandato de Carvalho da Silva?
Não. Está fora de questão que saia a meio, mas também que se recandidate. A CGTP sabe disso: tem a responsabilidade de, até 2012, encontrar nos seus órgãos quem vá ser o coordenador. Tem toda a calma para o fazer. E essas coisas não se decidam a quatro anos de distância. Imagine que, em 2010, vou ao Congresso da Fenprof e perco? Já não vou para a comissão executiva.
Um perfil como o de Manuel Carvalho da Silva é fundamental para manter a CGTP?
É muito importante, de uma extrema e elevada importância, mas não diria fundamental. Ele é o secretário geral que a CGTP necessitava neste momento. Daqui a quatro anos, vamos ter o melhor secretário geral que a CGTP pode ter. Se é igual a MCS, não vai ser certamente. Há que ter uma coisa dele: que, acima de todos os interesses, coloque os interesses dos trabalhadores. O estilo é o menos importante para levar este barco. Sobretudo nesta altura, em que a actividade sindical é mais perseguida, reduzida e difícil de ser desenvolvida.
Versão integral do texto publicado na edição do Expresso de 23 de Fevereiro de 2008, 1.º Caderno, página 3.