Miguel Relvas, o "diabinho negro"
1. As declarações do Bispo D. Januário Torgal suscitaram a indignação profunda do Governo, com o Ministro da Defesa Nacional, José Pedro Aguiar-Branco, a ser o mais truculento nas suas críticas. O argumento foi o mesmo de sempre: o Bispo deve limitar-se a rezar as suas missas, fazer as suas orações - e deixar a política para os políticos. Este é um argumento completamente desprovido de sentido: então, o talhante não pode pronunciar-se sobre questões políticas, pois a sua função é cortar carne; o jardineiro, não pode opinar sobre os assuntos mais relevantes da colectividade, pois a sua função é tratar das tulipas e das rosinhas; o matemático não pode contestar o Governo, pois só se deve exprimir para transmitir a magia e complexidade dos números. Como se pode ver, trata-se de um argumento ridículo. Além do mais, o Bispo integra-se numa instituição com um grande enraizamento popular em Portugal - a Igreja Católica - cujo trabalho social é notável, permitindo mitigar o sofrimento e as dificuldades de muitos dos nossos compatriotas. Se há instituição que pode e deve tecer comentários políticos em Portugal, essa instituição é a Igreja Católica. Porque sente as aspirações e angústias das pessoas. Porque sabe a dimensão exacta das suas dificuldades diárias. Porque é no serviço para o outro e pelo outro que a Igreja Católica se define e se concretiza em cada momento histórico. Nem se diga que há uma interdição geral de os Bispos intervirem no comentário político decorrente do princípio da laicização do Estado: a laicização, prevista no artigo 41.º/4 da Constituição da República Portuguesa, significa que o Estado não pode adoptar uma religião oficial, nem pode interferir na organização interna e no funcionamento dos serviços de culto. De outra banda, a Igreja Católica não poderá desempenhar funções políticas - mas deve sempre pronunciar-se sobre a política e o destino de Portugal.
2. Isto dito, o ponto mais polémico da entrevista de foi a afirmação de que os nossos políticos - muitos deles - comportam-se como "diabinhos negros", defendendo os seus próprios interesses e descartando para um plano secundário o interesse nacional. Ora, D. Januário tem toda a razão: podemos ou não discordar do seu estilo acutilante, sem rodeios, mas todos sabemos que os governantes dos últimos largos anos se enredaram em teias de interesses, tomando decisões muito negativas para Portugal. Mas todos sabemos quem é o principal alvo de D.Januário: Miguel Relvas. Miguel Relvas representa a antítese do "governante ideal", preocupado com o devir colectivo. Como D. Januário referiu - e muito bem! -, há políticos que subiram brutalmente na vida após desempenharem cargos públicos. Ora, Miguel Relvas melhorou exponencialmente a sua vida após a passagem pelo Governo Durão Barroso, o que explica que seja um dos Ministros com rendimentos mais elevados, apenas superado por Paulo Macedo.
Enfim, Miguel Relvas tem um passado que suscita dúvidas, inquietações, suspeitas. Tem um presente fragilizado pelo caminho facilitista que resolveu seguir. Miguel Relvas é o verdadeiro défice de Portugal: representa a vitória do "chico-espertismo", é encarado como o representante dos lobbys no Governo , difundindo a desconfiança crónica entre os portugueses. É que se Miguel Relvas actua com pouca transparência na sua vida privada, legitimamente, podemos desconfiar que não altera os seus padrões quando trata de assuntos públicos. Miguel Relvas, numa frase, representa o verdadeiro défice português: o défice de qualidade políticas e éticas dos que nos governam. Se Passos Coelho não demitir Miguel Relvas até Setembro/Outubro, pagará uma enorme factura política. Ele é o diabinho negro do Governo.
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