Michael Phelps: "No início até nem gostava de água, não tinha feeling"
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A Wikipédia não perdeu tempo: poucos momentos depois da última prova de natação dos Jogos Olímpicos, apresentava Michael Phelps como o "ex-nadador americano". As provas sucederam-se, o tempo não volta atrás, mas há coisas na vida da 'Bala de Baltimore' que nem com o passar dos anos mudam. Como o mediatismo.
Por isso, Phelps tem andado a desdobrar-se em entrevistas e eventos dos muitos patrocinadores que o apoiam. O Expresso marcou presença no encontro de hoje, numa zona central da de Londres, onde o atleta com mais medalhas de sempre nuns Jogos Olímpicos foi empossado como Embaixador da Confiança da Head & Shoulders e, no final, respondeu a algumas perguntas sobre passado, presente e futuro.
Antes, e porque heróis há muitos (só não são como ele), Michael Phelps entregou o "Head & Shoulders Confidence Award" de 2012 a William Watson III, um miúdo de sete anos de uma zona problemática de Knoxville que viu o pai ser assassinado em abril e agarrou-se às piscinas para não ir abaixo no presente e procurar um futuro melhor.
"A confiança é muito importante. As pessoas têm problemas, todos temos problemas. Mas o que interessa é perceber que, na vida, tudo se consegue alcançar - é a minha principal mensagem. Por isso, entregar este prémio é uma grande honra para mim", disse. A criança, que andava aos saltos e bem-disposta antes do evento, agarrou-se à perna do nadador e desatou a chorar.
O início aos soluços
A carreira de Michael Phelps é um marco que fica para a história. Por todas as razões e mais algumas. Mas é uma carreira que, no início, esteve mesmo para nem sequer começar porque Phelps não era adepto... da água. "A minha mãe colocou-me na água da piscina numa perspetiva de proteção, uma questão de segurança, só para aprender a nadar. No início tinha quase medo, até nem gostava muito da água, não tinha feeling. Depois, tudo isso mudou e consegui atingir todos os meus objetivos, com grande confiança", admite.
Confiança. Aquelas brincadeiras à volta da palavra "tranquilidade" que Paulo Bento, o selecionador nacional de futebol, tanto apregoa nas conferências são uma coisa mínima se comparadas com as vezes que Phelps utiliza o termo "confiança". E verdade seja dita, foi com esse estado de espírito que o ex-nadador bateu 37 recordes do mundo e conquistou 22 medalhas olímpicas, a mais importante de todas nos 400m estilos de 2004, em Atenas.
"Foi a primeira nos Jogos. Treinei uma vida inteira para aquele momento e foi um dos melhores dias da minha vida. Mas todas as medalhas foram especiais, não faço qualquer distinção. Sabem, é difícil colocar emoções em palavras..."
O arranque aos trambolhões
"Olhem para mim, já viram? Estou a rir, todo contente!". A descompressão é notória, Michael Phelps vive num misto de orgulho por tudo aquilo que ganhou e de quase alívio por já não ter de estar sujeito a regimes específicos que o obrigavam a abdicar de muitas coisas. Mas a história, pelo menos em Londres, começou da pior forma: teve dificuldades em apurar-se nos 400m estilos, exatamente a primeira prova que o fez subir ao lugar mais alto do pódio nos Jogos, e terminou a final em 4.º, atrás de Ryan Lochte (EUA), Thiago Pereira (Brasil) e Kosuke Hagino (Japão).
"A seguir à corrida estava frustrado. Sei que numa final tudo pode acontecer mas fiquei chateado comigo mesmo. E se calhar foi isso que me deu mais confiança para ganhar tudo o resto". Que foi, 'apenas', quatro medalhas de ouro e duas de prata. Aliás, em termos individuais Phelps só perdeu mais uma final (200m mariposa), contra o sul-africano Chad le Clos.
"Conhecê-lo e competir com ele foi fantástico. Quando disse que viu tudo o que fiz em 2004 e queria repetir foi... fascinante! E o meu conselho é o mesmo de sempre: só precisa de confiança para fazer o que quer. É uma grande competidor, trabalha muito, veremos o que acontecerá no futuro. Temos a diferença de ele jogar Playstation e eu Xbox, mas já falámos na hipótese de eu ir à Cidade do Cabo passar umas férias", conta.
O futuro de sorriso nos lábios
Muitos desportistas lidam mal com o final da carreira. O nadador Ian Thorpe, uma das maiores referências de Phelps, é um bom exemplo disso. Não sabem o que fazer, pensam umas coisas, executam outras, no caso do australiano tentam um regresso que termina em frustração. Mas a 'Bala de Baltimore' tem a resposta engatada para essa dúvida.
"Não sei bem o que sinto ainda, essa coisa do final de carreira. Foi uma grande experiência e estou agradecido à minha família, que me acompanhou sempre neste caminho. Mas não tenho medo nenhum do futuro, isso não tenho. Já viram como ando divertido?", dispara, antes de revelar um dos muitos projetos que tem para o futuro: "Tenho passado muito tempo com crianças, sobretudo desde que criei a minha fundação, em 2008. É fantástico, posso partilhar experiências, ouvir as suas conversas e receios, mostrar que devem perseguir sempre os seus objetivos. Agora sim, vai ser divertido! Olhem para mim, todo contente!".
Dez minutos depois, mais coisa menos coisa, estava encerrado o curto período de perguntas e respostas. A agenda de Michael Phelps não tem provas marcadas mas continua cheia. O nadador sai do espaço a subir umas escadas de dois em dois degraus. O que fica é o legado - o americano é o melhor de sempre na história dos Jogos Olímpicos. Com confiança, claro.


Chris Helgren/Reuters
"Agora sim, vai ser divertido! Olhem para mim, todo contente!", disse hoje Michael Phelps aos jornalistas
