Óbvio suspeito de inclinações pedófilas, não há muito tempo, o Pai Natal terá porventura entrado em queda nestes últimos anos. Admite-se porém que, a avaliar pelo silenciamento a que foram submetidos tais casos, não tardará a que o generoso velhote venha a lucrar com a erradicação do que se afigurava autêntica epidemia. Bem ficará pois o nosso Pai Natal de consciência sossegada, cuidando de suas renas com absoluta disponibilidade de espírito, e desculpado de todo e qualquer arrependimento.
Outra ameaça espreitaria contudo o indefectível amigo da Coca Cola, reduzindo-lhe a actividade desbordante, e apagando-lhe a alegria no rubicundo rosto. Consumidor obsessivo de inutilidades, e promotor das falsas apetências de seus fiéis, o ancião da Lapónia acabaria por enfrentar constrições agudas, com as quais nem os adjuntos duendes, tão dados a fantasias, alguma vez terão sonhado. Tornar-se-ia por isso o Pai Natal viva ilustração de uma certa obscenidade, a que não se detém ante as tentações da mesa, se se considerarem os inalterados refegos que o identificam.
Aproveitando este acervo de circunstâncias, o gabinete de campanha do Menino Jesus avançaria com um retrato deste, deitadinho na manjedoura, sob a forma de um pano do pó mal estampado, e aparentemente incapaz de competir com a imagem do velho barbudo que por aí ciranda ainda. De facto como anular o desenvolto charme do Pai Natal clássico, trepando às chaminés, e penetrando nos apartamentos, ou saindo deles, com a destreza de um larápio espertalhão que ostentasse o nédio rabiote como certificado do conforto em que vive? Mas a quebra dramática do poder de compra do paternalista lapão redundaria em benefício dos propósitos do recém-nascido Menino Jesus, apontando a alternativa de uma modéstia que incita a acorrer às lojas chinesas, agora que se trata de optar por lembranças baratuchas.
Enxofrado como se compreende, reverteria assim ao seu Norte profundo o nosso Pai Natal, de trenó atafulhado de volumes sem escoamento, e a troçar com ruidosos ho-ho-hos das dádivas com que depararem as crianças portuguesas. É que, não sendo bonito oferecer os presentes que recebemos, não as contemplaria o Menino Jesus com oiro, incenso e mirra, e nem mesmo com os produtos da faina agro-pastoril. Terá deixado ele no entanto, a brindá-las no Inverno do nosso descontentamento, uma bucha de pão, ou tão-só um sorriso finalmente tranquilo.